CONTRA A VIOLÊNCIA, A EXISTÊNCIA: MULHERES TRANS FAZEM HISTÓRIA EM SJDR

Vitor Ramiro, Sarah Rezende, Dezuite Alaniz,
Pedro Oliveira, Rodrigo Almeida e Gabriella Canuto

O foco desta reportagem é ouvir as vozes e escutar histórias de descobertas, lutas, coragem, e principalmente, de afirmação de identidades. Ao longo de três entrevistas, mulheres trans e travestis foram ouvidas. Nesta série especial, publicada pelo Notícias del-Rei, elas compartilharam suas vivências, desde as primeiras percepções na infância, passando pela transição, até a luta diária por respeito e reconhecimento.

Fotos: Sarah Resende, Rodrigo Almeida e Vitor Ramiro / Ilustração: Vitor Ramiro.

Danielly Cassiano, Ruby Rivera e Lunna Beaumont são as protagonistas desses relatos. Cada uma, à sua maneira, construiu suas próprias redes de apoio e participam ativamente nas lutas políticas em busca de respeito e igualdade. Agora, elas têm suas vozes ouvidas.

São histórias de alegrias, conquistas, afetos, amor, humor, orgulho e resistência. Mas, também, de medos e dificuldades.

Obstáculos

O desafio de existir (e resistir) se impõe às pessoas que não se identificam com o gênero designado ao nascimento cotidianamente, especialmente no Brasil. Pelo 16º ano consecutivo, é o país que mais mata pessoas trans e travestis, de acordo com dados levantados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais, o ANTRA. Só em 2024, foram 122 mortes.

Esse número não abarca, os diversos outros tipos de violência enfrentados, como as agressões físicas, abusos sexuais, humilhações públicas, discriminação institucional. De fato: ao sair na rua, mulheres trans e travestis estão, a todo tempo, correndo risco de morte. Não por menos, a expectativa de vida dessas mulheres no Brasil é de apenas 35 a 40 anos, de acordo com o ANTRA. Isso significa menos da metade da expectativa do resto da população brasileira, que chega até a média de 70 anos.

E não é apenas a violência física que entra no cerne desse jogo. A violência simbólica também se faz presente rotineiramente, seja através do não reconhecimento de suas identidades, a dificuldade no acesso à educação e na inserção no mercado de trabalho ou no preconceito diário enfrentado.

A saúde é outro campo onde a exclusão se evidencia. Mulheres trans relatam dificuldades no acesso a consultas, tratamentos hormonais e cirurgias de redesignação sexual pelo SUS, além de enfrentarem o despreparo e a transfobia de muitos profissionais de saúde. A consequência é uma piora significativa na saúde física e mental dessa população. Depressão, ansiedade e ideação suicida são indicativos claros da negligência histórica e do estigma social.

E embora alguns direitos tenham sido alcançados, como a  retificação do nome e do gênero em documentos oficiais sem a necessidade de cirurgia ou laudo médico, ainda são muitos os desafios.

Para tentar sanar alguns desses buracos deixados pelo campo político e pela sociedade, no que diz respeito à vivência trans, chega o Projeto TransFormação da UFSJ. A iniciativa, ligada ao curso de Psicologia, surgiu da escuta atenta às experiências de exclusão vividas por pessoas trans e travestis em São João del-Rei. 

Com foco no acolhimento e na construção de trajetórias educacionais e profissionais, o projeto oferece sessões de aconselhamento de carreira e acompanhamento psicológico, respeitando a singularidade de cada participante. Apesar dos esforços, a adesão tem sido um desafio.

“É muito difícil alcançar essas pessoas aqui na cidade. A gente precisa ir atrás, procurar quem já conhecemos, contar com o boca a boca”, explica Maria Peu, ex-bolsista e colaboradora do programa. 

Ela aponta também para uma distância entre a universidade e a comunidade local. “A gente tenta levar algo que beneficie a população, mas muitas vezes não somos levados a sério. Falta essa troca, esse diálogo com a cidade”, comenta.

Ainda assim, com estratégias como a divulgação pelas redes sociais e reformulações no processo de acolhimento, os participantes do projeto seguem tentando romper as barreiras do conservadorismo local e ampliar o alcance de ações inclusivas e transformadoras.

Resiliência

Apesar de todos os obstáculos, mulheres trans seguem resistindo e reconstruindo suas trajetórias com dignidade. Algumas conquistam diplomas, outras constroem carreiras no serviço público, na moda, na arte ou na militância. São exemplos de superação que merecem visibilidade, não como exceção, mas como prova de que, quando há oportunidade, a transformação é possível.

As três protagonistas dessa reportagem – Lunna, Ruby e Danielly – moram na cidade de São João del-Rei e relatam um pouco de suas experiências de vida e de luta. Ao longo das entrevistas, é abordado não apenas os desafios, mas também os pontos de conforto, confronto e redes de apoio encontradas. As alegrias e os trabalhos sociais que essas mulheres empregam no município, que ajudam e dão suporte às outras que vivem essa mesma realidade, também são contados. 

É importante, claro, falar dos percalços e das violências enfrentadas, mas reduzir o discurso somente a isso é negar toda a humanidade e complexidade existente em cada corpo, em cada trajetória. A cada relato, fica evidente que ser trans é construir caminhos para si e também para outras que virão. Não é só lutar, mas viver com dignidade. É como diz Ruby Rivera em sua entrevista: “quando você se assume, você se liberta”. 

Dar voz a essas vivências então, é, mais do que nunca, reconhecer que existir – e resistir – é um ato político e profundamente humano.

Leia as reportagens

Abaixo, você pode ler as reportagens na íntegra:


Supervisão: Márcia Rosa

Edição: Arthur Raposo Gomes

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