Ana Luiza Reis
É evidente como a indústria cinematográfica sempre utilizou da tecnologia para melhorar a forma de contar suas histórias. Seja com CGI em filmes de super heróis, ou efeitos especiais em filmes de ficção cientifica e ação, a tecnologia sempre esteve presente. Porém, por trás dessas tecnologias sempre houve seres humanos controlando tais “máquinas”, mas e agora que temos acesso a uma ferramenta que não precisa de mais ninguém? Recentemente, a discussão ganhou força com o uso da IA (inteligência artificial) em filmes cotados ao Oscar, como o musical Emilia Perez, que rivaliza diretamente com o brasileiro Ainda Estou Aqui. Enquanto o filme nacional emociona com atuações e técnicas tradicionais, Emilia Perez divide opiniões ao usar IA para alterar a voz de alguns atores. Essa disputa exemplifica o debate mais amplo: até que ponto a tecnologia enriquece a arte e quando ela começa a substituí-la?
O uso das IAs se tornou parte do cotidiano de todos, inegavelmente. Segundo a empresa McKinsey, no ano de 2024, mais de 72% das empresas mundiais já utilizam dessa tecnologia. Diante desse cenário, é imprescindível que as pessoas saibam das problemáticas que envolvem essa ferramenta. Um estudo publicado na Societies mostra como a inteligência artificial pode gerar uma dependência cognitiva, levantando preocupações em torno da perda de habilidades em tarefas comuns do dia a dia. No campo artístico, essa questão ganha contornos ainda mais delicados. Há temores de que o uso de IAs em produções culturais leve artistas, roteiristas e diretores a perderem a essência de seus talentos. Um exemplo emblemático é o filme musical Emilia Perez, em que a IA foi utilizada para modificar a voz da atriz principal, ampliando seu alcance vocal. Essa decisão alterou um dos pilares da identidade artística do gênero musical, onde o talento vocal dos atores é essencial. Nesse caso, não foi a atriz que trouxe o desempenho autêntico, mas um algoritmo, colocando em xeque a autenticidade artística.
Além disso, outro aspecto preocupante é o impacto da inteligência artificial na geração de empregos na área artística. Em 2023, o sindicato dos atores entrou em greve por diversas razões, incluindo a preocupação de que o uso excessivo dessa tecnologia na criação de produtos artísticos pudesse reduzir significativamente as oportunidades de trabalho. Atores, roteiristas, produtores e outros profissionais da indústria cinematográfica temem que a automação de processos criativos substitua parte da força de trabalho, afetando tanto a quantidade quanto a qualidade das produções. Como exemplo, no filme “Entrevista com o Demônio”, de 2023, foi utilizado inteligência artificial para criar designs de letreiros para acompanhar algumas cenas da obra. Com isso, muitos internautas comentaram como esse trabalho poderia ter sido feito por artistas gráficos, e assim, gerar mais emprego na indústria.
A arte sempre foi uma forma de expressar o que é ser humano. Quando colocamos a tecnologia acima da criatividade, corremos o risco de transformar o cinema em algo puramente comercial, sem alma ou significado. Por isso, é importante que a indústria do cinema use a inteligência artificial com equilíbrio, para que ela seja uma ferramenta que apoie o talento humano, e não algo que o substitua.
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Edição: Arthur Raposo Gomes
