Juarez Cruz
Quatro minutos e 11 segundos: este foi o tempo necessário para que o deputado Nikolas Ferreira (PL – MG) colocasse em xeque a nova medida do Governo Lula e da Receita Federal que diz respeito às transações via pix. Através da Instrução normativa 2.219/2024, o Governo Lula passaria a monitorar movimentações no pix de pessoas físicas, a partir de R$ 5 mil, e de pessoas jurídicas a partir de R$ 15mil, ambas por mês. A medida visava principalmente o combate à sonegação de impostos.
Entretanto, o tiro saiu pela culatra. A medida gerou confusão nas redes sociais e repercutiu negativamente, deixando também muitas pessoas em dúvida sobre o que de fato aquilo implicaria no dia a dia. A comunicação deficitária do governo acabou por dar brecha para a disseminação de fake news, colocando ao mesmo tempo políticos de direita e opositores do governo como melhores representantes da indignação social. A ala política que até então perdia apreço da população devido à recente oposição ao fim da escala 6×1, agora encontrava sua via de recuperação da admiração pública.
Com mais de 300 milhões de visualizações, o vídeo de Nikolas Ferreira gerou identificação por grande parcela da sociedade, com alcance muito maior que seu eleitorado. Após a repercussão do vídeo, a medida foi revogada, legitimando ainda mais o discurso de todos aqueles que a ela se opunham.
O governo não foi capaz de dominar a narrativa sobre o que de fato a medida significava, recuando para conter a impopularidade. A reação acabou por confirmar a própria incompetência em defender um posicionamento e ser capaz de explicá-lo à população. O problema de comunicação não é recente, já que o governo apresenta dificuldades para mostrar suas ações e resultados, seja na TV, rádio ou nos meios digitais.
No vídeo, Nikolas pontua os trabalhadores informais e microempreendedores como os mais afetados pela medida, sendo também capaz de aglutinar insatisfações já recorrentes na sociedade, como a maior arrecadação de impostos pelo governo e os gastos públicos relacionados a ministros e à primeira-dama, Janja. O deputado afirma que não haverá taxação sobre o pix, o que é verdade e até então gerava dúvidas, algo que não foi bem explicado pela equipe do governo Lula.
Ao mesmo tempo, Nikolas questiona se de fato não haverá taxação, considerando, por exemplo, que antes o Governo Lula tinha dito que não haveria taxação em compras internacionais ou sigilo de informações em seu governo, o que de fato não aconteceu. Essa argumentação evidencia o tom do vídeo: trata-se muito mais de levantar suspeitas para causar desconfiança do que propagar mentiras.
Na contramão, a deputada Erika Hilton (PSOL – SP) produziu vídeo apontando incoerências de Nikolas, mas o governo mesmo não foi capaz de reagir à altura.
Não há dúvidas quanto aos problemas de comunicação do governo, mas não podem ser considerados como únicos. A narrativa de verdade versus mentira adotada pelo PT e por parte da esquerda como contraponto à direita já não cria tanta aderência.
A direita consegue hoje agrupar diferentes indignações, seja relacionado a impostos e taxações, problemas na área da segurança ou da saúde, apresentando soluções às vezes ousadas e autoritárias, mas que juntas criam um corpo de ideias que gera identificação. Para além de problemas de aspectos técnicos da comunicação, falta também visão de um projeto nacional de governo e a transmissão desse projeto de modo que crie tanta identificação como a direita tem conseguido criar, especialmente através dos canais digitais de comunicação, como Instagram ou WhatsApp.
O discurso precisa mudar.
Todos os textos opinativos publicados no portal Notícias del-Rei são identificados como tal – não refletindo, necessariamente, a opinião editorial do coletivo.
Edição: Arthur Raposo Gomes
