Letícia Campos, Marina Peron,
Maria Luisa Maia Souza e Pedro Sacco Fonseca
Apesar de o prefeito eleito de Entre Rios de Minas, Thiago Itamar TED (Avante), não ter nenhum vereador na Câmara Municipal eleito pelo próprio partido, neste primeiro ano de mandato tem conseguido estabelecer uma relação de parceria com o Legislativo Municipal. Dos nove vereadores eleitos, seis compunham a chapa do candidato Dr. Bruno Saldanha (MDB), segundo colocado no pleito. O prefeito foi candidato apenas pelo Avante, sem outros partidos na coligação, e não elegeu nenhum vereador.
Eleito, no entanto, Thiago Itamar TED atuou para fazer uma aproximação com a Câmara, o que tem resultado num início de governo de estabilidade na relação entre os poderes, que pode ser verificado na quantidade de projetos aprovados pelo Legislativo de autoria do Executivo: foram 40 iniciativas, muitas do próprio prefeito, ratificadas pela Câmara.

Ao todo, são 26 projetos aprovados de iniciativa do Executivo – cerca de 65% da pauta analisada pelo Poder Legislativo. O vereador com mais projetos de lei aprovados pela Câmara é Lucas Advogado, com sete proposituras (ou 17,5% do total). Rafael Neto tem duas propostas ratificadas pelo Legislativo, enquanto os vereadores Amintas de Moura Ferreira, Cláudio dos Reis Lima e José da Silva Fernandes contam com uma cada. Há, ainda, duas propostas encaminhadas e referendadas pela Casa Legislativa.
“A Câmara se propôs a montar uma Mesa Diretora que apoiasse o Executivo, para que se dê encaminhamento aos projetos. Até o momento, a relação está sendo harmônica entre Executivo e Legislativo”, afirma o presidente da Câmara Municipal de Entre Rios, Fernando Enfermeiro (PDT), que ressalta, à reportagem, a necessidade de se estabelecer um projeto político viável que dê andamento aos projetos já aprovados, viabilizando recursos para melhoria do município. Entre Rios de Minas fica a cerca de 70km de São João del-Rei.

Já o vereador de primeiro mandato Lucas Dias Advogado (Republicanos), por sua vez, avalia: “a relação entre o prefeito Thiago Itamar (TED) e o Legislativo, no momento, é marcada por harmonia e cooperação. Entretanto, é essencial destacar que a Câmara deve preservar, de forma inegociável, sua independência. Isso vale independentemente de a maioria de seus membros estar na base de apoio ao governo ou na oposição”.

Atualmente, a Mesa Diretora da Câmara é composta pelo presidente Fernando Enfermeiro (PTB), o vice Rafael Neto (Republicanos), o secretário Antônio Bituri do Táxi (PSD), e o segundo secretário Cláudio da Patrol (Republicanos), todos que faziam parte da coligação de apoio à candidatura majoritária derrotada nas eleições municipais de 2024.
De janeiro a outubro, a Câmara votou 40 projetos. Destes, o maior volume foi de iniciativas voltadas para autorização de parceria do Executivo com entidades da sociedade civil (culturais, assistenciais, de saúde), com destaque para a matéria que autorizou a participação do município no Consórcio Intermunicipal de Gestão e Desenvolvimento Ambiental Sustentável das Vertentes (Cigedas Vertentes). Foram 11 iniciativas, representando 25% do total.
No entanto, os projetos que mais movimentaram a cidade foram voltados para a área da saúde. O mais destacado deles é a celebração de parceria entre a APAE e a prefeitura que coloca Entre Rios de Minas na vanguarda do diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA). A aprovação da pauta do executivo com a entidade assistencial vai trazer para o município o equipamento de Eye Tracking, de rastreio ocular, que permite a avaliação clínica não invasiva a partir dos seis meses de idade para identificação de sinais de autismo em crianças. Com essa aquisição, que vai custar para os cofres públicos R$ 120 mil, Entre Rios de Minas se torna o primeiro município mineiro a contar com a tecnologia.
Para a saúde, foram ratificadas pela Câmara cinco projetos (ou 12,5% do total). Além disso, também foram analisadas cinco matérias de caráter orçamentário (como abertura de crédito suplementar e aprovação da lei orçamentária de 2026), dois projetos sobre a manutenção de lotes urbanos, e, com apenas um projeto cada, propostas que tratam sobre estradas rurais, educação, transporte universitário, meio ambiente e lazer.
Por fim, a Câmara Municipal também votou projetos de lei que tratam sobre o funcionalismo público: um que reajustou os vencimentos em 2025, outro que instituiu o uso de equipamentos de proteção individual para agentes de endemias e outros funcionários, e, por fim, aquele que possibilitou o vale-alimentação a servidores do legislativo – proposta que gerou muita polêmica na cidade sobre a legitimidade desse tipo de pagamento.
Ela é declaradamente de oposição e defende a mudança administrativa da regional de Saúde
Ainda que o clima geral seja de harmonia entre Câmara e Prefeitura, também existem divergências importantes no debate político de Entre Rios de Minas.
Única vereadora mulher e declaradamente oposicionista, Sarah do Marinho (União Brasil) é defensora da mudança administrativa da regional da saúde do município para a microrregião de São João del-Rei – tema polêmico que já gerou muita animosidade e inclusive troca de ofensas no debate público. Atualmente, Entre Rios de Minas pertence à microrregional de Congonhas.

Em vídeo postado em suas redes sociais, a vereadora chegou a enumerar possível série de vantagens que o município teria com a mudança.
Segundo a parlamentar, São João del-Rei conta 20 unidades de terapia intensiva contra dez de Congonhas, além de ser a única delas com CTI neonatal. Entre outros motivos apresentados por Sarah estão um atendimento mais completo e integrado às gestantes; uma logística de acesso mais facilitada (rodovia com menos tráfego); serviço regular de hemodiálise disponível apenas em São João del-Rei; e uma possível saturação dos serviços de saúde em Congonhas devido ao grande número de empresas do setor de mineração. Contactada, a parlamentar não respondeu aos contatos da reportagem. O espaço segue aberto.
Em 14 de agosto, o prefeito TED se pronunciou publicamente sobre o assunto, por meio de sua conta no Instagram, afirmando que sua administração vinha sofrendo ataques por supostamente não apoiar ou dar encaminhamento à mudança administrativa da regional da saúde. No entanto, o mandatário defendeu que a prefeitura fez a consulta sobre essa possibilidade e recebeu como resposta que a mudança também deveria incluir a regionalização da assistência social.
Além disso, TED enfatizou que em termos de rota, logística e até da porta de entrada no Sistema Único de Saúde, manter Entre Rios de Minas no raio de atuação da regional de Congonhas faria mais sentido e seria mais benéfico para a população. O chefe do Poder Executivo de Entre Rios de Minas também não atendeu a reportagem até a publicação desta matéria.

Para o presidente da Câmara, existem prós e contras tanto na troca quanto na manutenção da cidade de Entre Rios de Minas na atual regional de saúde.
“São João del-Rei é ótima, tem dois hospitais maravilhosos, mas é muito burocrático o desenrolar dos procedimentos, para fazer as coisas. Já em Congonhas, a demora se dá pela quantidade de filas, pela superlotação. O sistema de saúde em si é muito burocrático, falta um contato direto do profissional com o paciente, e isso é uma coisa que precisa ser melhorada, mas não é algo só de Entre Rios de Minas, é de todo o Brasil”, afirma o vereador Fernando Andrade Maia, mais conhecido como Fernando Enfermeiro.
As relações de poder
Com apoio majoritário da Câmara Municipal, porém, o prefeito consegue aprovar as principais demandas que o Executivo envia ao Legislativo. Diferentemente do que se observa na esfera federal, em que o governo tem dificuldade no relacionamento com a Câmara dos Deputados, a nível municipal a conformação política se faz de forma mais harmônica, o que pode ser explicado pela proximidade dos eleitores com os políticos e a materialidade dos problemas enfrentados no dia a dia.
“Quando pensamos nessas relações de poder e disputa política em uma cidade pequena, nós falamos de uma relação em que os indivíduos estão preocupados com demandas locais que são muito específicas, vinculadas a serviços, ao funcionamento da cidade, e que estão diretamente ligadas ao cotidiano dos indivíduos”, afirma Andrez Machado, doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e pesquisador do Laboratório de Partidos e Política Comparada (LAPPCOM), da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
“Quando o prefeito não elege seus vereadores, mas consegue estabelecer uma base de apoio, ela provavelmente vai se dar ali de acordo com a necessidade de a máquina pública funcionar, porque ela está muito mais vinculada à ordem do dia dos indivíduos. Ou seja: é o médico que está atendendo, é a estrada que precisa de um cascalho; são coisas bem pontuais. Então, essas negociações, essas trocas políticas, vão se dar nessas questões pontuais, o que é diferente em grandes cidades, em cenários mais complexos”, complementa Andrez.
As divergências também existem no debate público de Entre Rios de Minas, mas o alinhamento da Câmara com o atual mandato e a perspectiva de uma renovação na política local tornaram as coisas mais fáceis para o atual prefeito.
“Críticas e oposição são direitos legítimos e necessários. É natural que qualquer político seja oposição a alguma ideologia em algum momento. Contudo, deve ser exercida com responsabilidade”, conclui o vereador Lucas Advogado.
Imagem de destaque: print / transmissão da Câmara via rede social
Supervisão: Luiz Ademir de Oliveira
Edição: Arthur Raposo Gomes
