DO LAVA-PÉS AS CONGADAS: DONA NEUSA É UM PILAR DA HISTÓRIA SÃO-JOANENSE

Ana Luiza Fagundes e Késsia Carolaine

Almezinda Maria da Fonseca Abreu nasceu em Dores dos Campos, mas ainda criança se mudou com os pais e os 11 irmãos em busca de uma vida melhor em São João del-Rei. A família se estabeleceu na comunidade do São Dimas onde residem até hoje. Na década de 50/60, a cidade se equiparava a um vilarejo e o bairro também estava em desenvolvimento: “até hoje aqui é conhecido como ‘Lava Pés’, nossas ‘conta’ vem com esse nome, poucos sabem que é porque aqui era chão de terra, com casas de barro e lamparina, não tínhamos água então todos os dias descíamos com os baldes na cabeça onde é hoje o Instituto Auxiliadora, nem era asfalto era calçamento, lá lavamos os pés e molhavamos um pano para limpar quando chegasse em casa”, recorda Almezinda, aos risos sentada em um sofá rodeado de santos pelo cômodo.

Antes da chegada da adolescência, se viu incomodada com seu nome e chegou a questionar o pai, senhor Geraldo, da escolha. Escutou como resposta que o nome é em homenagem ao nome de sua avó, conhecida por ser uma mulher doce, amável e caridosa, qualidades passadas para a neta. Aos 11 anos, após ver um caminhão com o escrito “Neusa” gostou do nome, e decretou para todos que a partir dali era como queria seria chamada e assim aconteceu: seu pai não relutou, e até o dia da sua morte a chamava de Neusinha.

Para ajudar a família, começou a trabalhar aos 14 anos na Fábrica Brasil – uma fábrica de tecidos que permaneceu até o seu fechamento. Avaliada de maneira positiva em seu trabalho, foi para a Santanense aos 18 anos, onde também ficou até o final das operações da empresa. Seu último trabalho antes da aposentadoria foi na rede de supermercados “Monte Rey”. No meio das obrigações em casa e com o trabalho ainda saia com as amigas, o passatempo favorito além das brincadeiras eram as barraquinhas das igrejas.

Neusa conheceu seu atual marido, Sebastião, em uma festa que sua vizinha organizou. Em um certo momento, ela o viu em uma sala onde ele estava rodeado de mulheres. Assim que a viu, a cumprimentou e a seguiu para a cozinha, onde Neusa conversava com algumas primas e amigas. Assim que se casaram, a casa em que os dois moram, foi construída com a ajuda dos vizinhos, que naquela época, era uma ação muito comum nas comunidades, todo o bairro do São Dimas foi construído assim. Além disso, desse casamento, nasceram seus dois filhos, Thiago e Tadeu.

Dona Neusa durante a entrevista. (Foto: Ana Luiza Fagundes)

No decorrer da entrevista, Neusa menciona o pai diversas vezes e sempre com amor e respeito, sempre deixando que o respeito entre ambos era recíproco. Desde criança, ela se recorda de seu pai alimentando os congadeiros de São João del-Rei e da região. Ela ainda continua com a tradição de alimentar os congadeiros. Neusa conta que, por esse motivo, não sabe cozinhar em panelas pequenas, tendo também um apreço por alimentar qualquer pessoa que vá à sua casa. Além disso, ela distribui doces para as crianças no “Dia de São Cosme e Damião”. Ela relata que faz essa distribuição desde que seu filho mais velho, Thiago, tinha sete anos.

Toda vez que menciona seus filhos, Neusa sempre fala deles com orgulho. Sendo uma das irmãs mais velhas de 11 irmãos, parece ser natural para ela cuidar das pessoas. Ela menciona em diversos momentos o carinho que sente pelas pessoas que cruzam a porta de sua casa, seja apenas uma vez ou aquelas que frequentam sua casa. Atualmente, Neusa cuida de seu marido, que há poucos meses, fraturou o fêmur. Mesmo com as adversidades, ainda há muita cumplicidade entre os dois e, talvez, isso possa explicar os quarenta e dois anos de casamento. 

A culinária é uma forma de demonstrar amor e eternizar momentos, em suas enormes panelas ela cozinha para congadeiros e pessoas que vêm apreciar o espetáculo, não somente em São João, mas em diversas cidades das Vertentes e até da Bahia. Em sua casa, as paredes são provas vivas dessas passagens que marcaram e ainda marcam a vida de Neusa.

Filha, esposa, mãe e avó, Dona Neusa é a síntese do amor, da compaixão e da dedicação à sua comunidade, mantendo vivo o legado deixado por seu pai.

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Edição: Arthur Raposo Gomes

Suporte: Bruno Nézio

Imagem de destaque: Dona Neusa mostrando algumas fotos / Foto: Késsia Carolaine

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