Juliana Prado Campos
Era como se o sexo fosse feito ali mesmo, na porta de casa, para todo mundo ver. Só isso para explicar o rigor da proibição a que eram submetidas as crianças de São João del-Rei àquele tempo.
Ninguém nunca falou isso, mas todos que tivessem menos de 18 anos sabiam: é terminantemente proibido passar pela Rua da Zona, no centro histórico da cidade. Para as meninas, a regra era mais rígida: de preferência, levar a proibição para o resto da vida. Era como se, na São João dos anos 1970, já se nascesse com o Código de Conduta definido. Nele, o artigo 1º, inciso único, dizia: “jamais – jamais, estás entendendo? – se atreva a atravessar a Rua da Zona”.
Pois assim as crianças levavam a vida. Se precisasse ir à costureira e calhasse dela morar ali perto, que praticamente se fechassem os olhos. Se fosse para chegar ao armazém ou ir ao comércio das redondezas, que se tratasse de estabelecer um itinerário curvo. Nunca passar pela Rua da Zona. E ponto final.
Daí que quanto mais se proíbe uma criança, mais ela se enche de ideias. Para aqueles meninos e aquelas meninas ficou para sempre a ideia de uma rua frequentada por bárbaros. Mulheres com seios gigantes envolvidos em vestidos vermelhos pequenos se deitando ali mesmo, na calçada, com o primeiro desfrutado que aparecesse.
O que ninguém nunca conseguiu explicar era como aquilo era tolerado, a pouquíssimos metros de distância da soleníssima Igreja do Carmo, o templo da oração e da castidade. Acredito que nunca se explicou a heresia porque quase ninguém falava sobre o assunto. Em certas cidades de Minas, naqueles tempos, quando o tema era controverso, a decisão imediata era por nada dizer. Alguns mineiros parecem casados com o silêncio.
Fato é que, com tanta proibição, achava-se que naquela rua praticava-se todo o pecado que pudesse caber na recatada São João del-Rei. Ficava ali a Passarela Internacional da Perdição. Coisa de deixar Nelson Rodrigues e Carlos Zéfiro rubros de vergonha.
Hoje, Rua da Zona não há mais. A via está aberta, tem bares por perto, carros e pedestres passam sem se horrorizar. Depois de anos, encerrou-se o caso, fez-se o enterro da luxúria. Mas, como mistério que é mistério nunca põe fim, eis a surpresa.
Dia desses, passando por lá, pude ver de relance, no meio da penumbra, uma dama abrir um pedaço mínimo da cortina lilás e, cigarrilha em punho, sorrir pra mim. Num átimo de segundo, entre dentes e um pouco infeliz, ela sussurrou: “era apenas ofício, minha filha, o ofício do prazer”.
Imagem de destaque: Juliana Prado Campos
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