PESQUISADOR ANALISA OS RESULTADOS DAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2024 NO CAMPO DAS VERTENTES E APONTA O CRESCIMENTO DAS FORÇAS DE DIREITA NA REGIÃO

Juliana Russano e Raila Biaggio

Os resultados das eleições municipais de 2024 confirmaram uma situação semelhante ao pleito de 2020, quando os partidos do Centrão conseguiram maior número de vitórias em relação às prefeituras. Este ano, o PSD, de Gilberto Kassab, foi o que mais conquistou municípios – 887, seguido MDB com 853 e do PP com 747. As siglas compõem este bloco suprapartidário, que se tornou conhecido pela política do fisiologismo, e por serem o fiel da balança nas disputas no Congresso, hoje tem uma bancada de mais de 250 deputados. Na disputa entre direita versus esquerda, o PL de Bolsonaro se saiu melhor, com 516 prefeituras, contra 252 do PT de Lula.

Ao trazer para o contexto regional, no caso das cidades do Campo das Vertentes, em Minas Gerais, a direita e centro-direita conquistaram a maior parte das prefeituras. O recém-criado Partido da Renovação Democrática (PRD), que tem em seus quadros o deputado Dr. Frederico, surgiu da fusão de Patriotas e PTB em 2022. Lançou candidatos em quase todas as cidades da microrregião e conquistou oito das 15 cidades – Madre de Deus de Minas, Nazareno, Piedade do Rio Grande, Prados, Ritápolis, Santa Cruz de Minas, Santana do Garambéu, São Tiago. Em São João del-Rei, a cidade polo da microrregião, com 90 mil habitantes, elegeu Aurélio Suenes (PL), apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), derrotando a candidata Jânia Costa (PRD), ligada a Dr. Frederico, o que mostra uma divisão dos grupos de direita na cidade.

O resultado destas eleições municipais nas cidades do Campo das Vertentes, em Minas Gerais, consolidou uma orientação política inclinada à direita, com pautas que mesclam valores tradicionais, como religião e família, a uma abordagem neoliberal voltada à liberdade econômica. O movimento neoconservador nas Vertentes não é um movimento isolado, mas parte de uma tendência que se consolida no Brasil desde 2018, quando a direita radical se fortalece com seu discurso em torno de pautas como “Deus, Pátria e Família”.

Em cidades da região, como Tiradentes, São João del-Rei, Resende Costa, entre outras, essa narrativa vai ao encontro de uma cultura historicamente tradicionalista. Fernando Resende Chaves, doutor em Comunicação pela UNIP e vereador de Resende Costa, destaca que “o conservadorismo na região está muito ligado à cultura local, onde as questões religiosas, familiares e a valorização dos princípios tradicionais sempre tiveram um peso significativo. A ascensão de líderes de direita não é uma novidade, mas sim uma continuidade de uma narrativa que se encontra eco em muitas das cidades das Vertentes”.

Esse viés conservador e de direita não é algo recente, já que a história política da região remonta a figuras importantes da política mineira, como Tancredo Neves e Aécio Neves, que sempre tiveram uma forte base de apoio nas cidades do Campo das Vertentes e são naturais de São João del-Rei. Tancredo, em particular, foi uma figura central no processo de redemocratização do Brasil, sendo considerado pelos seus pares como um símbolo de um centro político conservador. Já Aécio, seu neto, carregou essa herança política para a nova geração, com um discurso que mesclava a defesa da liberdade econômica com os valores conservadores, consolidando-se como uma liderança em Minas Gerais.

“A continuidade da influência da família Neves na política regional é um reflexo do vínculo da região com um conservadorismo de longa data, que valoriza a estabilidade política e a defesa dos princípios familiares e religiosos”, comenta o pesquisador.

A nova direita e a juventude: a influência da mobilização digital

Fernando Resende ressalta a conexão crescente entre os jovens e a nova direita, especialmente nas cidades do Campo das Vertentes, onde a juventude tem se aproximado dessas pautas conservadoras de maneira cada vez mais ativa. “A ascensão da direita entre os jovens não é apenas fruto do desencanto com a esquerda, mas de um trabalho intenso de mobilização digital. Influenciadores como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) têm papel central nesse processo, especialmente em cidades menores, onde o acesso à internet ainda está se expandindo”, explica o entrevistado.

De fato, a dinâmica digital tem desempenhado um papel fundamental na construção da nova direita, com suas mensagens frequentemente sendo transmitidas por meio de plataformas como Instagram, Twitter e YouTube. O uso estratégico das redes sociais permite que os políticos de direita alcancem um público jovem, utilizando memes, vídeos curtos e discursos diretos, algo que ressoa de forma particular com a geração Z. Fernando observa que, ao combinarem pautas de costumes com liberdade econômica, os candidatos de direita criam uma narrativa que dialoga com diferentes gerações: “esses políticos conseguem ressignificar discursos conservadores, apresentando-os como uma ruptura com a velha política”, completa ele.

Essa nova frente da direita, ao contrário das formas mais tradicionais de conservadorismo, consegue adaptar suas mensagens para ressoar com os jovens, muitas vezes buscando um discurso de renovação política. Esse movimento foi mais transparente nas últimas eleições, como evidenciado nas vitórias de figuras como Aurélio Suenes (PL) em São João del-Rei, que mesclam temas de segurança pública, valores tradicionais e neoliberalismo econômico para se conectar com a juventude.

O papel das redes sociais na política local: entre engajamento e ideologia

Além da análise sobre o impacto cultural e político, a presença dos candidatos nas redes sociais merece uma atenção especial. As postagens feitas por Aurélio Suenes (PL), por exemplo, ilustram bem a estratégia de engajamento dos candidatos de direita da região. Seus posts são voltados para um público amplo, com temas que abordam desde a segurança pública até a valorização de princípios conservadores, sempre com uma estética alinhada à modernidade digital e uma linguagem que ressoa com os jovens, a geração Z, que cada vez mais se alia à nova direita.

Em São João del-Rei, por exemplo, Aurélio Suenes (PL) obteve um expressivo número de seguidores em sua conta no Instagram, alcançando 13.300 seguidores, o que representa uma revelação especial em uma cidade com pouco mais de 90 mil habitantes.

A reportagem analisou, através do site Hype Auditor – especialista em mensuração de métricas de redes sociais, a taxa de engajamento de Aurélio. O Instagram dele alcança a taxa 9,07%, uma porcentagem muito relevante e acima da média de muitos influenciadores. Esse número também é um indicativo de como a comunicação digital tem sido eficaz em alcançar e engajar os participantes.

Fernando Resende Chaves observa que o uso das redes sociais é, hoje, um elemento essencial para a construção de uma base sólida de apoio. “O uso das redes sociais na campanha eleitoral vai muito além da simples propaganda, elas se tornaram plataformas de construção de identidade política. Para a direita, as redes são uma ferramenta que ajudou a consolidar um discurso de valorização de valores familiares e um mercado mais livre, muito alinhado ao neoliberalismo”, comenta.

Entretanto, não é apenas a quantidade de seguidores ou a taxa de engajamento que importa. A análise qualitativa do conteúdo publicado também é relevante.

Em sua reta final de campanha, Aurélio, por exemplo, utilizou postagens com uma produção de imagem mais sofisticada, ao mesmo tempo que exibia suas propostas econômicas e de segurança, tentando unir uma tradição conservadora com um apelo mais moderno. Inclusive, um recurso que Aurélio utilizou muito nas redes foi de vídeos de 22 segundos apresentando propostas. A escolha do tempo do vídeo foi devido ao número do partido do candidato, também o número que o eleitor usaria para votar, conforme ilustrado na imagem abaixo.

Fonte: Instagram, @aureliosuenes, 12 de setembro de 2024.

Além de recursos de edição e produção de imagens, ele também utilizou recursos de humor e postagem de conteúdos virais, provavelmente buscando a aceitação de um eleitorado mais jovem. Foram verificsdos os vídeos postados por Aurélio e, entre os dias 05 de setembro e 06 de outubro, ele publicou 35 vídeos. Destes, sete eram em tom de humor.

A postagem feita pela então candidato em seu Instagram no dia 29 de setembro, onde ele faz uma brincadeira utilizando um óculos tipo Juliete – que é um acessório muito utilizado por jovens – e se coloca em uma trend (palavra em inglês para “tendência”, sendo caracterizada como um conteúdo que se torna popular nas redes sociais, sendo reproduzido por muitas pessoas) de POV (também em inglês, POV é uma sigla para Point Of View, ou ponto de vista) é um claro exemplo de sua estratégia, conforme ilustrado na imagem a seguir:

Fonte: Instagram, @aureliosuenes, 29 de setembro de 2024

Já outros candidatos, como Jânia Costa (PRD), por exemplo, sua principal adversária em São João del-Rei, apostaram mais em um discurso sério, focado em temas locais como saúde e educação, mas sem a mesma capacidade de influência. A candidata publicou 58 vídeos em seu Instagram entre 05 de setembro e 05 de outubro, sendo apenas três em tom de humor, mas sem sua imagem neles.

A influência da nova direita e o desafio da esquerda

A aparência da ascensão da direita na região das Vertentes não é apenas local, mas se reflete nas grandes tendências políticas do Brasil. A nova direita, com suas bandeiras de liberdade econômica e moralismo, conquistou as ruas e se consolidou como um movimento que agrega diferentes segmentos sociais, dos mais jovens aos mais conservadores. “A nova direita tem se aproveitado do contexto digital para espalhar suas ideias de forma rápida e eficaz. A comunicação política hoje é dinâmica e muito visual. A esquerda ainda tem dificuldades em dialogar com essas novas formas de comunicação”, conforme destaca o pesquisador.

A vitória de candidatos como Aurélio, em São João del-Rei, e Carlos Du (PSD), em Barbacena, ilustra um movimento de renovação no campo político, mesmo o último estando em um partido de centro-direita e não tendo, até então, declarado seu apoio direto à um lado político.

A união política de Carlos Du, junto ao seu forte engajamento nas redes sociais, reflete a dinâmica de poder local, em que a conexão entre a política tradicional e a nova direita se mistura, formando um discurso coerente que atrai tanto o eleitor mais conservador quanto ao eleitor que busca uma ruptura com as velhas práticas políticas.

Por outro lado, a esquerda enfrenta o desafio de se reinventar e recuperar a confiança da população local, algo que, segundo Fernando, vai passar pela “reconstrução de suas bases”, com foco na organização de sindicatos e movimentos sociais: “a esquerda perdeu a conexão com a base, que está sentindo falta de um discurso mais palpável, de uma política mais próxima das necessidades reais da população”, complementa.

Enquanto a direita tem sido capaz de articular um discurso mais amplo e eficaz nas redes sociais, a esquerda ainda busca se reconectar com a população e fortalecer sua presença nas cidades do interior.

Segundo análise a partir de dados do TSE, nas eleições de 2020, em cidades com mais de 200 mil habitantes, o PL ganhou apenas duas prefeituras no país, enquanto o PT, quatro. Já em 2024, os números subiram para 16 e seis cidades, respectivamente, conforme demonstrado no gráfico abaixo:

Fonte: TSE

A tendência para o futuro próximo será a forma como a esquerda vai se reconfigurar e se adaptar às novas demandas da política local, que envolvem desde o fortalecimento da base popular até a adaptação à era digital.

Desafios para a esquerda nas Vertentes

Em São João del-Rei, o domínio da direita nas eleições foi consolidado não apenas pela vitória de Aurélio Suenes, mas também pela eleição de 11 dos 13 vereadores da cidade, todos alinhados ao campo político da direita. Esse cenário reflete um movimento mais amplo nas cidades do Campo das Vertentes, onde a esquerda enfrenta dificuldades para reconquistar o apoio popular e se reinventar.

Para Fernando Resende Chaves, essa crise de identidade política da esquerda é um reflexo de uma crescente desconexão entre as lideranças de esquerda e os anseios da população local, especialmente no que diz respeito a valores tradicionais e questões culturais. “A esquerda tem se mostrado distante dos valores mais tradicionais, que são fundamentais para muitas dessas comunidades, e essa desconexão se reflete na falta de renovação e apelo junto ao eleitorado local”, observa Fernando.

Por outro lado, a direita tem se fortalecido justamente ao se conectar com essas demandas e expectativas da população, usando as redes sociais de forma estratégica para promover suas diretrizes. A ascensão de figuras jovens como Nikolas Ferreira e Bruno Engler exemplifica a eficácia da direita em atrair principalmente a juventude, um público cada vez mais ativo e presente nas plataformas digitais. A mensagem da nova direita, focada em valores de família, moralidade, segurança e crescimento econômico, ressoa fortemente com uma parcela significativa da população, que se sente representada por esse discurso.


Edição: Luiz Ademir de Oliveira e Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: reprodução / TSE

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