Arthur Raposo Gomes
Ele estava lá, no meio do entulho de descartáveis. Um pássaro de porte mediano, bico longo, penas marcadas por tons que destoavam da paisagem. Mexia em sacolas amassadas, embalagens de supermercado e restos de comida. Era uma ave silvestre, bicho do mato, caçadora por natureza, transformada em catadora urbana.
Era quase fim de tarde. A cidade, em silêncio, não notava. Nenhuma autoridade passava.
Na pressa dos dias, talvez fosse só mais um flagrante: mas ali, naquele instante, tudo chamou a atenção: a invasão dos humanos, a destruição de habitats, o avanço do cimento sobre a natureza.
A imagem daquela ave revirando lixo é menos uma metáfora do que gostaríamos. É um retrato literal da vida que resta. Vida que, mesmo silvestre, não escapa da civilização dos descartes. Vida que precisa vascular sobras para seguir vivendo, tal como muitos dos nossos.
A cena diz mais do que mil discursos sobre meio ambiente. Fala da cidade que se expande sem freio, do poder público que finge não ver, do lixo que se acumula sem destino, do mato que vira lote, da árvore que vira poeira, do canto que vira ruído.
Aquela ave, que nasceu para voar sobre florestas, hoje sobrevive no meio dos sacos plásticos cheios de lixo. E isso nos diz muito.
Simboliza que não existe linha nítida entre natureza e cidade. Demonstra que o desequilíbrio é tão nosso quanto dos bichos. Aponta, sobretudo, que há um colapso em curso e ninguém está imune.
E nisso, também encontramos perguntas que também importam: o que ainda é possível preservar? De onde virá o próximo ninho? E quem estará atento ao voo que nos alerta?
Imagem de destaque: Arthur Raposo Gomes
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