LUCAS GUIMARÃES PROPÕE JORNALISMO ESPORTIVO MARCADO PELA RESISTÊNCIA; LEIA MAIS

Ana Luiza Reis, Érika Franco,
Giulianna Andrade, Igor Chaves e Renata Resende

Dentro das quatro linhas, a história é escrita com passes rápidos e dribles impressionantes. As promessas se tornam craques e, por sua vez, são eternizados no imaginário do futebol brasileiro. Para além dos placares, o esporte pode ser pauta jornalística com a função de ser uma ferramenta de memória, denúncia e reparação. Fora do campo, o jogo é outro — e é aí que entra Lucas Guimarães. Jornalista, pesquisador e apaixonado por futebol, para ele o jornalismo esportivo não deve apenas contar os gols, mas também os silêncios, as ausências e os apagamentos.

Lucas sempre gostou de futebol. Cruzeirense, acreditava que trabalharia na área do jornalismo esportivo, cobrindo partidas e comentando os feitos dos jogadores. Chegou a fazê-lo por um tempo: logo no início da graduação em Comunicação Social – Jornalismo, que cursou na Universidade Federal de São João del-Rei, participou de projetos de extensão como a Vertentes Agência de Notícias (VAN), onde teve a chance de falar sobre futebol no “Podcast Esportivo”. No programa, exibido entre setembro e outubro de 2018, ele e seus colegas Luan Giaccomini e Lucas Faria acompanharam a Segundona do Mineiro e o vice-campeonato do Athletic Club.

Nessa época, também escreveu para o portal Notícias Gerais, dirigido pela jornalista Najla Passos. Ele brinca que esse encontro “foi um pouco na sorte”: por sugestão dela, ele topou fazer uma reportagem sobre a ida de Garrincha, na década de 1950, para Barbacena – e a ideia deu certo. Em junho de 2020, Lucas assinou o texto “O dia em que Barbacena parou para testemunhar o encontro dos craques Garrincha e Heleno de Freitas”. Depois escreveu várias outras matérias para aquele portal, descontinuado em junho de 2021.

O caminho profissional

Agora, mesmo podendo falar sobre aquilo de que mais gostava, Lucas Guimarães percebeu que seu caminho profissional talvez reservava outras surpresas. Foi com a professora Filomena Bomfim, também do curso de Comunicação Social – Jornalismo da UFSJ, que fez Iniciação Científica e descobriu seu gosto pela pesquisa. Assim, em 2022, quando se formou, decidiu ingressar no mestrado, e sob orientação do professor Phellipy Pereira Jácome, escreveu o trabalho “Não sou terrorista, sou guerrilheiro: a disputa pelo ethos do guerrilheiro na figura de Carlos Eugênio Paz”.

Agora em 2025, iniciando o Doutorado, Lucas, na verdade, se sente bem contente por ter separado o profissional do gosto pessoal. “A gente é pesquisador enquanto jornalista”, ele diz. Afirma ainda que se sente realizado dentro da profissão mesmo trabalhando longe do campo do futebol.

Falar do presente e do passado. E vice-versa.

Como afirma Lucas, “falar do presente também é falar do passado, e vice-versa”. O esporte carrega mais do que táticas. Carrega traumas e histórias que muitas vezes foram abafadas por uma cobertura tradicional que preferiu o espetáculo à reflexão. Para ele, não existe jornalismo esportivo fora de um compromisso ético, político e social.

Futebol é identidade, território, conflito e também cura. É nesse emaranhado que ele posiciona seu trabalho: investigativo, sensível e sempre atento às estruturas de poder que atravessam o campo. Falar de futebol é também falar de Brasil, com suas glórias, mas sobretudo com suas cicatrizes: a sabotagem do futebol feminino, os comentários carregados de racismo, que ainda se repetem como se fossem naturais, as manchetes que reforçam estereótipos étnico-raciais, o silêncio diante da misoginia nas arquibancadas e nas redações.

Como reparar o futebol?”, ele pergunta. A resposta, talvez, esteja no próprio exercício do jornalismo: investigar, nomear, escancarar, contar de novo. Mas com cuidado, contexto e memória. Lucas acredita que a cobertura esportiva precisa assumir sua função social, sendo urgente que quem escreve sobre futebol compreenda que está escrevendo também sobre pessoas e suas lutas, suas dores e conquistas.

Lucas vive e entende o jornalismo não como uma receita pronta – e deixa isso claro. Não é apenas sobre leads, fontes e fechamento de pauta. Para ele, o jornalismo também se faz nos documentos que analisa, nas entrevistas que coleta, nas pesquisas acadêmicas que escreve, assim como quem constroi pontes entre o que foi e o que ainda pode ser contado.

Além disso, também cultiva uma distância entre o profissional e o torcedor. “O futebol é meu grande hobby”, ele admite. E, para ele, essa separação é essencial. É no torcer que ele respira, vibra, sofre e se emociona sem precisar teorizar. E é no trabalho que ele volta com outro fôlego para suas pesquisas, não necessariamente sobre esporte, mas que também ajudam a pensar o futebol como espelho da sociedade, com todas as suas complexidades.

O jornalismo esportivo que Lucas propõe é um campo de resistência. Uma forma de recontar o futebol a partir de outras vozes, outras lentes e outras prioridades. É o jornalismo que também torce – mas torce para que o esporte seja um lugar mais justo e consciente do seu papel.


Edição: Arthur Raposo Gomes e Najla Passos

Imagem de destaque: Reprodução / Instagram @lucsguimaraes

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