Júlia Diniz
As feiras de frutas e verduras fazem parte de uma raiz cultural brasileira muito característica – principalmente no que se diz respeito à presença desse costume em cidades do interior. Essa tradição faz parte de um cotidiano marcado por uma maior interatividade social, de uma valorização de pequenos produtores e de uma conexão comunitária e pública. Entretanto, esse patrimônio cultural não é muito presente no dia a dia de São João del-Rei.
Os problemas que culminam nessa questão se apresentam multifatoriais: desde a falta de cumprimento de políticas públicas, de uma logística de transporte deficiente, de centros de distribuição e da ampla concorrência de redes de supermercados, da declividade acentuada do solo, até a falta de recursos financeiros e técnicos. De acordo com um artigo desenvolvido por estudantes da Universidade Federal de São João del-Rei e financiado pela Fundação de Amparo a Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG), “Políticas Públicas na Zona Rural de São João del-Rei: Uma visão de seus moradores”, em entrevistas dadas por moradores da região rural da cidade, foi possível identificar o precário cumprimento de ações por parte do poder público municipal. Um dos principais problemas relatados é a falta de infraestrutura nas estradas que viabilizam um transporte mais recorrente de escoamento de produtos cultivados.
A complementar esse argumento, segundo o trabalho “Diagnóstico rural da microrregião de São João del-Rei, MG”, “os principais problemas apontados pelos produtores de frutas referem-se à falta de crédito e assistência técnica, ao alto custo de produção, às dificuldades no controle de pragas e doenças e na comercialização, especialmente em razão da insegurança na venda da produção, decorrente da frequente inadimplência dos compradores”.
Outro fator que se pode atrelar à dificuldade de ocorrência de feiras na cidade está presente no artigo da FAPEMIG apresentado anteriormente que relata: “todavia, foi percebido que os próprios moradores descrevem suas regiões com certo desprestígio. Pode-se afirmar que a desvalorização social em relação à zona rural, presente na cultura e nos valores sociais (macrossistema) tem repercussões na maneira como essas populações vivem, se articulam e enxergam a zona rural (microssistema)”.
Além disso, por ser uma cidade universitária, a rotatividade de pessoas é significativa, o que faz com que o consumo básico se torne fundamental, sendo atendido por meio das redes de supermercados distribuídas pela cidade. Assim, tendo em vista o grande infortúnio de desinteresse da própria população são-joanense na promoção de feiras, juntamente ao setor público desfalcado em políticas de incentivo, a cidade segue sem desfrutar do prazer cotidiano do interior de fazer feira.
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Edição: Arthur Raposo Gomes
