Ana Julia Barbosa, Lívia Fernandes e Rafaela Andrade
Com olhos brilhantes e sorriso no rosto, a mineira carrega a arte não apenas nos seus quadros, mas em cada uma de suas histórias. Gal Fonseca, nascida e criada em São João del-Rei, irmã de seis, mãe de três filhos e hoje avó de três netos, é uma artista nata.

A reportagem encontrou com Gal, em dezembro, no Teatro Municipal de São João del-Rei, sede da oitava exposição dela. As obras foram encomendadas pelo Teatro e produzidas por ela: “eles falam que quando fecha o teatro, todinho, que não tem mais ninguém aqui, tem sempre uma bailarina dançando”, brinca.
Sua relação com a arte começou cedo. O avô é citado como o grande exemplo e inspiração na vida de Gal, um autodidata que, em meio a conversas, pegava um lápis e um papel e desenhava, de memória, o perfil das pessoas – fossem seus conhecidos ou figuras importantes. “Ele, do nada, desenhava Getúlio Vargas em pedaço de papel. Tinha uma facilidade na arte”. Rodeada de familiares que mantinham contato direto com a arte, como sua mãe que bordava, fazia crochê, tricô, entre outros, a menina desde cedo pendia para o desenho. “Minha mãe sempre bordou, então ela falava assim ‘eu quero um raminho’ eu desenhava o raminho, ela passava o tecido e bordava”. Hoje em dia, ela visita a mãe de 93 anos todos os dias. “Ela tá muito bem. Cabeça boa”.
Na escola, no ensino infantil, ela integrava uma banda tocando triângulo e também participava das aulas de teatro – o que a aproximava cada vez mais do universo artístico. Comenta à reportagem que já foi em shows de Gal Costa, Elba Ramalho e Zé Ramalho.
Apreço pela vida
Gal é uma pessoa extrovertida e que aprecia a vida. Cita amigos durante toda a entrevista, sempre com muita alegria e se mostrando grata a cada momento compartilhado com pessoas especiais. Também demonstra seu carinho e paixão por sua terra natal, mas comenta seu desapontamento com a falta de cuidado que os museus recebem, por falta de verba e outros fatores.
Com a chegada da vida adulta, se afastou um pouco da arte. Cursou Administração, casou, passou em um concurso do Ministério do Trabalho em Brasília. “Eu tinha um ano e dois meses de casada. Com neném de três meses. Ele foi criado em Brasília e minha caçula nasceu em Brasília”, narra.
Durante a entrevista, ela ainda menciona os museus visitados na capital federal. “Os museus de Brasília são as coisas mais lindas que tem, mas é tudo muito moderno”. Para a pessoa observadora e sensível que Gal é, a arte nunca se distancia.

Quando voltou para São João del-Rei, com seus trinta e poucos anos, fez vestibular e passou para Filosofia. Sempre em movimento. Durante a pandemia também não foi diferente. Apesar do momento de grande tristeza e dificuldade mundial, se encontrou nas aulas de pintura da professora Eliane Pasquetti. Foram esses cursos que reacenderam a paixão pela arte e a possibilidade de voltar a fazer o que, desde a infância, sempre esteve presente em sua vida.
Para uma grande curiosa e adaptável, as tecnologias não a assustariam. “Hoje você pode fotografar uma flor, ampliar, mandar imprimir, deixar lá e pintar quando você quiser. Tem essa facilidade”. O que não significa que não enfrenta dificuldades. “Até hoje é difícil. Porque de hoje para amanhã já muda tudo. Já muda tudo. Então eu tenho muita dificuldade”.
“Olha que eu tô com 70 anos e aprendendo todo dia”
Gal ama viver e ver. Pinta o belo, não gosta de pintar o que não considera bonito, algo trágico. Gosta de assistir séries, quando menciona “This is Us”. “Uma paixão! Já vi todinha também, eu acho que é a minha favorita”, o que não surpreende já que o enredo da obra é a vida de uma família de três irmãos adotivos e seus pais, uma família e suas vivências.
Pensando no futuro, comenta algumas técnicas que gostaria de aprender: “grafite eu ainda não fiz, o nanquim também é muito bonito. Outro também que ainda não fiz e que eu quero fazer é um giz pastel, é lindo!”.
Ela está querendo se aposentar das exposições, já diz que dá muito trabalho apesar de ser prazeroso. Ao mesmo tempo comenta sobre um convite que recebeu. “Já estou convidada para a Semana Santa também”, mas admite que acredita que seja a última porque já está cansada.
Edição: Arthur Raposo Gomes
Suporte: Bruno Nézio
Imagem de destaque: Lívia Fernandes
