João Pedro Ferreira e Lucas Reis Pereira
A procura por jogos de tabuleiros e atividades lúdicas como um todo vem crescendo desde a pandemia. Ironicamente o único estabelecimento deste tipo que tínhamos na cidade, foi fechado durante a mesma. As luderias são um tipo de negócio que vem ganhando força, mesclando atividades recreativas como RPGs de mesa e jogos de carta com lanches criativos e temáticos. Curiosamente, não temos nenhuma aqui em São João del-Rei, mesmo com o mercado aquecido no setor e com público para o tipo de recreação.
Diogo, segundo o perfil @gente_que_empreende, foi o idealizador do “Abades Ludo Café”. Estabelecimento localizado no Centro Histórico de São João, ficou conhecido pela qualidade de seu café, mas acima de tudo, pela diversidade de experiências lúdicas disponíveis, com mais de 300 jogos de tabuleiro à disposição dos visitantes. Inaugurado em agosto de 2018, veio a anunciar o fechamento em setembro de 2020, ainda durante a pandemia de Covid-19, como vários comércios na época. Contudo, na ocasião, a suspensão das atividades foi anunciada como temporária. Porém, até o presente momento, nenhuma outra notícia foi divulgada na conta do negócio. E desde então, não tivemos mais nenhum exemplar de uma atividade próxima entregue por nenhum outro estabelecimento.
De acordo com a Associação Brasileira de Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), a venda de jogos de tabuleiro representava, em 2024, cerca de 13,1% de todas as vendas de brinquedos do país: um aumento expressivo se comparado com os 9,1% registrados em 2017. Mundialmente falando, o mercado movimentou mais de R$53 bilhões somente no ano de 2024, indicando crescente interesse nesse meio.
Dado as tendências nacionais e globais de crescimento, a carência desse tipo de serviço na cidade indica não uma falta de interesse do público, mas uma defasagem na absorção de demandas no mercado local. A ausência de capitalização em cima de novas demandas pode indicar um certo protecionismo em relação a novas atividades sociais e de sociabilização. Tal tendência pode ser explicada pelo alinhamento conservador da população, e por consequência, do governo são-joanense.
Nas eleições municipais, com mais de 50% dos votos válidos, o vencedor foi Aurélio Suenes. O atual prefeito concorreu pelo Partido Liberal (PL), mesmo partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto a segunda colocada foi Jânia Costa estava filiada no Partido da Renovação Democrática (PRD), considerado de centro-direita.
Vale comentar que, recentemente, a nova administração municipal articulou os parâmetros “aceitáveis” para os blocos do carnaval de 2025, incluindo a proibição de músicas com apologia à condutas ilegais, como violência e discriminação, além da restrição dos ritmos musicais ao “tradicional”, como marchinhas, samba e frevo. Tal legislação moral, somada às alianças do atual e anterior prefeito (ambos aliados de Jair Bolsonaro), demonstra que a falta de entretenimento alternativo na cidade se trata de uma pauta puramente ideológica e de valores.
Em suma, enquanto a cidade permanecer em mãos conservadoras, o entretenimento e a cultura que esses indivíduos consideram “tradicionais” continuarão a dominar o espaço público, enquanto novas oportunidades, que talvez fujam ao senso comum, não terão a oportunidade de se estabelecer na cidade.
E assim continuará a história da Abades e incontáveis outros que nunca puderam crescer no ecossistema de São João del-Rei.
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Edição: Arthur Raposo Gomes
