Camila Ferraz, Bruno Nascimento,
Júlia Diniz e Lívia Antoniazzi
Com o início de um novo semestre nas instituições de ensino, São João del-Rei se prepara para receber centenas de novos estudantes, pois além de histórica, também é uma cidade universitária que abriga diversas instituições de ensino superior. Essa característica faz com que a presença estudantil tenha um papel essencial na dinâmica local. Por isso, esse fluxo anual não apenas renova o ambiente acadêmico, mas também impacta diretamente diversos setores da cidade. Para calouros que chegam de diferentes partes do país, a adaptação vai além da vida universitária: encontrar moradia, entender o custo de vida e se integrar à dinâmica local são desafios que marcam os primeiros meses na cidade. Por isso é um desafio todos os novos estudantes conseguirem encontrar um lar com facilidade, e o comércio local precisa se adaptar ao aumento do movimento durante esse período.
Com a mala já pronta e muita ansiedade, Raphaela Garcia, de 20 anos, se prepara para deixar São José dos Campos e ir parar na cidade histórica para iniciar o curso Letras no Campus Dom Bosco. Com uma mudança tão grande é inevitável que as expectativas acompanhem essa transformação. “Espero me identificar com o curso, fazer novas amizades, conhecer a cidade e região e ainda visitar todas as igrejas históricas”, conta. Para facilitar a transição, Raphaela se planejou com antecedência. “Meus pais me ajudaram a procurar um lugar perto do Campus Dom Bosco. Contatamos algumas imobiliárias da cidade para encontrar a moradia ideal”, explica. No entanto, nem todos os calouros têm um processo tão tranquilo.
Além dos desafios da mudança de cidade e da busca por moradia, os calouros também enfrentam a adaptação à nova rotina acadêmica. O ingresso na universidade exige não apenas dedicação aos estudos, mas também uma reorganização da vida cotidiana. Para muitos, essa é a primeira experiência longe da família, o que demanda um amadurecimento rápido e novas formas de administrar o tempo, conciliando aulas, leituras, trabalhos e vida social.

Rayane Carvalho, 31, secretária de uma das imobiliárias da cidade, oferece um panorama dos desafios enfrentados por estudantes recém-chegados a São João del-Rei. Ela destaca que a busca por moradia se intensifica em janeiro e julho, gerando uma alta demanda que sobrecarrega o mercado imobiliário, reflexo de um crescimento urbano que não priorizou as necessidades da comunidade universitária.
“A quantidade de alunos é muito grande. A gente tá falando de federal, mas tem particular. Tem gente que veio de fora. São realidades diferentes, mas tem. E querendo ou não disputa também, né? Vai alugar alguma coisa. Vai precisar de uma estabilidade aqui na cidade, temporária ou não, mas vai precisar”, reflete. Ela ainda ressalta que essa dificuldade também acomete os cidadãos são-joanenses: “mesmo a gente sendo daqui da cidade, vamos supor, eu trabalho aqui no centro e moro no final da cidade. É dificílimo de encontrar. Aí você pensa assim, uma área mais afastada, suburbana, vai ter mais imóveis disponíveis. Não tem. Porque acaba que quando não preenche aqui vai para lá”. Além da demanda, os preços também aumentam nessa época do ano. “É a questão do superfaturamento, da alta procura e pouca oferta, que inflaciona o valor dos imóveis”, pontua.
Além disso, Rayane destaca a precariedade do transporte público na cidade, dos ônibus defasados e poucos horários para as linhas que percorrem a cidade, que não atendem devidamente o fluxo dos indivíduos na cidade. “Os ônibus estão extremamente em situação precária. Você tá andando, o ônibus às vezes tem porta quebrada, pode estragar, parar no meio do caminho e não ter outro para preencher a lacuna de horário, sabe? Isso é porque é uma cidade muito pequena. […] Aqui a gente ainda tem essa facilidade de ser uma cidade pequena. Você ainda consegue fazer uma travessia quando isso acontece. Gastando um tempinho a mais, né? Então você liga e fala que vai atrasar alguns minutos e vai a pé”. As bicicletas também surgem como uma alternativa para os adeptos desse meio de transporte, oferecendo um deslocamento mais rápido e eficiente. Em São João del-Rei, essa opção é favorecida pela existência de trechos planos, como os que atravessam a cidade ao longo da Avenida Leite de Castro.
Por fim, a secretária imobiliária dá uma dica aos recém-chegados na cidade: “se fosse eu, Rayane, que fosse mudar para algum lugar, independente se fosse para trabalhar ou estudar, qual seja a função da mudança, eu queria pelo menos, passar uns 3, 4 dias na cidade”, enfatiza ela, assegurando da importância de vivenciar a cidade por alguns dias antes de tomar uma decisão sobre onde morar, permitindo uma melhor compreensão da dinâmica local e das opções disponíveis.
Comércio
A chegada dos estudantes universitários movimenta São João del-Rei de diversas formas, mas o impacto econômico não é igual para todos os setores da cidade. Enquanto alguns estabelecimentos percebem um aumento direto no fluxo de clientes, outros não sentem grande interferência na rotina de vendas.
Na “Íntima D’Presentes”, loja tradicional do Centro, a presença dos universitários não altera significativamente a movimentação. De acordo com Juliana Costa Braga e Solange Jesus da Costa, duas das quatro proprietárias do estabelecimento, a loja atende principalmente mulheres das classes C e B, especialmente mães de família. Segundo elas, os produtos comercializados possuem um ticket médio mais alto, o que faz com que os estudantes não sejam um público-alvo significativo. “Eles procuram itens mais baratos, principalmente para casa”, explicam. Além disso, a loja não nota mudanças no fluxo durante as férias universitárias, um indicativo de que esse público não tem grande influência sobre as vendas.
Por outro lado, em alguns bares e restaurantes, a presença estudantil é notável – mas não necessariamente como consumidores. No “Sanfra”, a relação de estudantes com o estabelecimento é, geralmente, como mão de obra. Segundo Rafael do Carmo Silva, gerente do bar, os universitários não são os principais clientes do local devido aos preços mais altos. Apesar disso, desempenham um papel fundamental no funcionamento da casa: todo fim de semana, entre cinco e seis estudantes são chamados para trabalhar como freelancers. “Eles ajudam muito no funcionamento. E ajuda nós e ajuda eles, porque muitos não têm muita condição, ou os pais não conseguem ajudar, então já é uma renda que faz diferença”, explica Rafael.
Esse ciclo de trabalho temporário é essencial para manter bares e restaurantes operando, como aponta Diego Galvond do Couto Crescencio, estudante universitário que faz freelas na “Adega do Iaguinho”. Diferente de outros estabelecimentos, esse bar atrai os universitários tanto como consumidores quanto como mão de obra, pois seus valores são mais acessíveis. Além disso, promoções como rodada dupla de chopp e caipirinha tornam o local ainda mais atrativo para esse público. Para Diego, os freelancers são indispensáveis para o setor, já que muitos alunos não conseguem assumir empregos fixos devido aos horários das aulas. Com a chegada dos calouros, o movimento do bar aumenta, especialmente às quartas-feiras e nos fins de semana. Além de contratar estudantes para “bicos”, o proprietário do estabelecimento, Iago, também fortalece a relação com esse público por meio de parcerias com eventos universitários, como o “CarnaVícios”, organizado pela república “Vícios” recentemente.
Edição: Arthur Raposo Gomes
