“QUEREMOS FORTALECER O SENTIMENTO DE PERTENCIMENTO”, AFIRMA PRÓXIMO SECRETÁRIO DE CULTURA E TURISMO DE SÃO JOÃO DEL-REI

Amanda Vitória, Gabriela Bastos e Lívia Moreira

“Capital Brasileira da Cultura”: esse foi o título que São João del-Rei obteve após eleição ocorrida em 2007. Alcunhada popularmente como “a cidade onde os sinos falam”, o município tem um potencial cultural e turístico reconhecido. Para entender quais são os planos para os próximos anos nessa área, a reportagem entrevista o advogado Caio Andrade, anunciado como o secretário de Cultura e Turismo da próxima administração municipal.

Caio tem 28 anos, é advogado e pós-graduado em Gestão e Administração Pública. No setor público, já foi procurador-geral e presidente do Conselho Municipal de Patrimônio na cidade de Lagoa Dourada, localizada a cerca de 37km de São João del-Rei.

Sua próxima atuação, enquanto responsável pela pasta municipal de Cultura e Turismo em território são-joanense veio, conforme ele conta, a partir de convite feito pelo prefeito eleito em outubro deste ano, o empresário Aurélio Suenes (PL).

“Nós tivemos juntos na campanha em assuntos partidário, mas, acima de tudo, o Aurélio escolheu pessoas técnicas. Nós temos compromissos técnicos em assumir essas pastas, para poder trazer essa esperança que as pessoas confiam em um governo melhor, em uma cidade melhor”, afirma o advogado, também presidente do diretório local do PSDB, que compôs a coligação de Aurélio durante a disputa eleitoral recente.

Confira a entrevista exclusiva!

Notícias del-Rei (NDR): Como foi sua trajetória até aqui?

Caio: Só para contextualizar, eu tenho 28 anos, sou advogado e pós-graduado em Gestão e Administração Pública. Também tenho especializações em áreas mais específicas do Direito Privado. Sempre tive contato com a cultura desde que nasci. Minha família sempre esteve muito envolvida em manifestações culturais e isso moldou minha trajetória.

Cresci no seio da igreja, participando de eventos relacionados à cultura e ao turismo religioso. Fui também muito envolvido com o carnaval, chegando a ser presidente da Escola de Samba Vem me Ver, do bairro Tijuco. Na infância, com meus amigos, criamos uma escola de samba chamada Só de Criança, na rua Santo Antônio. Além disso, participei durante anos de iniciativas culturais, como os tapetes de rua e outros projetos. Essas experiências me mantiveram sempre próximo aos movimentos culturais – tanto os sagrados, quanto os profanos.

NDR: Como surgiu o convite para você ser o secretário de Cultura e Turismo?

Caio: Por sempre estar envolvido com a cultura e por ter adquirido um bom conhecimento sobre nossa cultura imaterial e patrimonial, além do turismo, recebi esse convite do prefeito (eleito) Aurélio. Trabalhamos juntos em algumas campanhas e projetos partidários, mas acredito que ele buscou pessoas técnicas para liderar essas pastas.

Nosso objetivo é trazer esperança para as pessoas, mostrar que um governo técnico pode transformar a cidade. Na cultura e no turismo, queremos fortalecer o sentimento de pertencimento. Queremos que as pessoas digam: “Nossa, a cidade está bonita! Está cheia de turistas! Olha o que São João está promovendo agora!”.


Eu vivi o turismo e a cultura como participante e promotor. Agora, tenho a oportunidade de atuar do lado de cá, enquanto alguém que pode transformar. É um desafio, mas é também uma missão que abraço com muita humildade e dedicação.

NDR: Vocês vão assumir a prefeitura em janeiro de 2025 e logo após já vem o carnaval. Como está sendo a organização e como vocês vão garantir um bom trabalho para esse evento?

Caio: Quanto à parte de administração, começamos uma série de reuniões e organizações desde o início. Nosso objetivo é descentralizar o carnaval. A ideia é levar a festa para as periferias e bairros da cidade, para que o carnaval não fique apenas no centro. Já tivemos encontros com a AESBRA (Associação das Escolas de Samba, Blocos e Ranchos), estamos estruturando tudo com muito trabalho.

O carnaval será cultural, com um foco em samba, marchinha, pagode e no máximo um axé. Não vamos permitir outros estilos musicais, como funk ou rock, na festa. O carnaval de São João vai ter uma logomarca própria, e será um carnaval cultural, “Do Solar dos Sinos ao Rufar dos Tambores”, com a essência de ser são-joanense. Vamos trabalhar essa dualidade barroca, entre o sagrado e o profano.

NDR: E sobre as escolas de samba, sabemos que na gestão atual houve problemas orçamentários, com algumas escolas não conseguindo desfilar. Como está sendo o apoio para as escolas?

Caio: Estamos dando toda a estrutura necessária para que as escolas de samba consigam sair no próximo carnaval. Já estamos trabalhando com isso, como mencionei. Está com um projeto artístico maravilhoso. Além disso, o carnaval vai passar por algumas melhorias, como readequação da avenida para o desfile e decoração da cidade com “espaços instagramáveis”.

Nós também faremos ajustes nos blocos. Alguns que não representam a tradição carnavalesca serão cortados, pois não podemos permitir que a festa pública seja usada para fins privados, especialmente com dinheiro público. O carnaval vai ser uma festa organizada, com estrutura de qualidade para receber todos.

NDR: O que mais podemos esperar de novidades para o carnaval?

Caio: Uma das grandes novidades é que a abertura do carnaval será antecipada. A cerimônia vai acontecer no sábado de Bandalheira. Quando o Bandalheira passar por São Francisco, o prefeito municipal entregará a chave para o Rei Momo, a Rainha de Carnaval e todos os envolvidos. A escolha da Rainha de Carnaval será no dia 14 de fevereiro, durante o evento “Gastronomia e Samba” no Largo do Rosário, com três dias de festa.

E, se tudo correr bem, vamos trazer uma surpresa especial do Rio de Janeiro para o evento. Estou bastante animado com tudo o que estamos preparando.

NDR: Você foi presidente do Gres Vem Me Ver, e a gente queria saber se você pretende continuar com ela ou se vai se desvincular da escola.

Caio: O projeto artístico que a Vem Me Ver vai levar para a avenida é meu. As fantasias são minhas, os desenhos são meus, até os carros são desenhados por mim. A escola está praticamente pronta em 80% da parte de fantasia, e a Ilha já está organizada para o próximo ano. A escola vai estar muito bonita, e as pessoas podem acreditar nisso, pois o trabalho começou em abril deste ano. O que estamos preparando é algo que já foi trabalhado muito antes de qualquer ideia de gestão cultural.

Eu não posso continuar, infelizmente. Eu deixei de ser presidente da escola. A minha despedida foi no dia 14 de novembro agora, quando a escola fez o lançamento do samba enredo para o carnaval do ano que vem. Eles me pegaram de surpresa e me entregaram uma placa, me homenageando pelo que fiz para a escola. Mesmo não estando mais nela, meu coração não vai deixar de ser verde e branco, não vai deixar de ser do Tijuco. Eu amo aquele bairro, tenho muito orgulho de lá, principalmente de tudo que conseguimos fazer em termos de comunidade, com reflexos para a comunidade. Para o Tijuco, isso é muito importante para mim também.

Mas agora, assumi o desafio de estar à frente da Secretaria de Cultura, e por isso não posso mais estar em uma escola ou entidade que recebe recursos públicos. Não estou apenas na Secretaria de Cultura, também participo de outras duas entidades, então preciso ser imparcial. Com isso, estou me desvinculando também das creches das quais fazia parte da diretoria e do Conselho Fiscal, especialmente as do Tijuco, porque não posso mais estar vinculado a nada que receba recursos públicos.

Agora, minha responsabilidade é cuidar do carnaval de forma geral, não só da minha escola do coração. Tenho um compromisso com todas as agremiações, e vou atuar de maneira imparcial.

Sendo secretário, jamais usaria meu cargo em benefício próprio ou para beneficiar a escola. Acredito que faria mal para a saúde do carnaval. O meu objetivo é que as seis escolas estejam bem, fortes e bonitas. E, no que depender de mim, farei tudo o que for possível para fomentar isso.

NDR: Não tem como falar de Carnaval e não pensar na Semana Santa. O que está sendo feito em termos de estrutura para receber esse público? Considerando que um Carnaval bem-sucedido aumenta as expectativas para a Semana Santa, quais melhorias e atualizações estão sendo planejadas?

Caio: A organização da Semana Santa já começou. Dividimos a Secretaria de Cultura para que uma parte da equipe trabalhe no Carnaval e outra se dedique exclusivamente à Semana Santa. Isso é importante, pois, sendo uma celebração litúrgica, temos limitações nas interferências diretas. Na parte religiosa, seguimos totalmente as orientações da Igreja.

Mas, para o próximo ano, trago em primeira mão para vocês que teremos uma Semana Santa cultural. Ela será repleta de atividades desde o Sábado de Ramos, passando pelo Domingo de Ramos e indo até o Domingo de Páscoa. Estão sendo planejados eventos como exposições sacras, inaugurações, apresentações culturais com orquestras e outras manifestações relacionadas à cultura sacra, religiosa e católica, que criam o clima dessa celebração.

Também expandiremos os tradicionais tapetes de rua e implementaremos uma decoração especial para a cidade durante esse período. Outro ponto é a transmissão ao vivo pela TV Aparecida, que antes era feita pela Igreja. Como a Igreja está sem condições de arcar com isso, a Prefeitura assumirá essa responsabilidade.

Paralelamente, estamos avançando com outros projetos estruturais, como a reformulação da iluminação do centro histórico, substituindo as lâmpadas por iluminação branco-quente. Também vamos reutilizar um projeto de lixeiras de aço, com design rústico, que já foi aprovado em São João.

Na área de segurança, estamos desenvolvendo um projeto chamado “Dinheiro do Patrimônio”, que prevê a instalação de câmeras de segurança nos ambientes históricos e patrimoniais para protegê-los. Além disso, ampliaremos a parceria com a Guarda Municipal e a Polícia Militar para reforçar a segurança pública.

Por fim, estamos em diálogo com a empresa de ônibus para expandir as linhas durante a Semana Santa, facilitando o acesso das pessoas aos eventos e ao centro histórico. Tudo isso está sendo preparado com muito carinho para receber bem tanto os turistas quanto os moradores.

NDR: O catolicismo é uma religião bem presente em São João del-Rei, e a gente queria saber como você está manejando para promover a inclusão das demais religiões na cidade.

Caio: Eu sempre tive um trânsito muito bom com as demais religiões. Apesar de eu ser católico declarado e participar dos movimentos da Igreja, eu sempre tive – e acredito que Deus me deu – essa visão sobre a importância da fé na vida das pessoas. A fé transforma vidas, independentemente de qual seja a crença. Se ela transforma alguém em uma pessoa melhor, isso já eleva o ser humano para além do comum.

Na Prefeitura, vivemos em um estado laico, onde não temos vínculos com crenças religiosas específicas. Mas sempre nos envolvemos com manifestações que fazem parte da cultura e do turismo da cidade. Isso inclui festas de matriz africana, Carnaval e outros eventos culturais que retratam nossa diversidade.

Eu procuro participar ativamente, sempre mantendo um diálogo próximo com as pessoas. Além disso, estudo e pesquiso bastante sobre as culturas de matriz africana, porque gosto desse conhecimento e dessa interação. Toda vez que houver um engajamento cultural e turístico, esse movimento sempre terá o apoio da Prefeitura, pois ele faz parte do retrato cultural de São João.

NDR: Percebemos na cidade um certo distanciamento entre os órgãos públicos e a universidade. Isso seria algo relacionado à atuação do secretário, de algum setor específico ou do prefeito? Existe algum planejamento para fortalecer essa conexão?

Caio: Eu acredito que a UFSJ é um patrimônio de São João del-Rei e deve ser tratada como uma parceira da cidade. Não há nenhum projeto ou parceria com a UFSJ que eu não tenha a intenção de apoiar. Inclusive, já conversei com o prefeito e ele autorizou que a gente passe a Lei do Estagiário na Câmara. Com essa iniciativa, poderemos implementar a bolsa remunerada em diversas áreas da cidade.

Eu tive uma experiência muito positiva com esse modelo enquanto atuava como procurador em outro município. Foi uma oportunidade incrível de integrar estudantes no mercado de trabalho, conciliando aprendizado e prática profissional. Isso não só ajuda na formação, mas também qualifica a mão de obra disponível na cidade.

Além disso, quero alinhar outras ações importantes, como o retorno e a integração da UFSJ ao Inverno Cultural. Esse evento precisa ser revitalizado, com a prefeitura e a universidade trabalhando juntas. A UFSJ tem áreas incríveis, como artes aplicadas, teatro e meio ambiente, que podem ser amplamente aproveitadas em projetos em parceria com o município. Há muito potencial para que a cidade e a universidade colaborem de forma produtiva.

NDR: Quais são os desafios para incluir São João del-Rei como um destino histórico relevante, capaz de atrair e reter turistas, ao invés de apenas servir como passagem para quem visita Tiradentes e os outros locais da região?

Caio: Olha, são muitos pontos a serem considerados. Primeiro, é algo que sempre temos que destacar: precisamos trabalhar o turismo de permanência, não o de passagem. Atualmente, ainda temos muito turismo de passagem em São João del-Rei. Para transformar isso, precisamos estabelecer algumas condições básicas.

Primeiro, mobilidade e transporte. O turista chega em São João e se pergunta: existem linhas de ônibus conectando bem a cidade? Há serviços regulares partindo de São Paulo, Belo Horizonte ou Rio de Janeiro? As rodovias estão em boas condições? E dentro da cidade, como está o transporte público, a oferta de táxis ou serviços de aplicativos de mobilidade?

Depois, segurança pública. O turista precisa se sentir seguro para explorar a cidade. Também é fundamental investir em limpeza, iluminação e atrativos turísticos. As igrejas e os museus, por exemplo, precisam estar abertos e acessíveis. Um centro de apoio ao turista também é essencial para fornecer informações claras e organizadas sobre os pontos turísticos e serviços da cidade. Queremos implementar isso o quanto antes.

Outro ponto importante é trabalhar para que a cidade esteja organizada e pronta para receber visitantes. Como dizemos: “Arrume a casa que as visitas vêm”. Essa é uma responsabilidade da administração municipal, e pretendemos começar a estruturá-la em janeiro.

Também pensamos em iniciativas como a criação de um passaporte turístico de São João del-Rei, com carimbos para diferentes atrativos da cidade. Isso incentiva os turistas a explorar mais, além do básico, e descobrir a riqueza histórica e cultural que temos aqui.

Após garantir essa base, entramos na segunda etapa: Divulgação. Isso envolve promover São João del-Rei em programas de mídia nacional, participar de feiras de turismo e criar uma presença forte em redes de networking do setor. Essa projeção é crucial para atrair um público mais amplo e qualificado.

Por fim, o objetivo é transformar São João del-Rei em um destino completo, que ofereça todos os itens básicos para o turismo de qualidade. Assim, conseguimos segurar os visitantes por mais tempo, gerando uma economia limpa, aquecendo o mercado local e trazendo renda para as famílias são-joanenses. É um trabalho longo, mas fundamental para desenvolver o turismo de permanência na nossa cidade.


Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: reprodução / rede social

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