ENTRE O ESPELHO E A RESISTÊNCIA: RUBY RIVERA FALA SOBRE SER TRANS EM SJDR

Vitor Ramiro, Sarah Rezende, Dezuite Alaniz,
Pedro Oliveira, Rodrigo Almeida e Gabriella Canuto

Ruby Rivera se olha no espelho como quem reencontra uma velha amiga. Há nela um reflexo antigo, que volta em forma de memória: a menina que calçava a Melissa da Xuxa e desfilava no quarto da vizinha, sob o olhar cúmplice de um espelho e um mundo que ainda não a entendia. Era um tempo em que se chamava Emanoel, nome que hoje repousa no passado, como uma roupa que nunca lhe serviu direito. “Ser uma mulher no corpo de um homem (…) o Emanuel não condizia com quem eu era”.

Aos 38 anos, Ruby carrega marcas, histórias, silêncio rompido e o gesto de quem insiste em existir plenamente, mesmo quando o mundo tenta apagar. A transição, para ela, foi uma emoção grande, um sonho acalentado por anos que se concretizou na troca de nome, um ato de libertação. A cada show, clipe ou apresentação, Ruby resgata a criança que desfilava no espelho, trazendo essa essência para a mulher forte e expressiva que é hoje.

Ela se assumiu em 2003, mas foi em 2008 que começou a viver Ruby em tempo integral. “Quando você se assume, você se liberta. Sai do armário, realmente”, comenta. E ela saiu. Não teve manual nem apoio incondicional, e sim coragem. Teve pressa, inclusive, quando o cenário político ameaçava o direito básico de se chamar pelo próprio nome. Quando em 2019, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (então no PSL, hoje no PL), se posicionava publicamente contra o avanço de políticas voltadas ao bem-estar dessa população.

Em meio a um país dividido, Ruby lançou uma vaquinha virtual e correu contra o tempo para oficializar aquilo que, para ela, sempre foi verdade.

Uma corrida contra o tempo

A formalização do nome, em 2019, não foi simples. Em meio a um cenário político nacional ameaçador, com o risco de retrocessos nos direitos transsexuais, Ruby correu contra o tempo. “Fiquei com medo de não conseguir fazer essa mudança de nome”, relata.

Com a ajuda do conhecido influenciador Victor Brandão, ela lançou uma vaquinha on-line que, em menos de uma hora, arrecadou o valor necessário para o processo. Essa urgência simboliza a luta constante por direitos que, para a população trans, estão sempre sob ameaça.

Sobrevivência, aliás, é uma palavra que pesa diferente para quem é trans no Brasil. Ruby fala disso com clareza: “o índice de vida trans no país é 32, 35 anos… Fazer 38 é uma honra. É superação, é felicidade.” E é mesmo. Ruby conta em meio às suas histórias que já foi prostituta. Começou em 2004, antes mesmo de se formar. Ela não romantiza a prática, mas também não se envergonha da época.  A vivência, para ela, é a matéria-prima de sua força como pessoa.

“A gente acha que é conto de fadas e quebra a cara. Mas não me arrependo. A gente se arrepende daquilo que não vive”, relata.

As dificuldades com a saúde também se impõem. Embora São João del-Rei não ofereça ambulatórios focados em atendimentos para pessoas transsexuais, o encaminhamento para Belo Horizonte via SUS é burocrático e exige sacrifícios. Ruby conta sobre perder consultas após longas esperas, a necessidade de viajar de madrugada e a decisão de optar por silicone em vez de hormonização, devido às restrições com fumo e álcool. Para ela, a máxima é clara: “Tudo na vida é com sacrifício. (…) Se tiver medo, vai com medo mesmo. E seguir em frente, cabeça erguida. Eu nunca desisti do que quero”.

Hoje, vive como vendedora autônoma e cuida da mãe de criação, que enfrenta o Alzheimer. Ruby também atua como digital influencer e está envolvida em ações sociais: ajuda crianças, andarilhos, pessoas invisíveis demais para o resto do mundo. Faz pela necessidade de ajudar, por saber o que é ser ignorada.

Acolhimento e regressão

Em São João del-Rei, a cidade onde mora, Ruby sente que os avanços da causa LGBTQIA+ foram freados, quase em um movimento de regressão. A ausência da Parada LGBT+ na cidade é um sintoma doloroso dessa estagnação. “Parece que regredimos. Já não temos mais a Parada LGBT+”, lamenta.

Ela critica a percepção equivocada de parte da população, que vê o evento apenas como “sexo, drogas e libertinagem”, ignorando que, para a comunidade, a Parada é um espaço vital de luta e visibilidade, essencial para reivindicar direitos e celebrar a existência. Para Ruby, a batalha por reconhecimento e respeito não se limita a um único dia; ela se manifesta e se impõe em cada amanhecer.

A inação do poder público local é um ponto de profunda frustração para Ruby. Ela não mede palavras ao criticar a falta de apoio à comunidade trans e LGBTQIA+. Segundo ela, as autoridades “não tão nem aí” para as necessidades desse grupo, focando apenas em “dinheiro” e nos próprios interesses.

“Se depender deles, a morte come”, afirma, com a amargura de quem vê a vida da comunidade ser ignorada pelas instâncias que deveriam protegê-la. Essa omissão resulta na ausência de políticas públicas eficazes e de espaços de acolhimento, forçando a própria comunidade a “mover céu e terra” para garantir o mínimo de direitos e visibilidade, como o retorno da Parada. Mesmo diante desse cenário de abandono institucional, Ruby mantém a convicção de que “o preconceito está fora de moda” e que, no fim das contas, “o que importa é o amor”.

A carência de representação legislativa que efetivamente acolha e proponha soluções para as pautas LGBTQIA+ no município agrava esse cenário de abandono. A ausência de vozes ativas e compromissadas no legislativo local impede que as demandas dessa população sejam traduzidas em projetos de lei ou em destinações orçamentárias específicas, perpetuando um ciclo de invisibilidade e precarização.

A Ruby sem alegoria

No corre-corre diário, Ruby mostra a face mais autêntica de sua existência. Sem o “close” dos holofotes ou a “alegoria” das grandes produções, ela se apresenta como a Ruby do dia a dia: de cabelo preso, sem maquiagem, muitas vezes de chinelo. É nessa simplicidade que reside uma beleza ainda mais profunda, um convite a ver a pessoa por trás da figura pública. 

Ruby compreende que sua visibilidade, mesmo que, por vezes, a coloque no centro de polêmicas ou dificulte a busca por empregos formais em São João del-Rei, é também uma plataforma. Ela se reinventa nas vendas autônomas e usa sua voz como influenciadora digital para auxiliar quem precisa, doando cestas básicas a famílias e divulgando desaparecidos. Para ela, o bem-estar do próximo é uma prioridade, um reflexo de sua própria trajetória de superação e da consciência do que é ser ignorado.

Embora o nome tenha vindo da televisão – Rubi, a da novela de 2004, com Bárbara Mori eternizada até mesmo em sua pele, Rivera herdado de Angélica, de “Destilando Amor” – a mulher por trás do nome é real, é presente, é política. “A Ruby do dia a dia, sem close, sem alegoria”, comenta. É representação, superação e resistência.

Mais que isso, Ruby é inspiração, de vida e de presença. “Se você não faz mal pra ninguém, pode ser o que quiser”, diz ela. E talvez esse seja o ponto: ser o que se é, quando isso já é, por si só, um ato de amor.


Supervisão: Márcia Rosa

Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: Ruby Rivera em sua casa / Foto: Vitor Ramiro

Deixe um comentário