Felipe Rocha
“A Favorita”, “Avenida Brasil” e “Todas as Flores”. Esses são os três grandes maiores sucessos em audiência e repercussão de João Emanuel Carneiro (JEC), autor do atual problemão das 9, a novela “Mania de Você”.
Os noveleiros assíduos sabem que toda vez que JEC estreia uma obra em TV aberta, o hype é grande. Porque ele foi o autor capaz de parar o país no último capítulo de “Avenida Brasil”, atingindo 52 pontos de audiência. Com “Mania de Você”, o hype foi o mesmo: após duas sagas rurais no horário das 9, esperava-se um novelão, uma história que ninguém iria perder um capítulo sequer. Mas ocorreu justamente o contrário, desde a sua estreia, a telenovela amarga os piores índices do horário e uma série de fatores estão envolvidos, como o enredo totalmente inconsistente, desinteressante e inverossímil. Seja muito bem-vindo: o fracasso histórico está no ar!
Muitos dizem que audiência não é sinônimo de qualidade. É verdade. Mas é sinônimo de repercussão também. E não se pode exigir que a audiência atual se aproxime dos parâmetros antigos. Hoje o contexto é bem diferente. Com o advento dos streamings, as pessoas podem dar o play no horário que desejarem. Não é que a TV aberta esteja “morrendo”, mas a forma de consumir conteúdos mudou. Para uma emissora que sempre viu 30 pontos no seu horário, em média, a média geral de “Mania de Você” é assustadora: 21 pontos, segundo dados do Kantar Ibope na Grande São Paulo.
Com certeza, a telenovela é a mais flopada em 60 anos de história da TV Globo. Desde o seu início, nenhum capítulo conseguiu chegar aos tão sonhados 30 pontos, que nos dias de hoje, é altíssimo e se tornou até uma utopia. E o problema não envolve só a falta de público, mas os prejuízos comerciais e financeiros que a emissora tem com isso, com a diminuição de anunciantes no horário da novela, por exemplo. As contas falam mais alto: segundo informações divulgadas pelo Notícias da TV, hoje a Globo gasta R$ 1 milhão para produzir um capítulo de novela das 9. Fica claro que os danos estão sendo grandiosos para uma audiência de tal tamanho.
O mestre Silvio de Abreu, antigo diretor de teledramaturgia da Globo, afirma que hoje a produção de novelas da emissora está totalmente amadora. Entre os motivos, mudanças no processo de fazer histórias, com a falta de supervisão de texto e tentativas de inovar que acabam resultando em caminhos errados. Sílvio destaca também que muitos medalhões foram demitidos ou já estão aposentados como Elizabeth Jhin, Manoel Carlos, Alcides Nogueira, Maria Adelaide Amaral, dentre outros. A pergunta é: se até os antigos estão errando, o que está acontecendo com as novelas?
Um dos maiores equívocos está no enredo. Com “Mania de Você”, é rotineiro: os capítulos são desinteressantes, arrastados e a história segue numa obsessão sem fim de um personagem por outro, fazendo jus ao nome. Mas o problema é que isso cansa. Ironia que João Emanuel Carneiro tinha dado entrevistas no início da novela dizendo que seu objetivo era fazer da sua trama capítulos de séries: eletrizantes e com uma narrativa acelerada. Mas essa inovação não caiu nas graças do público. A história é a seguinte: a primeira fase foca em quatro protagonistas incriminados pelo assassinato de Molina, personagem de Rodrigo Lombardi. Na segunda fase, eles lidariam com as consequências. Mas a bomba é que Molina está vivinho da silva! Perceberam? Uma cartada inverossímil de JEC para subir a audiência. Outro fator que incomodou bastante os noveleiros foi a ideia do jogo virar o tempo todo, slogan da chamada da novela. Com a falta de vilões e mocinhos bem definidos, os personagens oscilavam em uma dualidade incessante. Só que quem assiste o gênero não está acostumado com isso. Está querendo ver histórias como: a mocinha que luta contra a vilã a novela inteira até conseguir ficar junto do seu amado. Isso são histórias clássicas. “Mania de Você” não tem carisma dos protagonistas nem no próprio enredo. Fica difícil torcer e acompanhar um capítulo.
Portanto, fica a pergunta: será que “Mania de Você” escancara a decadência das novelas, tanto em qualidade quanto repercussão? Isso depende da sua visão, caro leitor. Ainda é muito cedo para dizer. A telenovela é a essência do Brasil. O que o público precisa é de histórias clássicas, que tenham personagens carismáticos, os quais possam ser motivos de torcida, etc. Histórias essas que fizeram de “A Favorita”, “Avenida Brasil” e “Todas as Flores” grandes sucessos. Como pode um autor ter acertado a fórmula nessas e escrito ‘Mania de Você”? A resposta deve ser a seguinte: é melhor apostar numa estrutura que dá certo, do que na reinvenção do gênero.
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Edição: Arthur Raposo Gomes
