ELEIÇÕES 2024 EM TIRADENTES: SAIBA COMO FICA O FUTURO DA CIDADE E A NOVA CONFIGURAÇÃO POLÍTICA

Felipe Rocha e Rafael Alonso

No dia 6 de outubro de 2024, os tiradentinos foram às urnas para escolherem o próximo prefeito que irá administrar a cidade e também os nomes que estarão na Câmara Municipal. Atualmente, esse cargo é ocupado por Nilzio Barbosa, do MDB, que está em seu terceiro mandato, tendo vencido nas eleições de 2004, 2008 e 2020. Neste ano, Zé Antônio do Pacu (PSDB) foi eleito para um segundo mandato à frente da Prefeitura de Tiradentes com 2.421 votos (43,72% dos votos válidos) contra 1.515 (27,36%) de Rogerinho (PSD). Em terceiro, ficou Sidney Gonçalves (PL), com 1.238 votos (22,36%). Por último, Luiz da Farmácia (PT) teve apenas 363 votos (6,56%). Na Câmara, foram eleitos nove vereadores. Suelen Cruz (PT) foi a parlamentar mais votada, com 290 votos. A segunda mulher mais votada foi Luciana Venturini (Republicanos), da coligação do prefeito, reeleita com 267 votos.

O prefeito eleito Zé Antônio do Pacu comandará a cidade com seu vice João Marcos Guimarães. À reportagem, ele celebra a vitória e aponta seu sonho para Tiradentes: “minha meta é trazer de volta o serviço público de qualidade para todos os tiradentinos e as pessoas que nos visitam”.

Perguntado sobre como seu mandato atual se difere do anterior (2017 a 2020), ele responde que, além de reorganizar o trânsito, a prioridade é retomar os serviços públicos que iniciou na gestão passada, como o “bolsa-tiradentino”, projeto de transferência de renda para famílias em situação de vulnerabilidade e o “bolsa-atleta”, para incentivar as pessoas a praticarem modalidades de esportes nas cidades fora de Tiradentes. Ele não deixou claro, no entanto, de como estas bolsas se articulam a benefícios concedidos hoje pelo governo federal, como o “Bolsa Família”.

Sobre suas principais intenções, Zé Antônio detalha: “voltar a cuidar da cidade na área da limpeza, como era no passado. E a principal meta minha: transformar a casa de saúde que eu deixei como casa de saúde em um ‘mini hospital’ para dar qualidade de vida melhor às pessoas que moram aqui”.

De acordo com uma pesquisa da Agência Minas Gerais em 2023, Tiradentes recebe 280 mil turistas por ano, que vêm conhecer seu centro histórico e participar de eventos artísticos, culturais e gastronômicos. Sendo assim, o prefeito eleito aproveita para destacar uma particularidade do seu mandato, que é não apenas cuidar do povo tiradentino, mas dos visitantes que vêm à cidade.

“Tem prefeitos que querem ficar mandando a população para cidades vizinhas. Meu intuito é cuidar do meu povo, aqui dentro da minha cidade mesmo. Não só das pessoas que moram, mas daquelas pessoas que vêm fazer turismo em Tiradentes, que por alguma eventualidade precisar do serviço público”, esclarece.

Porém, essa grande quantidade de turistas, na visão de Zé do Pacu, também pode ser um fator que dificulta a administração municipal. O prefeito eleito chega a afirmar que Tiradentes é uma das cidades mais difíceis de administrar de Minas Gerais. “É a prefeitura mais pobre que tem na região. Eu recebo para administrar para 8 mil pessoas e tem final de semana que tem 40 mil pessoas em Tiradentes. Então é uma ilusão dizer que Tiradentes é rica em relação a São João del-Rei. São João del-Rei é uma cidade pobre, uma cidade de serviço, onde a arrecadação é muito grande. Então talvez seja mais fácil de administrar”, defende.

Segundo o IBGE, em 2023, a arrecadação bruta total de Tiradentes foi de R$ 46.967.745,17. Logo, a cidade tem fama de ser rica, devido à grande circulação de dinheiro e aos eventos nacionais que são realizados em seu território, como a “Mostra de Cinema” e o “Festival Nacional da Canção”. Perguntado se Tiradentes é rica em relação à sua cidade vizinha São João del-Rei, o gestor destaca que isso não passa de uma impressão, pois, de acordo com ele, Tiradentes recebe 0.6 de arrecadação, mesmo valor que cidades vizinhas e bem menores da região como Santa Cruz de Minas, Coronel Xavier Chaves e Ritápolis. Ele refere-se, no entanto, a uma das fontes de renda, que é o Fundo de Participação, que é calculado pelo número de habitantes. Mas há outras receitas que podem ampliar a arrecadação, como ICMS e outros impostos.

Dados obtidos junto ao Portal da Transparência confirmam a informação de Zé Antônio do Pacu quando ele afirma que Tiradentes recebe praticamente o mesmo valor do Fundo de Participação (FPM) em comparação com suas cidades vizinhas e menores, como Santa Cruz de Minas, Coronel Xavier Chaves e Ritápolis. Em 2023, as quatro cidades receberam R$13.064.374,16. Em comparação, São João del-Rei, uma cidade maior que as outras, recebeu R$ 60.967.078,29. Os dados da arrecadação e do FPM revelam que Tiradentes é uma cidade de contrastes entre o luxo e a escassez de recursos públicos. Apesar de ser uma das cidades mais visitadas de Minas Gerais, é, ao mesmo tempo, uma cidade pobre e uma das mais difíceis de administrar por falta de recursos financeiros.

A frase “Tiradentes é uma cidade cara” é bastante popular entre diversas pessoas que, devido às suas condições financeiras, não conseguem acessar aos eventos e as atrações do centro histórico, tendo em vista o custo elevado dos seus produtos. Então, é comum dizer que “existem duas cidades: uma para os nativos, outra para os turistas”. Sobre isso, Zé Antônio afirma ser seu objetivo tirar essa visão que muitos têm e trazer os moradores de volta para o centro histórico, já que a maior parte mora nos bairros periféricos. A respeito de como pretende fazer essa inclusão da população de Tiradentes aos eventos que ocorrem na cidade: “a inclusão da comunidade é trazer os eventos para as praças, que hoje, na maior parte, é feito nos locais particulares, para o tiradentino participar e estar no espaço público”, elucida.    

Tiradentes é marcada pelo revezamento de grupos políticos tradicionais

A cidade histórica tem sido marcada pelo revezamento no poder de grupos ligados ao centro-direita e aos líderes políticos Nílzio Barbosa Pinto (que já exerceu três mandatos como prefeito – 2005 a 2008, 2009 a 2012 e 2021 a 2024) e Zé do Pacu. O prefeito eleito tem uma longa trajetória na política da cidade, tendo concorrido a prefeito cinco vezes – 2008, 2012, 2016, 2020 e 2024. Perdeu três eleições e saiu vitorioso em 2016 e 2024. Foi vereador ainda entre 2005 e 2008.

A vitória de Zé do Pacu, que se intitula candidato de centro, mostra que, ao contrário de outras cidades da região, em que a extrema-direita saiu vitoriosa, como foi o caso de São João del-Rei que elegeu Aurélio Suenes (PL), do partido de Jair Bolsonaro, há um posicionamento mais moderado do eleitorado que oscila entre os grupos políticos que governam a cidade há mais de 20 anos. Durante a entrevista, o prefeito eleito alega que, para ele, como único candidato do centro, derrotou a esquerda (afirma que Rogerinho do PSD e Luiz da Farmácia do PT são de esquerda) e a direita (Sidney do PL). Mas os critérios que o prefeito utiliza para definir clivagens ideológicas não corresponde ao que de fato os partidos significam tanto na política nacional, como regional. O PSD é o partido que elegeu mais prefeitos no Brasil e é ligado ao Centrão, com posicionamentos de centro-direita. O PT está na centro-esquerda e, de fato, o PL é de direita.

A coligação de Zé do Pacu elegeu cinco dos nove vereadores – três do Republicanos e dois do PSDB, o que dá uma margem tranquila para negociar mais apoios na Câmara. Perguntado se pretende caminhar com os seus aliados ou se aliar à oposição, Zé Antônio do Pacu disse que pretende dialogar com ambos os lados: “eu represento esse grande centro que é Tiradentes. Isso mostra que Tiradentes é uma cidade de diálogo. Mostra que a cidade não está presa ao extremismo, nem da esquerda, nem da direita. É uma comunidade de conversa e diálogo. Se eu represento essa grande parte da cidade, eu quero dialogar, eu quero unir de novo Tiradentes e fazer o melhor para todos nós”, finaliza.

Vereadoras eleitas se posicionam sobre a vitória de Zé do Pacu

Luciana Venturini, agente de saúde e membro da coligação do prefeito eleito, foi reeleita na eleição de 2024 pelo Republicanos, que compõe a coligação de Zé do Pacu.

A sua trajetória política começou em 2008 na cidade, e a partir daí ela começou a se candidatar ao cargo de vereadora, sendo nomeada como suplente em 2008 e 2016 e eleita em 2020 e 2024. Ela enaltece a vitória do prefeito eleito: “foi uma eleição limpa, séria e acredito que vão trabalhar muito pelo povo de Tiradentes, pois tanto o prefeito Zé Antônio do Pacu quanto o vice João Marcos têm uma vasta experiência na política e na administração”.

Também sobre o diálogo entre prefeito e a Câmara Municipal, Luciana Venturini considera que suas demandas foram ignoradas pela prefeitura no seu antigo mandato, tendo muitos dos seus projetos vetados, o que a desmotivou a apresentar mais projetos. Mas ela afirma que se manteve perseverante e persistente ao dizer que irá continuar cobrando para que o serviço público prossiga da melhor maneira: “desde o início tenho um propósito que é trabalhar com seriedade, dedicação e honestidade, em prol do povo de Tiradentes e é assim que irei continuar em meu segundo mandato”.

Já Suelen Cruz, natural de Tiradentes, é jornalista e faz parte do PT, partido de centro-esquerda, que é um partido de oposição à coligação do prefeito eleito. Em 2024, estreou na política, ao se candidatar a vereadora e sair como a mais votada na disputa, com 290 votos. À reportagem, ela reconhece a vitória de Zé Antônio do Pacu, afirma que trabalhará junto ao executivo, mas sinaliza para uma questão importante que essa votação mostra: “a sua eleição reafirma algo que acontece tradicionalmente em Tiradentes, que é a alternância de poder e a votação sempre em dois nomes, que representam famílias poderosas da cidade. E já vimos que essa alternância de poder não é benéfica para o seu povo. Seja candidato A ou candidato B, pouco fazem por Tiradentes e principalmente para o tiradentino, que é quem mais sofre com uma cidade que prioriza o turismo e esquece dos seus cidadãos”, analisa.

Questionada sobre como pretende se posicionar, enquanto vereadora de oposição, ao partido do prefeito eleito, Suelen afirma que fará quatro anos de fiscalização e cobrança: “vou fiscalizar amplamente a administração do Zé Antônio, em relação à educação, saúde, lixo, limpeza urbana, na área social. Mas, principalmente, que o tiradentino tenha vez e se sinta pertencente à cidade. Vou trabalhar para que Tiradentes não siga sendo uma cidade encantadora só para os turistas. Eu farei uma oposição inteligente e que pensará exclusivamente no bem de Tiradentes”.

Sobre a configuração política da cidade, ela disse que Tiradentes tradicionalmente é gerida por prefeitos de direita, já que Zé Antônio do Pacu, embora eleito pelo PSDB, esteve aliado a personagens da extrema-direita, como o Senador Cleitinho. Rogerinho, candidato do grupo do atual prefeito Nilzio Barbosa, ocupou um partido de centro-direita e saiu derrotado.

Porém, a cidade vive duas realidades diferentes: a eleição presidencial e a eleição municipal. Nas eleições presidenciais, há uma vitória expressiva da esquerda, com Lula vencendo Bolsonaro na cidade, nos dois turnos das eleições presidenciais de 2022. “Porém, este mesmo movimento não se repete quando o assunto é eleição para prefeito e vereador. Até pela falta de ideologia dos partidos dentro do município. Figuras tidas como de esquerda participando de partidos e chapas de direita e que votaram e fizeram campanha para o Bolsonaro nas duas eleições que participou. Então, o anti-bolsonarismo mostrou-se eficaz na eleição nacional, mas não tanto no pleito deste ano. Este é, inclusive, um dos grandes desafios do PT e da esquerda pensando nas próximas eleições, tanto de 2026 quanto de 2028”, explica.

Sobre suas principais propostas para Tiradentes, a vereadora, que pretende trabalhar para ambos os lados políticos, disse que dará uma atenção especial à educação. Ela trabalhará com a inclusão de crianças e jovens, especialmente aqueles que possuem o transtorno do espectro autista (TEA) e o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).

A professora também cita políticas públicas de acompanhamento da população, seja jovem ou adulta. Por fim, ela diz que cuidará da população que vive nos bairros periféricos, como Águas Santas, Cézar de Pina, Caixa d’Água e Elvas. “Tiradentes não pode seguir funcionando e pensando somente para a praça principal e a Rua Direita. O povo está esquecido, adoecido e passando dificuldades nos bairros”, conclui.


Edição: Luiz Ademir de Oliveira e Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: (*)

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