MUDANÇAS CLIMÁTICAS: A VULNERABILIDADE DE SÃO JOÃO DEL-REI DIANTE DAS CHUVAS

Dimitri Boldrin, Geovane Carvalho,
João Pedro Ferreira e Lucas Reis

Em janeiro, a Defesa Civil de Minas Gerais informou que mais de 130 cidades do estado entraram em estado de calamidade pública devido às fortes chuvas. Recentemente, o município enfrentou alagamentos isolados em pontos da cidade que não foram afetados pela chuva em anos anteriores.

No dia 27 de janeiro, a Rua Quintino Bocaiúva, no Centro da cidade, ficou alagada após poucos minutos de chuva. Moradores do local relataram nas redes sociais que a via não costumava passar por tal situação mesmo em períodos de chuvas fortes. O prefeito de São João del-Rei, Aurélio Suenes, falou sobre o assunto em coletiva de imprensa no dia 09 de janeiro.

A Rua Quintino Bocaiúva após a chuva. (Foto: reprodução / São João da Depressão)

“O que está sendo feito pela Secretaria de Obras é a limpeza dos bueiros, essa é uma das ações. Mas eu acho que o problema vai muito além disso, porque, a parte estrutural, no que diz respeito às redes de drenagem pluvial do município, as galerias, elas são, no meu ponto de vista, mal dimensionadas. Principalmente no que diz respeito à mudança de comportamento da própria natureza. O que vem acontecendo nos últimos anos é muito diferente do que acontecia no passado, você tinha chuvas intermitentes, mas com volumes menores, e hoje você tem chuvas torrenciais que acumulam volumes de um mês todo em um único espaço de tempo. Há uma mudança clara de comportamento da natureza e a melhor infraestrutura do mundo não suportaria. Mas a gente tem que fazer aquilo o que é para, pelo menos, suportar o normal, e infelizmente a gente avalia que São João del-Rei deixou a desejar nessa parte aí”, disse na ocasião.

Em seu pronunciamento, o prefeito não apresentou outras soluções para a cidade. A Prefeitura também não se posicionou em relação ao caso da chuva do dia 27 de janeiro ou apresentou propostas para se preparar para evitar casos extremos. Apesar da afirmação de Aurélio, muitas cidades no mundo se preparam para os impactos das crises climáticas criando estratégias para escoamento das chuvas intensas, investindo em soluções de longo prazo para crises climáticas, como sistemas inteligentes de escoamento de água, revitalização de bacias hidrográficas e mapeamento de áreas de risco.

Defesa Civil da cidade dá dicas para proteção em casos de chuvas intensas

O coordenador da Defesa Civil de São João del-Rei, Pedro Henrique Santana, instruiu a população a ficar atenta aos alertas da Defesa Civil, disponíveis por SMS, pela internet e pelos institutos de previsão do tempo.

Pedro também alertou que durante chuvas intensas é importante evitar sair de casa ou do trabalho, procurar sempre um local abrigado e tentar permanecer longe de áreas vulneráveis a alagamentos ou deslizamentos. Apesar das recomendações, muitos moradores criticam a falta de manutenção preventiva em bueiros e galerias, apontada como uma das causas para os alagamentos recentes.

São João del-Rei sofre com histórico de chuvas fortes

O histórico de São João del-Rei com alagamentos e deslizamentos é motivo de preocupação dos moradores da cidade há anos. Um dos casos mais trágicos ocorreu em janeiro de 2012, quando o Rio das Mortes e o Córrego do Lenheiro transbordaram em São João del-Rei e deixaram cerca de 300 famílias desalojadas e 800 pessoas afetadas pelas enchentes.

Outros casos foram registrados em 2018 e 2019. No ano de 2020, duas residências foram afetadas por deslizamentos de terra no bairro Senhor dos Montes. Em um dos casos, a lama obstruiu o portão de uma casa, impedindo a saída dos moradores até que os militares realizassem os trabalhos de limpeza e retirada. Na segunda ocorrência, a terra invadiu parcialmente uma casa, mas nenhum dos residentes ficou ferido.

Em 2023, chuvas fortes na cidade atingiram diversos bairros, como São Geraldo, Lombão, Dom Bosco, Colônia e Araçá, deixando diversos moradores sem eletricidade. No Bairro São Geraldo ocorreram cerca de dez incidentes de destelhamento de casas. No Matosinhos, diversas residências foram invadidas pela água, e múltiplas quedas de árvores acarretaram interdições de ruas da região.

No estado de Minas Gerais, como um todo, os números mostram que o problema só tem se agravado: conforme o boletim da Defesa Civil Estadual de 5 de fevereiro, o estado registrava 442 desabrigados. Porém, em menos de duas semanas, esse número saltou para 1.036 pessoas, um aumento de 134% de acordo com dados atualizados no dia 19 de fevereiro.

Agora, a região passa por fortes ondas de calor, o que preocupa moradores de São João del-Rei pela possibilidade do próximo período de chuvas trazer novos alagamentos para a cidade. Ana Cristina, moradora do Bairro Fábricas, de 27 anos, teme que um novo alagamento castigue o bairro como aconteceu em janeiro deste ano e em períodos anteriores: “a chuva quando vem pega a região toda aqui. A gente fica morrendo de medo de perder móveis”, pontua.

Já Sebastião Oliveira, de 78 anos, conhecido como “Seu Tião”, morador do Centro há 32 anos descreve as mudanças que testemunhou: “tirando quando a cidade toda alagou, antes, a chuva forte até assustava, mas a água escoava rápido. Agora, com 10 minutos de temporal, a rua vira um rio”. Seu Tião acrescentou: “parece que a cidade não está preparada para o que está por vir. A gente se sente meio esquecido né?”.

São João del-Rei alagada em 2012 (Foto: reprodução – Thiago Morandi / Estado de Minas)


Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: reprodução – Thiago Morandi / Estado de Minas

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