Ana Cláudia Almeida
Nas últimas semanas, a mineira São João del-Rei apresentou um hiperfoco no possível retorno de um famoso jogador conterrâneo ao principal time da cidade. O que era para ser uma conquista comemorada pelos torcedores mais ativos, se tornou, na verdade, um episódio polêmico com reações e debates nas redes sociais.
Contra fatos não há argumentos. O futebol, esporte mais praticado e acompanhado no país, não só movimenta torcidas apaixonadas e fãs da modalidade, como também a sociedade como um todo. Mais uma vez, um caso proveniente do cenário futebolístico reverbera uma questão social: qual é o preço das suas origens? Fama e status realmente valem o apagamento de sua história?
Vaidade, segundo a Bíblia e dicionários, qualidade do que é vão, vazio, firmado sobre aparência ilusória. Quando se trata de imodéstia e renegação, Thiago Galhardo e suas afirmações arrogantes e contundentes resgatam em nossa memória outros exemplos públicos dentro e fora do esporte. Adriano Imperador, Kanye West, Nikolas Ferreira, Davi Britto, Neymar, Robinho, Daniel Alves…
Se observarmos bem, em tempos atuais, sob o dilema essência ou aparência, a futilidade muitas vezes impera sobre os valores e conexões familiares. Sábio, Abraham Lincoln, mergulhado na política, já notava tal fenômeno humano ao dizer: “se quiser pôr à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder e dinheiro”.
Nos quatros cantos dessa imensa nação, há uma certa realidade que se repete. Segundo estudo da UNICEF Brasil, há décadas um sonho comum a milhares de crianças é passar em uma das diversas “peneiras” que participam para, mesmo sob forte pressão física e psicológica, se profissionalizar no esporte e mudar de vida. São inúmeros meninos e meninas de pés descalços, em chão de terra e quadras precárias, correndo e correndo, buscando um lugar ao Sol. Uns apoiados por suas famílias, outros não, no geral todos almejando sair daquele mundo escasso em que nasceram e cresceram. O tal “topo” que miram, a TV e as redes sociais já logo definem: viagens, resorts, joias, conversíveis, mansões, luxo, dinheiro e mais dinheiro. Em meio ao aprendizado da ganância e do exibicionismo, para a família e o passado, será que ainda sobra espaço?
Uma coisa é certa: podemos até prever futuros talentos, mas não se sabe hoje quem será amanhã mais um filho de uma mãe ou uma terra renegada. Todos temos contradições e incoerências, mas os deslumbrados se superam. Nada adianta construir um enorme castelo, se não fortalecer sua base. Antes fosse apenas uma pitada de amor e boa criação os ingredientes para a boa índole.
Como alerta os Racionais MCs, lembrar que “nem tudo o que brilha é relíquia nem joia” já é um bom começo. O segredo pode ser ainda mais simples, “lado a lado se ganhar, pra te apoiar se perder”.
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Edição: Arthur Raposo Gomes
