Lívia Antoniazzi
Nos últimos anos, tornou-se inimaginável uma campanha eleitoral feita sem a poderosa ferramenta da internet. As redes sociais – que são atualmente os recursos mais utilizados para qualquer coisa, com a certeza de uma resposta em massa – são estrelas impagáveis no cenário político. Mesmo com seu charme e relevância, é nelas que mora o perigo: a memória.
A memória, elemento que já conhecemos de longa data, é ainda mais especial no digital, pois não pode ser apagada, diferente da biológica que registra apenas os acontecimentos mais marcantes. Foi com esse artefato que, em 2018, assistimos a Jair Bolsonaro conseguir o título de Presidente da República. Tempos antes, sua imagem se tornou viral na internet, desde momentos antigos até os mais atuais na época, sendo compartilhada e curtida aos montes. Ao transformar o político em “meme”, a direita descobriu um caminho eficaz para conquistar corações e mentes dos brasileiros. É simples: pegar traços da personalidade do indivíduo, ampliá-los até o ponto da comédia e, assim, estabelecer uma conexão emocional com o público. Bolsonaro foi moldado como o “tiozão sincero”, aquele que fala o que pensa, doa a quem doer e foi nesse personagem, que se tornou um ídolo da extrema-direita.
Essa fórmula, quase que comprovada cientificamente nos dá a chance de observar a criação de mais um de seus bonecos: Nikolas Ferreira. O atual deputado federal, mesmo novo, não brinca em serviço. O alinhamento de sua imagem com o ex-Presidente filiado ao PL, suas provocações aos opositores dentro da câmara inundadas de frases de efeito, com direito a peruca e, agora no começo do ano em que observei seus tweets antigos vindo à tona.
A arte de criar um personagem serve tanto para a direita quanto para a esquerda. A primeira, que é o alvo principal, realmente se enxerga dentro das performances, já a oposição, através do X (antigo Twitter), tem ironizado Nikolas da pior maneira possível, chamando o deputado de “gay”, “viado” e suas variações, colocando a culpa, mesmo que sem intenção, na comunidade LGBT. Isso é um prato cheio para o bonequinho da direita, permitindo que ele se esconda por trás da piada, evite discussões sérias e transforme a política em um espetáculo que serve mais à distração do que à solução de problemas.
Dessa forma, ambos se consolidaram como ícones políticos, não apenas pelo discurso ideológico, mas por um trabalho deliberado de construção de suas imagens como “gente como a gente”, misturando carisma e polarização em doses controladas. E é assim que estamos acompanhando a possível vitória de Nikolas como senador, já que ele se diz animado para tentar esse cargo em 2026. Se continuarmos dando palco a seus shows, tenho uma notícia: estamos perdidos.
Edição: Arthur Raposo Gomes
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