É PRECISO PACIÊNCIA E PERSISTÊNCIA PARA CONSTRUIR A DEMOCRACIA, AFIRMA SÁLVIO PENNA

Sarah Resende

Com uma vida marcada pelo engajamento político e a luta pela liberdade de expressão, Sávio Humberto Penna é um dos sobreviventes da Ditadura Militar Brasileira. Hoje com mais de 80 anos, reverbera com garra os ideais cultivados em uma trajetória na busca da representatividade política.

Infância e adolescência

A infância foi vivida em Sabará, Minas Gerais, em uma casa humilde, mas marcada por um ambiente que incentivava o aprendizado e a solidariedade. O pai trabalhava como pedreiro, cuidador de uma chácara, o que ajudava a suprir as necessidades básicas da família. A mãe, dona de casa e responsável por uma casa espírita, coordenava ações de caridade que apresentaram para Sálvio, desde cedo, a realidade da desigualdade social. Uma das ações realizadas pela mãe era a campanhas do quilo, uma iniciativa para arrecadar mantimentos para famílias necessitadas.

“Essa relação com o que a minha mãe fazia foi muito importante para que eu pudesse conhecer a pobreza cedo na adolescência. Não que a gente não fosse pobre, mas tinha gente muito mais pobre. (…) Me veio logo essa pergunta: por que essa desigualdade? Por que tem gente rica e por que tem gente pobre?”, relata Sálvio.

O primeiro contato com a educação formal ocorreu ali mesmo em Sabará. A cidade, com seus cerca de 15 a 20 mil habitantes à época, oferecia poucas opções de ensino. Aos 16 ou 17 anos, conseguiu convencer os pais a permitirem que continuasse os estudos em Belo Horizonte, algo incomum para os filhos trabalhadores da época. Sálvio foi morar com uma tia para frequentar a Escola Técnica, atual Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet).

Na Escola Técnica, não apenas aprendeu uma profissão – formou-se torneiro mecânico – mas também deu os primeiros passos na militância política. A escola, que fornecia uniformes e materiais para os alunos, era um ambiente fértil para o desenvolvimento de ideais de igualdade e justiça social. Foi lá que, antes mesmo do golpe militar, Sálvio se envolveu com a organização de movimentos populares. Este foi um marco decisivo, não apenas por expandir os horizontes educacionais e culturais, mas também por plantar as sementes do ativismo que marcariam toda a sua vida.

Vida Adulta: Ditadura Militar e Prisão

O período da ditadura militar foi marcado por intensas perseguições e sofrimento. Envolvido na organização Ação Popular Marxista-Leninista (APML), suas atividades políticas chamaram a atenção da repressão. Em 1971, ele e sua esposa, Ana Lúcia, foram presos em Contagem, Minas Gerais, em um dos episódios mais brutais de suas vidas.

(Foto: arquivo pessoal)

No dia da prisão, Ana Lúcia estava em condições extremamente frágeis. Havia dado à luz seu primeiro filho, Rodrigo, apenas cinco dias antes, em um parto complicado que exigiu o uso de fórceps. Durante a cirurgia, Ana recebeu 33 pontos internos e externos. Ainda em recuperação, mal podia se mover, necessitando de repouso absoluto. Quando a repressão invadiu a casa pela manhã, Rodrigo chorava em seu berço enquanto Ana, debilitada, foi levada pelos agentes.

Torturas e condições desumanas

Enquanto Ana e Rodrigo foram encaminhados ao Hospital Militar em Belo Horizonte, Sálvio foi levado ao DOI-CODI, uma das mais notórias instalações de repressão da época. Durante 45 dias consecutivos, foi submetido a torturas físicas e psicológicas. As sessões incluíam choques elétricos, palmatória, queimaduras de cigarro, golpes enquanto estava suspenso no pau de arara, e até ataques diretos a partes íntimas do corpo.

As celas, localizadas no subsolo, eram insalubres, sem privadas ou itens básicos de higiene. Passou 12 dias sem banho, vivendo como um “animal”, como descreveu, comendo com as mãos ou com uma colher improvisada feita por um carcereiro mais solidário. As torturas não se limitavam à dor física: informaram-lhe falsamente que Ana Lúcia havia morrido devido às complicações pós-parto, abalada pela prisão e pela tortura.

Além das agressões diretas, sofreu humilhações constantes. Ficou meses com feridas não cicatrizadas devido às queimaduras e a uma grave infecção em partes íntimas causada pelas torturas.

Impacto na família

Ana Lúcia, ainda debilitada, foi mantida presa por seis meses. Rodrigo, mesmo recém-nascido, enfrentou a precariedade da prisão junto à mãe. Após sua soltura, ele foi transferido para uma penitenciária em Juiz de Fora, onde as torturas físicas cessaram, mas as humilhações e torturas psicológicas continuaram. As visitas familiares eram cercadas de constrangimento, com revistas invasivas que exigiam que seus pais, idosos, ficassem completamente nus.

Resiliência e solidariedade

Apesar das adversidades, ele encontrou formas de resistir dentro da prisão. Participou da criação de grupos de estudo clandestinos, improvisou atividades esportivas e ajudou a organizar um coletivo para dividir recursos entre os presos, muitos dos quais não recebiam visitas. Essa rede solidária ajudava a comprar remédios e alimentos para aqueles em maior necessidade.

Ele foi libertado apenas em 1973, após dois anos de prisão, mas as marcas físicas e emocionais daquele período permaneceram. Mesmo assim, voltou à militância, participando da luta pela anistia e pela fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), sempre com o ideal de transformar a sociedade em um lugar mais justo.

Após ser libertado em 1973, Sálvio retomou sua militância em prol da democracia. Engajou-se na luta pela anistia, atuando como vice-presidente do Comitê Brasileiro pela Anistia em Minas Gerais, organizando apoio a presos políticos e suas famílias. Voltou a trabalhar no movimento sindical, fortalecendo a resistência operária e participando da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), onde foi fundamental na criação de diretórios em Minas Gerais.

Em 1983, chegou a se candidatar, sem sucesso, a deputado estadual pelo PT. Continuou atuando em Contagem, organizando movimentos comunitários e criando jornais populares que ampliavam a conscientização política.

Vinda para São João del-Rei

A chegada a São João del Rei, em 1988, marcou o início de uma nova fase, tanto na vida pessoal quanto na trajetória política. A mudança ocorreu devido à pesquisa acadêmica de sua segunda esposa, Tereza, no distrito do Bichinho.

Embora inicialmente tenha sido motivada por questões familiares, a permanência em São João foi consolidada por oportunidades de trabalho e pela paixão pela vida política local. Sálvio encontrou no município um espaço para continuar lutando por mudanças sociais, ajudando a estruturar projetos que ainda ecoam na história da cidade.

Pouco tempo após se estabelecer em São João del Rei, foi convidado por Antônio Fuzzato, então um jovem vereador em seu primeiro mandato, para ser assessor. A parceria marcou uma fase de intenso ativismo político. Trabalhando ao lado de Fuzzato, Sálvio ajudou a organizar movimentos comunitários, mobilizar moradores para lutas sociais e fortalecer a atuação do vereador na Câmara Municipal.

Juntos, participaram de embates históricos, como a redução do aumento das tarifas do transporte público interno, decretado pelo então prefeito. Essas vitórias ajudaram a solidificar a imagem de Fuzzato como um líder local e pavimentaram sua trajetória até o cargo de deputado estadual. Ele o acompanhou em Belo Horizonte durante o mandato na Assembleia Legislativa, onde continuou contribuindo com articulações e estratégias políticas. Hoje Fuzatto voltou a residir no município do Campo das Vertentes, sendo dirigente da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC).

Posteriormente, Sálvio voltou para São João del Rei, onde se envolveu com a campanha de Lívia Guimarães, uma jovem promissora no cenário político local. Foi responsável por planejar suas primeiras candidaturas, nas quais desenvolveu estratégias para alcançar o eleitorado.

Embora sua primeira tentativa tenha resultado em derrota, as campanhas seguintes foram um sucesso. Lívia venceu as eleições subsequentes e permaneceu no cenário político por doze anos, com ele sendo uma figura essencial em sua equipe. Após três mandatos consecutivos na Câmara Municipal, em 2024, Lívia foi candidata a prefeita de São João del-Rei, obtendo quase 15% de apoio do eleitorado: não foi eleita, mas conquistou a maior porcentagem de votos que o PT obteve na cidade nos pleitos recentes.

Sálvio esteve ao lado de Lívia em todas as campanhas eleitorais em que ela concorreu (Foto: reprodução / rede social)

Além das campanhas, Sálvio participou ativamente do mandato, ajudando a implementar políticas voltadas para o bem-estar da população e o fortalecimento da cidade. Com uma longa trajetória em lutas sociais, colaborou para a consolidação o impacto político de Lívia, que ganhou reconhecimento por seu trabalho junto à comunidade.

Mesmo em um momento de grandes adversidades no cenário político, com o crescimento da extrema direita e dos discursos conservadores, Sálvio mantém uma postura esperançosa. 

“Eu vejo a construção da democracia como uma colcha de retalhos. É preciso paciência, persistência e a coragem de voltar atrás e refazer quando algo dá errado. Não é fácil, mas é um trabalho coletivo. Cada ponto costurado representa um passo na direção de um país mais justo e solidário”, reflete Sálvio durante entrevista, ocorrida em dezembro, na Câmara Municipal de São João del-Rei.

Com décadas da vida dedicada à política, Sálvio é considerado uma referência no campo da esquerda de São João del-Rei
(Foto: Sarah Resende)


Imagem de destaque: Sarah Resende

Edição: Arthur Raposo Gomes

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