Camila Ferraz
Em uma cidade como São João del-Rei, que respira história e tradição, a relação entre os jovens e as manifestações culturais locais revela muito sobre a preservação e a reinvenção da identidade coletiva. A cidade tem experimentado um movimento interessante: como suas tradições se adaptam para dialogar com as novas gerações?
Uma das grandes pontes entre os jovens e a cultura local é a agenda cultural diversificada. No início deste ano, eventos como o “Cineclube Chinês”, a Exposição Fotográfica “Olhares por São João del-Rei” e o “Festival de Sabores e Música” destacaram-se como oportunidades de integração entre diferentes gerações em espaços históricos. Esses eventos não apenas celebram a cultura, mas também despertam reflexões importantes: será que os jovens reconhecem o valor dessas tradições? Como essas iniciativas conseguem atrair tanto o público jovem quanto os mais velhos? Além de incentivar a participação, essas ações mostram como a cultura pode ser inclusiva e acolhedora, mesmo em tempos de transformações sociais rápidas.
A tradição musical de São João del-Rei, presente desde o século XVIII, é outro elemento essencial na relação entre jovens e cultura local. A cidade possui duas corporações musicais históricas, a Orquestra Ribeiro Bastos e a Orquestra Lira Sanjoanense, ambas em atividade desde o século XVIII. Essas corporações continuam ativas, apresentando-se em missas, peças teatrais e eventos sociais, conectando os jovens à rica tradição musical sacra e erudita da cidade. Além disso, o Conservatório Estadual de Música Padre José Maria Xavier, que reúne mais de 1800 alunos, e o curso de graduação em música da Universidade Federal de São João del-Rei formam músicos tanto para o mercado local quanto para o nacional.
Segundo Daniel Della Savia, professor do Conservatório, o interesse dos jovens pela música tradicional e barroca em São João del-Rei é maior do que em outras cidades devido à tradição cultural da região. Ele destaca que o conservatório atrai um público diverso, o que permite aos jovens entrarem em contato com diferentes estilos musicais, mesmo que seu interesse inicial não seja a música tradicional. Apesar da diversificação de interesses, projetos como o coral “Da Boca Pra Fora”, do professor Carlos Eduardo, e o Núcleo de Ópera continuam a promover a música tradicional, abrindo espaço tanto para iniciantes quanto para músicos experientes.
O professor também aponta que a maior concorrência à música tradicional é a internet e as ferramentas digitais, que oferecem acesso rápido a diversos tipos de entretenimento. Apesar disso, ele acredita que essas ferramentas têm sido usadas de maneira promissora para aproximar os jovens da cultura tradicional, especialmente com vídeos curtos e conteúdos dinâmicos que capturam a atenção do público jovem. Exemplos de inovação incluem projetos que mesclam música barroca com percussão moderna, criando uma fusão interessante entre o clássico e o contemporâneo e abrindo novas possibilidades para a tradição.
Por outro lado, os desafios ainda existem. Muitos jovens encontram dificuldades em se conectar com as tradições devido à influência de culturas externas e ao ritmo acelerado da era digital. Nesse cenário, iniciativas que unem tradição e inovação são fundamentais. O artesanato local, por exemplo, é um elo entre o passado e o presente. Segundo a Pousada Casarão, o artesanato de São João del-Rei reflete a identidade da cidade e se reinventa com o tempo, incorporando elementos que dialogam com as novas gerações.
O futuro da cultura tradicional em São João del-Rei dependerá de ações que conectem gerações e garantam que os jovens sintam-se parte desse legado. Será que estamos prontos para reinventar as tradições e torná-las mais próximas das novas gerações?
Mais do que preservar memórias, a tradição ganha força quando consegue criar experiências que engajem as pessoas e as conectem profundamente ao seu valor cultural.
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Edição: Arthur Raposo Gomes
