A TRILHA SONORA DE TETÉ SANTOS

Ana Cláudia Almeida, Maria Luiza Maia e Vitor Ramiro

Há sempre algo mágico nas canções que permeiam nossas vidas. O músico, um artesão das emoções, é capaz de tecer melodias que se entrelaçam com nossos momentos mais íntimos, criando assim uma trilha sonora única para cada um de nós.

Foi adentrando a principal escola musical da região, o Conservatório Estadual de Música Padre José Maria Xavier, que nos deparamos com Teté, um dos mais ilustres compositores da cidade. Fomos em direção a um corredor lateral e encontramos aberta a conexão com a Biblioteca Municipal. Fato raro, como se fosse um convite ao acaso. De forma irônica, procurávamos um ambiente mais quieto para encontrar um ser inquietante.

Teté Santos é um sexagenário espirituoso, com bastante energia e disposição. Um sujeito com estilo despojado e uma barba meio comprida característica, que carrega consigo um precioso conhecimento de si e do mundo que o cerca.  Não somente um filho amado, e um esposo e pai orgulhoso, é um agente da cultura apaixonado por sua terra. Aliás, como ele mesmo diz, sua vocação nesta Terra é, e sempre foi, a música: “minha vida de músico, em São João, começou muito cedo. Foi com sete anos aqui no conservatório, quando minha mãe me colocou. E aí fui desenvolvendo, fui ‘parar’ como coroinha. Aprendi os cantos litúrgicos, as missas, e já com dez anos, cantava as músicas gregorianas”.

Biblioteca Regional de São João del Rei (Foto: Ana Cláudia Almeida)

Seguindo a viagem pelo seu passado, o mineiro para seu trem de lembranças em duas estações: a época de seu nascimento e a de sua antiga rotina conventual. Primeiro, abordando sua trajetória musical, ele acha relevante nos dizer onde ela mais se fortaleceu e seu verdadeiro nome. “Estou há mais de 40 anos na Orquestra Ribeiro Bastos, já fui presidente da Sinfônica por sete ou oito anos, e (hoje) participo da Ordem Terceira do Carmo. Essa minha conexão (com a música) sempre esteve muito ligada à Igreja do Carmo. Já na pia batismal, porque quando eu nasci, minha mãe me entregou para São José e a Nossa senhora do Carmo, por isso que eu sou ‘José do Carmo’”. De forma cômica, bem típica em suas histórias, acrescenta a aguardada explicação de seu apelido: “o pessoal me conhece mais como ‘Teté’ mesmo, porque a minha mãe tinha um menino que dava de mamar, e eu ficava de um lado e ele do outro. Como ele tinha o apelido de ‘Té’, minha mãe, para diferenciar, falou que eu era o ‘Teté’. Então ficou assim”.

Dando continuidade à sua linha do tempo, José do Carmo cada vez mais nos mostrava que grande parte da sua vivência foi em meio à dedicação religiosa, partituras e acordes. Como gosta de dizer, esse é seu chamado e com as batidas e notas ecoando em sua mente, uma expressão genuína de si mesmo é expressa diariamente. “A vida da gente é tocada na música e ela mesma é quase toda musical. Quando estive no convento, eu já pegava livros de uns padres e saía ‘musicando’ tudo. Ali era legal, foi um período muito bom que eu cresci muito, sabe.”. Neste momento, o tom nostálgico e de gratidão abriu espaço para um desabafo e, quiçá, uma justificativa para a quebra de um destino já aparentemente traçado: “ali ‘peguei’ muito conhecimento, muito estudo, mas não era aquilo e eu tinha que sair… foi muito difícil, o convento e a vida religiosa entram dentro de você… mas claro, sou muito feliz com minha vocação, meu chamado, com minha família”.

Filho da Aparecida da Rua do Ouro

Teté, conhecido pela sua dedicação à música, deu um passo importante e um pouco diferente em 2024 ao se candidatar a vereador em São João del-Rei. Um dos seus objetivos era levar para Câmara de Vereadores as pautas ligadas a Serra do Lenheiro e as áreas culturais da cidade. Filho de Aparecida Maria dos Santos, mais conhecida como Aparecida da Rua do Ouro, José do Carmo busca continuar o legado de sua mãe, que teve um trabalho significativo em São João del-Rei.

Ele relembra com orgulho o período em que sua mãe foi vereadora. “Minha mãe entra na política, ganha para vereadora com 1.300 votos. Foi um período que ela fez muito pela serra, pelas ruas, caminhos que tinha que arrumar para o pessoal […] Ela sempre dizia: A gente tem que dar qualidade de vida para esse povo”. Durante seu mandato, Aparecida dedicou-se para realizar melhorias nas regiões próximas à Serra do Lenheiro, focando na infraestrutura e no atendimento às necessidades dos moradores locais, deixando um legado de cuidado e comprometimento com a comunidade. Essa visão continua a inspirar José do Carmo em sua própria trajetória.

O artista destaca que sua mãe o apoiou em sua candidatura, mas sempre o relembrava que essa primeira tentativa serviria mais como uma maneira dele se apresentar politicamente do que alcançar um resultado positivo imediato. Teté recebeu 288 votos nesta primeira tentativa e, apesar do resultado sem sucesso, ele planeja tentar novamente na próxima eleição.

Composição

Muito mais do que apenas para o exterior, Teté deixa bem claro em momentos do breve tempo em que passamos conversando sobre a mudança de seu próprio olhar em relação à Serra após a composição e idealização do projeto. São em composições não-óbvias que Teté explora o que tem de mais único no ambiente tão diversificado no sentido social e ecológico onde se encontra a Serra do Lenheiro.

“Já fiz muitas músicas mas não algo que me pertencesse. (…) Quando comecei a fazer essas canções, eu comecei a me identificar com o pertencimento da Serra”.

Com este brilho nos olhos, Teté conta sobre a trajetória do repertório musical, que apesar de não possuir uma data exata para lançamento – além de projeções para o início de 2025 – já possui todo o material audiovisual encaminhado. Enquanto uma figura tão voltada para a cena artística são-joanense, Teté reconhece a importância da colaboração tanto artística quanto cultural e técnica relacionada a seu trabalho.

Foi ao realizar o curso de Turismo oferecido pelo Senac, que Teté iniciou sua percepção da Serra do Lenheiro como uma enorme promessa para a rota turística em São João del-Rei.

Em conjunto com o geógrafo Ulisses Passarelli, também reconhecido como uma das figuras mais emblemáticas da causa, Teté organizou e compôs as mais de 20 músicas presentes no repertório do projeto, com o auxílio do conhecimento de Ulisses que também desenvolveu um dossiê de mais de 700 páginas sobre a cultura, fauna e flora presente na Serra do Lenheiro.

Dossiê da Serra do Lenheiro publicado por Ulisses Passarelli (Reprodução: Biblioteca Regional de São João del-Rei)

Em um repertório de 23 músicas, previstas para serem disponibilizadas em um evento especial no Teatro Municipal de São João del-Rei, Teté relembra a importância de uma das principais canções intitulada “A Hora do Lenheiro”, canção esta já reconhecida como um mantra entre todos que levam a frente o projeto de popularização da Serra.

“O Projeto da Serra não é um show aleatório, é uma forma de abraçar a causa junto com os parceiros, e minha contribuição é com a música, para proteger.”

E foi com orgulho que encaminhando pro encerramento de nossa conversa, Teté pede as bibliotecárias a cópia do dossiê, um livro pesado e recheado das mais diversas informações sobre a Serra. Teté apresentou com orgulho as páginas relacionadas aos envolvidos na pesquisa e por mais uma vez reforçou a importância dessa memória da qual deve pertencer não só aos moradores da Serra, mas sim, a toda população são joanense. E das ruas de pedra sabão onde se encontra a biblioteca, Teté se despede de nós com um abraço caloroso e agradecimentos pelo olhar para a Serra do Lenheiro.


Edição: Arthur Raposo Gomes

Suporte: Bruno Nézio

Imagem de destaque: Vitor Ramiro

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