Amanda Vitória, Camila Ferraz,
Gabriela Bastos e Lívia Moreira
Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a prática esportiva regular contribui diretamente para o aprimoramento motor, o rendimento escolar e a socialização de crianças e adolescentes. Em São João del-Rei, no entanto, o acesso de crianças, principalmente das comunidades, ao esporte ainda é limitado. No município, a falta de estrutura pública, de profissionais capacitados e de projetos acessíveis restringe a participação de jovens em atividades esportivas, especialmente nos bairros mais periféricos.
A realidade nas comunidades
Nos bairros mais afastados do centro da cidade, uma realidade constantemente encontrada são espaços esportivos públicos em más condições ou, em muitos casos, que sequer existem. Quadras danificadas, campos de futebol improvisados e falta de iluminação são parte do cotidiano dos moradores dessas áreas.
Uma das iniciativas que tenta preencher essa lacuna é a CUFA (Central Única das Favelas), organização não-governamental brasileira, fundada no Rio de Janeiro, que está presente em São João del-Rei desde julho de 2024. A instituição oferece atividades esportivas e culturais gratuitas para crianças e adolescentes de comunidades periféricas, com foco no fortalecimento da autoestima, da disciplina e da convivência coletiva.
Coordenada por Denis Leonardo Silva, Sandro Márcio do Nascimento e Patrícia Mourão, voluntários e moradores da comunidade, a CUFA São João del-Rei não se limita apenas à prática esportiva: ela também busca formar cidadãos, promovendo rodas de conversa, ações educativas e apoio social às famílias envolvidas.
Iniciativas que resistem
Como iniciativa para garantir o acesso ao esporte em zonas periféricas, o Grupo Muzenza de Capoeira, sediado no bairro Araçá oferece aulas regulares para crianças e adolescentes da comunidade, funcionando no mesmo espaço que a CUFA. Fundado em 1972 no Rio de Janeiro, o Muzenza se consolidou como uma das maiores organizações de capoeira do mundo, presente em 26 estados brasileiros e em mais de 60 países.
Em São João del-Rei, o grupo atua também no bairro Tijuco e busca, por meio da capoeira, contribuir para o desenvolvimento físico e emocional dos jovens. Como resume Sandro, professor do grupo, “o trabalho que a gente faz também é um trabalho de pertencimento“. É essa sensação de pertencimento que fortalece os laços da comunidade, constrói identidade e transforma o tatame em espaço de acolhimento, cultura e resistência.
Denis, além de ativista nos dois projetos na cidade (CUFA e Grupo Muzenza), é contra-mestre de capoeira e se consolidou na cidade em 1997 e desde então atua com dedicação ao esporte. Ao longo dos dois anos de projeto, a maior fonte financeira são os próprios voluntários, parceiros e pais de alunos, já que o apoio do poder público é ausente.

Barreiras estruturais e econômicas
A prática esportiva nas comunidades de São João del-Rei esbarra em obstáculos que vão muito além da vontade de participar. A falta de transporte, de alimentação adequada e de materiais básicos é uma constante luta na rotina de muitas famílias. Para grande parte das crianças atendidas pelo Grupo Muzenza, frequentar as aulas de capoeira é, muitas vezes, o único momento do dia em que têm acesso a cuidado, acolhimento e algum tipo de estrutura.
“Muitos alunos saem da aula à noite sem ter o que comer em casa. Só vão fazer a próxima refeição no dia seguinte, quando chegam à escola”, relata Sandro. A realidade é dura e recorrente: crianças chegam ao projeto sujas, visivelmente negligenciadas, mas com o desejo genuíno de participar. “Há duas semanas, uma criança apareceu aqui com mau cheiro. Ele ficava na rua o dia inteiro, mas queria muito pegar o uniforme e a graduação. Quando perguntei sobre a mãe, ele começou a chorar”, conta Denis, emocionado.
Além das condições de vida dos alunos, a própria estrutura física do projeto impõe desafios, pois o espaço utilizado é emprestado e o grupo não tem liberdade para realizar reformas ou organizar o local de acordo com as necessidades pedagógicas.
A importância de projetos sociais voltados para o esporte
“A capoeira ajuda as crianças de uma maneira geral. Não é só a questão do esporte fisicamente. Ajuda o desenvolvimento motor, cognitivo, socialização e nessas questões de educação, disciplina e respeito.”, explica Patrícia, voluntária e responsável pela comunicação da CUFA e do Grupo Muzenza.
Celma do Nascimento, moradora do bairro Araçá e avó de um dos alunos do projeto, comenta sobre como fica feliz com o projeto e como ele tem sido peça importante na educação do neto Enzo Henrique, de 9 anos. “O comportamento dele tem melhorado muito, em casa e na escola, eu faço questão de sempre vir com ele nos treinos e agradeço aos mestres por ajudarem com as crianças”, pontua.
Nesse sentido, investir em projetos sociais voltados ao esporte é uma ação preventiva e educativa. Oferecer a crianças e adolescentes a chance de se envolver com o esporte desde cedo é uma forma concreta de tirá-los das ruas, afastá-los do crime e criar caminhos para um futuro melhor.
“Essa prevenção primária que a gente faz aqui, se contasse com mais apoio do governo, os casos de violência seriam muito menores.”, explica Denis.
A falta de políticas públicas
Apesar de São João del-Rei ocupar a primeira colocação no ranking do ICMS Esportivo em Minas Gerais, segundo dados divulgados pela Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, essa liderança ainda não se reflete na prática para grande parte da população. Em bairros periféricos, crianças e jovens seguem com acesso limitado a estruturas esportivas.
Procurado pela reportagem, o então secretário de Esporte e Lazer, Ericsson Neneco, informou que havia solicitado exoneração do cargo e, por esse motivo, não poderia se manifestar oficialmente sobre a atual gestão.
No dia 24 de Abril, a Prefeitura de São João del-Rei anunciou, por meio das redes sociais, a nomeação de Willer Silva como novo titular da pasta. A equipe de reportagem conseguiu estabelecer contato inicial com o novo secretário, mas, após o envio das perguntas, não obteve retorno até o encerramento da matéria.
O portal Notícias del-Rei segue aberto para futuras entrevistas com o secretário.
Edição: Najla Passos e Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: Camila Ferraz
