ARTIGO: O OSCAR AINDA ESTÁ AÍ?

Igor Chaves

Estatueta do Oscar – Fonte: Reprodução/Instagram

Com Ainda Estou Aqui a todo vapor na campanha de premiação norte-americana de 2025, o Oscar voltou a cair na boca do povo. Não que tenha sido deixado de lado pela cultura pop, mas a premiação já teve seus altos e baixos. Esse ano, para o Brasil, é fato que o Oscar ganhou um quê a mais, com a indicação do filme de Walter Salles à maior categoria da noite e a nomeação de Fernanda Torres à Melhor Atriz. Essa euforia ao redor da estatueta dourada, contudo, ajuda a colocar em pauta, dentre inúmeros temas, a premiação, a Academia e sua relevância.

Na linha do tempo, o “The Oscars” é celebrado desde 1929, como premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, em Los Angeles. A primeira cerimônia televisionada mundialmente foi em 1969, tendo sido a premiação de 1998 a com a maior audiência da história do Academy Awards, quando 57,25 milhões de estadunidenses assistiram a Titanic (1997) levar Melhor Filme. No ano passado, segundo o THR, o pico de espectadores se manteve na média dos 19,49 milhões, com a justificativa de que a Academia estava se recuperando dos impactos da pandemia. Antes da Covid-19, em 2018, o prêmio já havia registrado recorde negativo de audiência, quando atingiu a média de 26 milhões de espectadores. O declínio preocupa: se a audiência do Oscar continua a cair, o prestígio da premiação também é comprometido, afinal, de nada vale um prêmio que já não desperta interesse do público.

Para além dos números, a (falta de) importância do Oscar reflete o que é exibido nas salas de cinema. No ano passado, as atenções estavam voltadas para o fenômeno Barbieheimer, que havia arrecadado US$511 milhões em bilheteria no fim de semana de estreia, de acordo com o Boxoffice.com. Tanto Barbie (2023) quanto Oppenheimer (2023) foram indicados ao prêmio de Melhor Filme, além de concorrerem na maioria das demais categorias da noite. A fim de comparação, em 2018, o filme de maior bilheteria (US$255 milhões) a ser nomeado para “Best Picture” foi Corra, do diretor Jordan Peele. A receptividade do Oscar quanto aos chamados blockbusters já foi colocada em pauta anteriormente: longas que não são muito populares, de baixo orçamento, ganham mais destaque quando são reconhecidos pela Academia, enquanto, por outro lado, “quem irá assistir a um prêmio onde não se conhecem os indicados?”.

Em 2022, a categoria de Melhor Filme ganhou 10 vagas para indicações, o dobro do que era comum no início dos anos 2000, quando apenas cinco filmes eram cotados para o principal prêmio da noite. Essa mudança permitiu que longas mais populares ganhassem espaço dentro da cerimônia, como Top Gun: Maverick (2022) e Não Olhe Para Cima (2021). A estratégia de “filme popular” permite que os longas cult ainda sejam os destaques, mas abre espaço para que os fãs de super-heróis, comédias ou dramalhões épicos também aproveitem a cerimônia. Ainda Estou Aqui, por exemplo, mesmo tendo levado mais de três milhões de brasileiros aos cinemas, não é o principal cartaz nos Estados Unidos. O drama de Salles está na disputa com Duna: parte dois, que já ultrapassou US$700 milhões em bilheteria mundial, e Wicked, que é a maior estreia de um filme musical ao redor do mundo.

Outro concorrente de Ainda Estou Aqui é o infame Emília Perez, que vem acumulando críticas negativas e uma onda de hate latino-americana. O longa francês, produzido pela Netflix e protagonizado, em sua maioria, por atores estadunidenses, é o mais indicado nesta edição do Oscar e, além das categorias principais, concorre como Melhor Filme de Língua Não-Inglesa. O público aponta que o musical não é um retrato fiel do México (país onde é ambientado), e sim uma representação caricata de um povo e sua cultura. Ainda, a presença de um elenco cujo inglês é a língua materna, e não o espanhol, levanta dúvida se o longa merecia sua vaga na disputa para filme internacional. A polêmica ganhou palco, principalmente no Twitter. Até o momento deste artigo, Emília Perez ocupava a sétima posição nos trend topics brasileiros, estando no ranking por pouco mais de 12 horas.

Essa não é a primeira vez que o Oscar é alvo de críticas por injustiça. Em 2015, a #OscarSoWhite (Oscar “tão” Branco) denunciou a falta de diversidade de raça entre os escolhidos pela Academia. A discussão levou ao boicote da premiação por parte de figuras de Hollywood e do público. A falta de presença de mulheres na categoria de Melhor Direção também é sempre analisada – em quase um século de Oscar, apenas três diretoras levantaram a estatueta. Em 2025, apenas Coralie Fargeat (A Substância) concorre ao prêmio. Em um cenário onde os Estados Unidos travam uma guerra contra os direitos humanos, era de se esperar que um prêmio norte-americano e de prestígio como o Oscar assumisse a face da mudança.

Entre altos e baixos, a resposta para a relevância do Oscar é sim. E não. E sim. E não, de novo. Esse ano, para o Brasil, caso Fernanda Torres e Ainda Estou Aqui levantem a estatueta, talvez o Oscar se torne a epítome da arte mundial. Se perderem, é muito provável que o brasileiro não ligue a televisão no ano que vem. Entre suas idas e vindas, o Oscar acerta ao escolher certas batalhas, como reconhecer o coreano Parasita (2019) como o filme do ano de 2020. Muitas das vezes, também, a estatueta dourada merece o tratamento dado por Gwyneth Paltrow – ser usada como um simples peso de porta.


Todos os textos opinativos publicados no portal Notícias del-Rei são identificados como tal – não refletindo, necessariamente, a opinião editorial do coletivo.

Edição: Arthur Raposo Gomes

Deixe um comentário