Wanessa Christine
Nos últimos anos, a inteligência artificial tem revolucionado a maneira como consumimos e produzimos cultura. Do cinema à música, passando pela literatura, a tecnologia está transformando os processos criativos e produtivos em todas as áreas. No universo da dublagem, não é diferente. Com softwares capazes de criar vozes digitais e até mesmo dublagens completas em segundos, surge a pergunta: qual será o futuro das vozes humanas na dublagem?
A utilização de IA para dublagem traz benefícios inegáveis. Tecnologias de síntese de voz permitem a criação de dublagens em várias línguas, reduzindo custos e tornando conteúdos mais acessíveis globalmente. Além disso, sua rapidez na produção pode ser um grande trunfo para o mercado de entretenimento, especialmente em uma era em que o público demanda lançamentos instantâneos. No entanto, essas vantagens técnicas esbarram em uma questão essencial: a dublagem não é apenas sobre “falar”. Ela é sobre interpretar, emocionar e transmitir nuances que só um ser humano consegue captar e entregar.
Dubladores são artistas que emprestam sua alma às personagens que interpretam. Eles trazem sua bagagem cultural, sua sensibilidade e sua capacidade de adaptação para dar vida às obras. Quem não se lembra de vozes icônicas que marcaram gerações e se tornaram tão inesquecíveis quanto os próprios personagens? Por outro lado, as dublagens feitas por IA, embora eficientes, carecem dessa “alma”. A padronização das vozes e a ausência de emoções genuínas resultam em performances mecânicas que podem dificultar a conexão do público com o conteúdo.
Além disso, o avanço da IA na área levanta um alerta sobre o futuro dos profissionais. A substituição de dubladores por esse tipo de tecnologia pode levar à precarização de uma profissão que é fundamental para a indústria cultural. Em resposta a essa ameaça, dubladores brasileiros lançaram, em novembro de 2023, a campanha “Dublagem Viva”, parte do movimento global “Real Voices”, que visa regulamentar o uso da inteligência artificial na dublagem. A iniciativa inclui um abaixo-assinado que já conta com o apoio de mais de 83 mil profissionais da voz, destacando a importância de proteger a arte e o ofício da dublagem humana.
É preciso refletir sobre como equilibrar os avanços tecnológicos com a valorização do trabalho humano, garantindo que a dublagem não perca sua essência e que os artistas continuem a ser reconhecidos pelo impacto que têm.
A dublagem é muito mais do que a reprodução de palavras: é a ponte que conecta públicos e histórias. Portanto, o desafio atual é encontrar um meio-termo. A tecnologia pode e deve ser uma ferramenta para aprimorar o trabalho, mas nunca para substituí-lo.
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Edição: Arthur Raposo Gomes
