Arthur Raposo Gomes
É engraçado: nunca fui de beber café. O cheiro pode encantar, o ritual pode conquistar, mas a xícara em si sempre ficou intacta. Ainda assim, é em café que muita coisa acontece. Talvez porque, mais do que a bebida, o que importa mesmo seja a mesa, a pausa e a conversa.
Num café de esquina, um colega me fala sobre política como quem comenta o placar do futebol no final de semana: números de pesquisa, nomes em disputa, informes de bastidores. Uma “corrida de cavalos”, praticamente. Em outro, a amiga da vida desabafa sobre a vida acadêmica, sobre prazos, bancas e a eterna sensação de que “não vai dar tempo”. Mais adiante, alguém confidencia segredos que não carregam açúcar nem adoçante.
E houve também aquele dia em que o conhecido, desses que a vida apresenta de repente, abriu o coração sem rodeios. Disse coisas que não confia a muita a gente, embora a gente se conheça há pouco tempo. Não era preciso muito: bastava a mesa, o barulho de xícaras ao fundo e a certeza de que ali cabia confiança.
E eu ali, com meu copo d’água ou um suco qualquer. Cada xícara fumegante pedida é gesto para estar junto, para abrir assunto, para atravessar silêncios. Penso que talvez o café seja só um pretexto universal: como se o mundo tivesse combinado que encontros acontecem melhor com uma caneca entre as mãos.
No fundo, ironia nenhuma: nunca precisei tomar beber café para saber que é nele que mora a vida da cidade. É no café que se conspiram candidaturas, se inventam projetos culturais, se costuram amizades improváveis.
Eu só fico de fora desse gole, mas nunca da história.
Imagem de destaque: reprodução / banco de imagens – Freepik
Todos os textos opinativos publicados no portal Notícias del-Rei são identificados como tal – não refletindo, necessariamente, a opinião editorial do coletivo.

Esse gole é pra você