Amanda Silva, Gabriela Bastos e Lívia Moreira
Você já sentiu o cheiro de um bolo saindo do forno e lembrou da infância, ou provou um prato que trouxe de volta memórias de quando era criança? Atualmente, os tipos de alimentos que geram esses sentimentos podem ser chamados de comida afetiva, também conhecida como culinária afetiva ou comfort food. É um conceito que se refere à comida que nos traz memórias e sentimentos, muitas vezes associados à nossa infância. Em resumo, são pratos, cheiros, sabores e texturas que nos transportam para certos momentos, despertando memórias e sensações. E, em Minas Gerais, essa culinária possui um espaço ainda maior.
A comida afetiva não é apenas sobre o que está no prato, mas sobre o que ele representa. É a refeição que traz conforto, que resgata memórias e carrega a identidade cultural de um povo. No Brasil, cada região tem seus ícones afetivos. No Nordeste, a tapioca recheada; no Sul, o chimarrão; e em São Paulo, o pão na chapa com café.
É de forma natural que os restaurantes e cozinheiros mineiros levam toda essa afetividade aos seus pratos, transformando cada refeição em uma experiência que vai além do sabor. Para muitos, cozinhar não é apenas um ato cotidiano, mas uma forma de expressar cuidado, hospitalidade e pertencimento. Essa entrega sincera faz com que qualquer prato, por mais simples que seja, traga consigo a essência do aconchego e da memória afetiva.

E é assim que Priscila Silva, cozinheira do tradicional “Bar do Luizinho”, em São João del-Rei, compartilha como a culinária mineira transformou sua vida. Ela conta que desde criança a comida tradicional muitas vezes esteve relacionada a momentos bons. “Eu me recordo, de quando eu tinha 8 ou 9 anos, a gente não tinha muita condição, mas um dia, a minha mãe com meu padrasto se juntou e conseguiu comprar uma banda de porco, e ali, reuniu eu, os filhos da minha tia, minha tia. Não era final de semana, porque a mistura geralmente era só no sábado ou no domingo, né?”
Por sempre ter curiosidade e observar outras pessoas cozinhando, principalmente quando morou com uma cozinheira profissional, a culinária começou a fazer parte de sua rotina. Com a prática, foi perdendo o medo e ganhando mais coragem para cozinhar para mais pessoas além de sua família, e assim sua clientela foi aumentando cada vez mais. O Bar do Luizinho, foi responsável por abrir portas para Priscila, fazendo com que a mesma se tornasse reconhecida pelo seu famoso prato, a costela.
Priscila acha justo proporcionar aos seus clientes o melhor, trazendo os sabores às pessoas que não tem o costume de provar diferentes comidas com frequência e deixar guardado na memória para sempre que voltarem a São João del-Rei. “É como dizem: ‘trabalhe com o que ame e nunca mais vai precisar trabalhar na vida’.Como é algo que eu gosto de fazer, faço com muito amor”, pontua.
Com a rotina acelerada da população e o avanço da alimentação industrializada, a comida afetiva se tornou ainda mais valiosa. Ela representa uma pausa no tempo, um resgate do que é simples e essencial. Nas grandes cidades, cresce o movimento de valorização da culinária caseira. Restaurantes que apostam em receitas familiares, feiras de pequenos produtores e até livros de memórias gastronômicas ganham cada vez mais espaço, mostrando que as pessoas buscam mais do que comida: querem experiências e conexões.
Em Minas, essa valorização da tradição sempre existiu. Cozinhar em um fogão a lenha, preparar um frango com quiabo ou reunir a família para um almoço de domingo são hábitos que resistem ao tempo e reforçam a identidade mineira “É o evento, que você já se prepara para ir com a família, nesses momentos de união, não é o simples frango com quiabo”, ressalta Priscila.
Além disso, a cozinha afetiva também se moderniza sem perder sua essência. Novos chefs estão reinventando receitas tradicionais, trazendo um toque contemporâneo a pratos clássicos sem que percam sua identidade. O uso de ingredientes locais, o resgate de métodos artesanais e a valorização dos pequenos produtores são algumas das iniciativas que mantêm a culinária mineira relevante e autêntica. A cozinheira também fala como os ingredientes comuns na nossa região são usados em sua cozinha. “Eu acho que nos representa muito bem, porque a gente pega ingredientes simples e acessíveis e torna algo maravilhoso e gostoso, entendeu? Não é um caviar, um camarão, mas é o nosso leitão, a nossa feijoada. Por ser algo simples e acessível, isso faz toda a diferença“, diz ela.
Edição: Arthur Raposo Gomes
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