Thomás Guedes
Instituídas pela lei n° 14.193/2021, as SAFs, ou Sociedades Anônimas de Futebol, chegaram ao Brasil de maneira oficial no ano de 2021, com o Cruzeiro, o primeiro time de futebol a trocar o seu CNPJ para Sociedade Anônima de Futebol. Na ocasião, o clube mineiro, junto da SAF, assinou um pré-contrato de 90% de suas ações com o jogador ex-pentacampeão do mundo, Ronaldo Nazário. Antes disso, o Cuiabá Esporte Clube, já era considerado um clube empresa desde sua criação, em 12 de dezembro de 2001, porém, somente em 13 de dezembro de 2021, o clube mato-grossense se transformou de S/A para SAF.
Após a instauração da lei das SAFs, outros dez clubes da atual elite do futebol brasileiro adotaram o novo sistema, sendo eles: Botafogo-RJ, América MG, Vasco da Gama, Esporte Clube Bahia, Coritiba, Atlético Mineiro, Fortaleza, Novorizontino, Athletic Club e Botafogo-SP. No total são 63 clubes brasileiros no modelo. Destes onze clubes elite, citados anteriormente, pode-se destacar o Botafogo-RJ, como a primeira SAF a ser campeã da Copa Libertadores da América, o principal torneio entre clubes da América Latina, feito esse, realizado somente dois anos após a sua efetivação. Além do clube carioca, vale destacar o Athletic Club, SAF desde o ano de 2021. O clube disputava a série D do campeonato brasileiro em 2023 e conseguiu dois acessos seguidos: à série C em 2024 e à série B em 2025. O Athletic é o único clube do Campo das Vertentes de Minas Gerais a disputar a primeira divisão do Campeonato Mineiro.
Apesar dos sucessos de imediato do novo modelo de gestão, outros planejamentos tiveram dificuldades e problemas financeiros que levaram ao questionamento acerca das intenções e consequências da chegada das SAFs no futebol brasileiro. No ano de 2023, o Clube de Futebol e Regatas Vasco da Gama, enfrentou problemas no aporte financeiro da SAF 777 Partners, onde o clube teve seus bens bloqueados pela justiça da Bélgica por falta de pagamento a alguns clubes, incluindo o Vasco. Esse fato trouxe à tona, a dúvida levantada desde o início das negociações das SAF ‘S’ no futebol brasileiro: dinheiro ou identidade? Os clubes brasileiros se tornarão clubes empresariais ou o novo modelo contribui para a criação da identidade com o torcedor ? As questões passam pela preocupação do torcedor em perder o vínculo criado por seu time de coração, com o pensamento de que o clube vire apenas uma empresa com valores comerciais.
Ao analisar o caso Botafogo, pode-se entender como a SAF contribuiu para o crescimento da identidade do clube e do torcedor. Para isso, basta analisar a média de público nos jogos do clube nos anos anteriores da implementação da SAF, onde o valor era de aproximadamente9.563 torcedores por jogo, entre 2012 e 2019. A partir de 2021, momento em que o novo modelo de gestão chega, a média de público do time passou a ser aproximadamente 29.755, o que demonstra a clara mudança na vontade do torcedor em acompanhar o time e comparecer aos estádios pela forma como a identidade do clube se renovou. Ao olhar para o caso do Athletic Club, podemos ver como a ascensão do clube passa diretamente pelo modelo SAF, tendo em vista que no período anterior à implementação do planejamento de clube empresa, o clube mineiro disputava a Série D do campeonato brasileiro e com poucos anos de projeto, o Athletic se prepara para a disputa da segunda divisão da elite do futebol brasileiro e apresenta o projeto de aumento de seu estádio. Até mesmo no caso do Vasco da Gama, onde o clube teve diversos problemas com a organização da 777 Partners, a média de público do time carioca se manteve em números parecidos, com uma diferença de apenas 1.556 para os anos anteriores à SAF, diferente de times como o São Paulo Futebol Clube, que não adota o modelo de Sociedade Anônima de Futebol e teve uma diferença de público de aproximadamente 20.000 entre os momentos de crise e os momentos de conquista do título, o que demonstra a clara estabilidade no modelo de gestão da SAF.
Tendo em vista os casos de Botafogo e Athletic, e considerando as dificuldades do Vasco da Gama e do São Paulo Futebol Clube, conclui-se que as SAFs representam um divisor de águas no futebol brasileiro, embora haja sentido em ter certa preocupação com o tipo de empresa que fará as negociações. No entanto, as SAFs oferecem aos clubes não apenas uma nova abordagem para a gestão financeira e administrativa, mas também uma oportunidade para reescrever suas histórias e manter a estabilidade na administração. Ainda que desafios e dúvidas sejam inevitáveis, o modelo se mostra capaz de devolver ao torcedor o entusiasmo e a conexão com seu time de coração. Afinal, a profissionalização e o capital privado, quando bem aplicados, não só reerguem clubes em dificuldades como também revitalizam o espírito do futebol, transformando novamente os estádios em palcos de sonhos e conquistas.
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Edição: Arthur Raposo Gomes
