TRANSTORNO DAS APOSTAS ON-LINE: O LADO INVISÍVEL DA LUDOPATIA ENTRE MULHERES BRASILEIRAS

Maiara Maia

Por trás das promessas de dinheiro fácil, existe uma realidade dura onde cada vez mais mulheres estão caindo no vício das apostas on-line. Essa compulsão, que a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece como um transtorno mental, pode causar dívidas e, em casos graves, até levar à morte.

Ludopatia, também chamada de jogo patológico, é uma doença considerada um distúrbio do controle do impulso. É um termo pouco conhecido, mas vivido por muitos. Quem sofre desse transtorno sente uma compulsão incontrolável de continuar apostando, mesmo diante de prejuízos financeiros e emocionais.  A OMS classifica a ludopatia como um transtorno mental e comportamental. Mas, nas propagandas de apostas on-line e nos feeds das redes sociais, o que se ouve, na verdade, é outra coisa: “joga quem quer”.

Mas será mesmo? O fato é que são muitos os relatos de pessoas perdendo casa, carro, família, e em casos mais extremos, até a própria vida. Especialistas relatam que o jogo é desenhado para seduzir. E agora, cada vez mais, quem está do outro lado da tela são mulheres. Jovens, mães, estudantes, trabalhadoras.

Muitas começam atraídas por promessas de dinheiro fácil, mas o preço a pagar por acreditar nisso pode ser alto demais. Segundo um estudo divulgado no início deste ano pela Associação de Mulheres da Indústria de Gaming (AMIG) e a operadora de apostas esportivas KTO, as mulheres já representam cerca de 51% do público dos jogos de azar.

Quanto vale um clique?

Quando falamos em apostas on-line, é importante entender que elas envolvem diferentes tipos de jogos. Entre os mais populares estão as apostas esportivas, em que a pessoa tenta prever o resultado de partidas de futebol e outros esportes. Há também os jogos de multiplicação instantânea, como o famoso “aviãozinho”, que promete retornos rápidos com apenas um clique. Outro exemplo comum são os cassinos virtuais, que incluem roletas, como o famoso “Tigrinho”. Apesar de serem diferentes, todos eles têm em comum o risco de se tornarem viciantes.

Maria Angélica tem 35 anos, mora em Anápolis (GO) e trabalha com a internet. Foi nesse ambiente que, por curiosidade e “zueira”, como ela mesma define, teve o primeiro contato com as apostas on-line.

Com o tempo, a diversão deu lugar à compulsão. Os impactos foram se acumulando até se tornarem insustentáveis. “A principal consequência, além do financeiro, foi o estrago na minha saúde mental. Ansiedade, depressão e por aí vai”, conta. A experiência trouxe crises, perda de controle e um desgaste emocional profundo.

Depois de enfrentar as consequências do vício, Maria fala abertamente sobre sua experiência para que outras pessoas não caiam na mesma armadilha. (Foto: reprodução / Instagram)

Para Maria, não existe separação clara entre lazer e vício quando se trata desses jogos. “A partir do momento que a pessoa vai a primeira vez, aquilo ali já começa a trabalhar no seu cérebro com o intuito mesmo de te viciar”, avalia. Ela acredita que a estrutura dos jogos é pensada para estimular esse comportamento, especialmente em quem já está fragilizado emocional ou financeiramente. “Não existe isso de ‘é só ter controle’ nesse jogo. Só quem tem o controle são as próprias plataformas”, relata.

Hoje, em processo de recuperação, Maria faz acompanhamento psiquiátrico e usa medicação. O suporte vem, sobretudo, da família. Diante de tudo o que viveu, deixa um alerta sincero: “saia enquanto é tempo. Isso é um abismo tão profundo que pra sair não é fácil”.

“É um dinheiro que para você sorrir, centenas de pessoas têm que chorar”: o peso da ilusão das apostas

Mas o vício não nasce sozinho. Ele é alimentado por vídeos bem editados e influenciadores que garantem que é possível ganhar dinheiro fácil com apenas um clique.

Jordana Fialho de Araújo Costa, 27 anos, maquiadora de Coronel Fabriciano (MG), teve contato com as apostas primeiro como administradora de um grupo de WhatsApp. Na época, não divulgava os links nas redes sociais, e o que mais a atraiu foi o pagamento: R$300 por semana.

Com o tempo, começou a divulgar os jogos por conta própria nas redes. No início, acreditava que bastava avisar os seguidores para jogarem “com consciência” e que, por isso, não teria culpa caso alguém se prejudicasse. Mas a percepção mudou. Ela passou a se sentir incomodada com o que fazia e com o que via. Jordana relata que perdeu a noção do valor do dinheiro, entrou em dívidas, e enfrentou crises de pânico e depressão. Assim como Maria Angélica, Jordana também concorda que os jogos não têm nada de inocente, eles são pensados para viciar, principalmente pessoas em situação financeira vulnerável.

“Gostaria que as pessoas entendessem que não existe dinheiro fácil, parece clichê, mas é uma verdade absoluta. Não existe ‘jogar com consciência’”, alerta. Ela critica ainda a forma como os jogos e as divulgações feitas por influenciadores são apelativas, com o objetivo de manter o público engajado e viciado. “Imagina você com pouco dinheiro ganhar muito? Brilha os olhos, e começa a se transformar em uma rotina viciante”, completa.

Ex-divulgadora de apostas, hoje usa seus perfis nas redes para alertar outras pessoas sobre os riscos por trás das promessas de lucro fácil. (Foto: reprodução / Instagram)

Especialistas apontam que a engrenagem das apostas on-line é simples: quanto mais gente perder, mais alguns ganham. É um jogo de soma negativa, onde o lucro de poucos depende do prejuízo de muitos.

E não são poucos os envolvidos nessa dinâmica. No Brasil, mais de 23 milhões de pessoas apostaram em jogos on-line em 2024, segundo dados da 8ª edição do Raio‑X do Investidor Brasileiro (Anbima/Datafolha, abril de 2025). Isso representa cerca de 15% da população com mais de 16 anos. O problema é que uma grande parte dessas pessoas está endividada por causa das apostas, e milhões já apresentam sinais claros de vício.

Entre esses números, as mulheres representam uma parcela crescente e preocupante, muitas delas em situação de vulnerabilidade financeira, enfrentando um ciclo de dívidas que, em casos extremos, pode levar a consequências trágicas para a saúde mental e emocional.

Um dos casos mais marcantes é o de Ângela Maria Camila da Paz, de 39 anos, que ganhou repercussão nacional após sua morte em dezembro de 2023, no Ceará. Mãe de três filhos, Ângela acumulou uma dívida superior a R$ 500 mil em jogos de azar digitais e, diante do desespero, acabou tirando a própria vida.

A irmã, Jéssica Lobo, usou as redes sociais para tornar pública a dor da família e desde então tem criado grupos de apoio e organizado protestos contra as plataformas. A história escancarou o que muitas vezes fica por trás das promessas de lucro fácil: o rastro de sofrimento que esse vício pode deixar. Jordana sabe bem disso: “é um dinheiro que para você sorrir, centenas de pessoas têm que chorar. Você tem que mentir e enganar. No início pode parecer interessante, ‘ganhar dinheiro só pra postar um link em um story’, mas por trás disso tem muito sofrimento. Infelizmente. Não é algo que traz prosperidade”.

Na foto, Ângela ao lado da irmã (Jéssica) e da mãe. Jéssica administra a ONG Ângela Maria, que atua na prevenção e superação do vício em apostas (Foto: reprodução / arquivo pessoal)

Mais rápido do que o Poder Público consegue acompanhar

Casos como o de Jordana e Maria revelam um cenário que tem crescido mais rápido do que o poder público consegue acompanhar. Segundo a psicóloga e neuropsicóloga Carol Silveira, que atende pacientes com vício em jogos, o Brasil ainda não possui um protocolo específico do Ministério da Saúde para o tratamento da ludopatia. “Eu acho que isso vai sair nos próximos anos, porque realmente tem se tornado um problema de saúde pública”, afirma.

Os casos são atendidos principalmente nos Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e no Sistema Único de Saúde (SUS), mas a sobrecarga dos serviços de saúde mental torna o caminho difícil. E mesmo com o aumento na procura por ajuda, ainda faltam diretrizes claras para lidar com o problema.

A psicóloga explica que, do ponto de vista clínico, não há medicamentos específicos para tratar o transtorno do jogo. Algumas abordagens utilizam antidepressivos, especialmente quando o risco de ideação suicida é alto. Além disso, terapias como a cognitivo-comportamental e as chamadas terapias de terceira geração têm sido aplicadas com base em comprovação científica. Ainda assim, Carol destaca: “é uma questão recente que a gente está conseguindo olhar… ainda precisa de muito suporte da parte pública”.

Ela também alerta para o papel delicado da família no processo de recuperação. Muitas vezes, os parentes tentam “ajudar” cobrindo dívidas, mas isso acaba prolongando o vício. “O apostador não tem nenhuma consequência e, muitas vezes, nem fica motivado por tratamento”, pontua.

Por isso, ela defende que os familiares também busquem apoio psicológico, já que o processo envolve recaídas, frustração e desgaste. “É bem importante ter essa questão do suporte familiar, mas que a família também saiba como lidar com essas questões”, argumenta.

Onde buscar ajuda

No Brasil, o tratamento da ludopatia ainda enfrenta muitos desafios. Clínicas e profissionais especializados existem, porém o acesso pelo SUS é bastante restrito. E, para muitas pessoas, a recuperação se torna ainda mais difícil com as constantes propagandas que estimulam as apostas nas redes sociais, na TV, em aplicativos e até em eventos esportivos.

Grupos como Jogadores Anônimos também oferecem suporte para quem busca compartilhar experiências e se recuperar, ajudando a enfrentar esses obstáculos. Se você ou alguém que conhece enfrenta o vício em apostas, não hesite em procurar ajuda. A prevenção e o tratamento são essenciais para evitar consequências irreversíveis.


Supervisão: Márcia Rosa

Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: Reprodução / EPTV

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