CRÔNICA: POLÍTICA SE FAZ TAMBÉM NO INTERVALO

Arthur Raposo Gomes

Os corredores contam mais do que as atas. Enquanto a reunião oficial se arrasta em discursos, apresentações de PowerPoint e falas ensaiadas e até roteirizadas, a política verdadeira escorre pelas frestas. É no intervalo que as coisas realmente acontecem.

O bom jornalista político sabe disso. Um aperto de mão rápido, uma promessa cochichada, uma troca de olhares cúmplices: são gestos que jamais aparecem nos registros oficiais, mas que mudam destinos. O corredor é território de negociação: menos solene, mais humano. É onde o “depois a gente conversa” se transforma em decisão tomada.

Às vezes, basta dividir o mesmo café ou andar lado a lado até a porta do prédio ao lado para abrir espaço a um acordo que não nasceria diante de microfones. As conversas de intervalo são curtas, mas diretas. Ali não há tempo para discursos de efeito: existe urgência em resolver.

A ironia é que, no fim do dia, os jornais, rotineiramente, registram o que foi dito na tribuna, mas o que molda o jogo ficou guardado no sussurro entre um compromisso e outro. Política, afinal, não se faz apenas nas sessões e audiências.

Política se faz, sobretudo, nos intervalos: nesses minutos roubados em que a encenação dá lugar à vida real.


Imagem de destaque: Arthur Raposo Gomes

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