Laura Brêtas e Rafaela Nery
A banca do senhor Fernando Luiz dos Santos é uma clássica banca dos anos 2000. Tem gibis da Turma da Mônica, pilhas de jornais tradicionais e muitos jogos, como caça-palavras. Isqueiros, caixas de “paieiro” e chaveiros também fazem parte do acervo. O ambiente é recheado pelo sentimento constante de nostalgia, pela saudade e vontade de folhear um jornal e de rir com a última página de tirinhas, onde muitos encontram esse hábito já quase esquecido.
“Seu Fernando” é uma pessoa simples: tem 61 anos, e no dia da entrevista usava bermuda jeans, chinelo, camiseta verde e um boné escrito “Santa Luzia”. Com um sorriso tímido de quem está sempre pronto para uma boa conversa que recorde os velhos tempos, recebe as repórteres muito bem.
A Esquina e a Família
A esquina da rua Ministro Gabriel Passos com a Avenida Tiradentes tem sido a segunda casa dele desde 1989, quando começou a trabalhar com a venda de jornais e revistas. Antes disso, “seu Fernando” trabalhava com cabras: a oportunidade de tornar-se jornaleiro surgiu por meio da irmã.
“Minha irmã trabalhava na distribuidora de jornal e revista e a banca vagou. Os donos dela se mudaram e a minha irmã pegou e me falou. Aí eu peguei e fui na distribuidora. Eu trabalhava com o filho da dona da distribuidora numa criação de cabras. Aí eu falei para ele […] se ele não podia passar a banca pra mim. E ele disse ‘claro’”, afirma Fernando. Aos poucos, o espaço foi crescendo e se adaptando à demanda.
“Seu Fernando” mora perto da Avenida da Leite de Castro, é casado com a dona Nely, que trabalha como funcionária terceirizada no Campus Dom Bosco da Universidade Federal de São João del-Rei. O casal tem uma filha de 29 anos, a Fernanda, formada em Zootecnia pela UFSJ e atualmente doutoranda em Botucatu (SP). Quando menciona a filha única, seu Fernando perde um pouco da timidez e conta da trajetória dela, que chegou a acompanhá-lo na banca.
“Ela sempre teve o nosso incentivo para ler e aprender, com certeza”, disse ele orgulhoso. Desde a barriga da mãe, Fernanda esteve presente na banca ao lado do seu pai. No Carnaval, era presença confirmada. Mas nos dias de chuva, Fernanda também se divertia explorando os mil universos diferentes escondidos nas páginas dos almanaques.
Ela iniciou seus estudos em Zootecnia no Campus Tancredo Neves, e depois seguiu estudando e se especializando tanto em Viçosa, quanto em Botucatu. Hoje, ela retorna para a cidade nas férias para visitar os pais: quando ela está em solo são-joanense, é sempre momento de alegria, emoção e sensação de dever cumprido para o seu Fernando.

(Foto/Reprodução: Arquivo Pessoal)
A Internet e os Dias Atuais
Quando o “seu Fernando” começou a trabalhar na banca, em 1989, a Internet estava começando a se desenvolver melhor. No ano seguinte, em 1990, o World Wide Web (WWW) foi criado por Tim Berners-Lee, o que possibilitou a navegação pelos hipertextos. Em São João del-Rei, pequena cidade do interior de Minas, 1989 foi um ano comum para todos, exceto para seu “Fernando”.
No início, a diversão das pessoas era palavras-cruzadas e ler as principais notícias no jornal impresso. Hoje em dia, as palavras-cruzadas foram substituídas por jogos on-line, e as notícias do mundo podem ser acessadas instantaneamente com um clique na tela do celular.
“Como não tinha Internet, o jornal fazia tudo. Acabava a missa, isso aqui fazia fila. E você só conseguia comprar o jornal se tivesse com nome na lista”, relembrou.
Os tempos mudaram drasticamente. Hoje em dia, a placa principal da banca de “seu Fernando” diz que ele tem “jornal para pet”.
“O jornal ninguém quer saber, a notícia fica muito ultrapassada. Por exemplo, essa menina [Maria Laura, que trabalha em uma mesinha perto da banca vendendo bilhetes da Minas Cap] me gritou um dia ‘Fernando, Silvio Santos acabou de morrer’ aí daqui a uns 20 minutos que ela falou, o mundo inteiro estava sabendo. Só no outro dia que foi sair na capa dos jornais”, constatou ele.
Apesar disso, seu Fernando tem fiéis leitores que compram o jornal. Em sua maioria, são pessoas mais velhas que seguem a tradição do bom cheiro e toque dos jornais impressos. Entre essas, está o próprio “seu Fernando” que, mesmo tendo smartphone e acesso à internet, prefere se informar através das folhas preto e branco, ainda que isso signifique estar “atrasado”.
Presente e Futuro
Apesar dos 61 anos de idade e da sua contribuição ao (Instituto Nacional do Seguro Social) INSS, “seu Fernando” revelou à reportagem que não pensa em se aposentar: a banca é um hobby, é a “sua menina dos olhos de ouro”. Lá ele acompanha as pessoas andando apressadas, de um lado para o outro, em uma das mais movimentadas avenidas da cidade. Seus dias nunca são monótonos: tem sempre a companhia de um bom jornal. Ou melhor, de vários. E mesmo só de estar na banca, os seus dias já valem a pena.
“Isso daqui é a minha vida toda. Mesmo aposentando, não vou largar a banca. Daqui eu tirei tudo que eu tinha. Entrei aqui com uma bicicleta e hoje tenho tudo: é uma casa de pobre, mas tem de tudo. Eu posso vir e não vender nada, mas só de vir aqui…”, refletiu ele emocionado.
Seu Fernando é animado, trabalhador e, acima de tudo, apaixonado pelo que faz e pela sua família. Com seus gibis e jogos, já fez muitos jovens se encantarem pela leitura; ajudou e ajuda a disseminar informação para a população são-joanense, a criar memórias e conservar seu legado calmo e tranquilo no centro da Avenida Tiradentes.

Edição: Arthur Raposo Gomes
Suporte: Bruno Nézio
Imagem de destaque: Laura Brêtas
