Dimitri Boldrin, João Pedro Ferreira e Lucas Reis

Em uma parte de um prédio no campus da Universidade Federal de São João del-Rei, mais especificamente no segundo andar, está sediado um programa que, para os leigos, é um amontoado de salas cheias de bugigangas tecnológicas e miscelâneas infantis – o contraste chama muito a atenção. Em uma sala, filas e filas de impressoras 3D são alinhadas, junto a diversos equipamentos compondo uma série de apetrechos complexos. Em outra sala, as prateleiras são ricamente coloridas, com desenhos, embalagens com olhinhos colados, e bonecos sorridentes, dos mais diversos tamanhos e intenções.
Nesta parte do prédio, o comandante-chefe é Eduardo Bento. O seu programa, o CyRoS que traduzido do inglês significa “Sistemas Robóticos e Cibernéticos”, é um posto de atividades grandes e pequenas. Algumas tão pequenas quanto o humilde começo deste programa, a iniciativa Y-Soccer, que fazia uso de robôs para participar da competição de futebol robótico. Mais tarde, em 2010, contando com o interesse de alunos de disciplinas como “Circuitos Elétricos”, foi fundada a Y-Robots, a primeira iniciativa de extensão, inicialmente usando robôs de LEGO.
À reportagem, Bento sorri enquanto se lembra do passado. “Em 2011, uma grande virada aconteceu quando o Simpósio Brasileiro de Automação Inteligente trouxe competições nacionais de robótica para cá. Naquele ano, assumi a organização do evento, mesmo enquanto fazia doutorado. Foi um período desafiador, mas abriu portas significativas para a área.” Naquele ano, o CyRoS foi oficialmente criado.
A visão do programa começa a se concretizar entre os anos de 2011 e 2013, quando o projeto é oficialmente reconhecido como um núcleo de inovação, graças às suas iniciativas de desenvolvimento de tecnologias de acessibilidade para pessoas com deficiência. Em 2018, ocorreu a fundação do Núcleo Vertentes, em colaboração com o MIT e com a Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa. Durante a pandemia, em 2021, ocorreu a consolidação e reorganização do CyRoS, centralizando todas as suas atividades em um único prédio.
Após uma pergunta sobre o que ele gostaria de mudar e o que ele planeja para o futuro, ocorre um momento de silêncio que parece uma eternidade, até que Eduardo Bento solta uma pequena risada. “Essa é uma pergunta complicada. Hoje, por exemplo, eu não tenho resposta para ela, para você, mas eu tenho alguns caminhos que eu tenho imaginado e tenho tentado construir”, ele responde.
Ao continuar contemplando o futuro, ele se recorda das grandes tribulações que passou durante a pandemia. “Por exemplo, eu perdi um colega de trabalho aqui, o pró-reitor, o Steniel, nos primeiros meses da pandemia. E aquilo me fez observar que existe uma diferença muito grande entre a vida e a vida dentro da substituição de trabalho. Então, eu queria ampliar um pouco mais a minha responsabilidade de vida mesmo”, reflete Bento, como é conhecido.
Questionado sobre os objetivos alcançados nos anos recentes, me referindo especialmente às parcerias fechadas com instituições do exterior, como o MIT e a Universidade de Tufts, Bento se refere, a última, a ela como uma das mais inclusivas do mundo, com projetos que contemplam desde iniciativas tecnológicas até o que é considerado o maior museu de artes cênicas interativo do mundo.
Ao final de entrevista, ele aponta o que acredita ser o seu grande objetivo no CyRoS: “então o sonho é esse, é um espaço de inovação mesmo e criatividade, e que as pessoas possam fundar as empresas, startups, os alunos possam sair aqui com essa visão de que pode criar uma empresa sustentável, que pode mudar o mundo, então o sonho é bem grande, falta muito para organizar o laboratório para chegar a isso ainda. Mas já tem coisas acontecendo […], eu fico feliz vendo que as coisas estão acontecendo, para a gente falar se é o caminho que eu vou continuar percorrendo, eu não sei”.
O tempo de entrevista infelizmente chega ao fim, e no caminho de volta para casa, os repórteres levam um tempo para absorver suas palavras. É difícil de acreditar que um indivíduo possa ter começado de maneira tão humilde, com robôs emprestados de outras instituições, e ter levado seu projeto, a paixão de sua vida, a lugares tão altos, dialogando com algumas das instituições tecnológicas mais prestigiadas de todo o mundo. Com certeza, Eduardo Bento planeja alcançar patamares ainda maiores.
Edição: Arthur Raposo Gomes
Suporte: Bruno Nézio
