EMPREENDEDORISMO FEMININO: MULHERES, EMPODERAMENTO E INOVAÇÃO EM SÃO JOÃO DEL-REI

Ana Luiza Reis e Giulianna Andrade

O empreendedorismo feminino tem desempenhado um papel essencial na busca por igualdade de gênero e inclusão econômica, impactando positivamente comunidades e indústrias em todo o mundo.

O número de mulheres donas de negócios no Brasil chegou a 10,3 milhões, segundo a pesquisa “Empreendedorismo Feminino 2022”, realizada pelo Sebrae com dados do IBGE. Entretanto, apesar dos avanços positivos, obstáculos como acesso limitado a recursos financeiros, equilíbrio entre vida familiar e profissional e a falta de redes de apoio ainda dificultam o desenvolvimento das mulheres empresárias. 

No contexto de São João del-Rei, essa realidade não é diferente. O empreendedorismo feminino impacta na economia local, desafiando barreiras, promovendo independência financeira e empoderamento social para as mulheres no ramo. Porém, elas seguem enfrentando desafios estruturais e culturais contínuos.

Jovens Empreendedoras

Kris Hellen (24) é professora de dança e abriu seu negócio (um estúdio de pole dance) no auge da pandemia de Covid-19. Ela explica que não conseguia se adaptar às oito horas de trabalho, mais as horas na faculdade, e ainda exercer seu hobby na dança. Por isso, resolveu juntar o útil ao agradável e transformar sua arte em meio de trabalho.

A professora conta que ainda passa por dificuldades devido ao preconceito do público da cidade com o estilo de dança. “É bastante desafiador crescer em uma cidade como São João del-Rei, trabalhando com algo que não se encaixa nas expectativas de uma sociedade conservadora. Com isso em mente, tenho direcionado meu nome e meu trabalho a um público jovem –  universitários e pessoas de fora da cidade-, que costumam abraçar mais essa arte.”

Kris Hellen em uma de suas aulas (Foto: arquivo pessoal)

Proprietária da marca de roupas femininas Malli, Camila Melo, de 27 anos, conta como começou sua trajetória no empreendedorismo. Em 2020, abriu sua loja de forma on-line e segue dessa forma até hoje, porém afirma que o público da cidade foi essencial para o crescimento da sua marca.

“A gente começou com vendas no Instagram e no site, e desde o início ali o público são-joanense que fez com que a minha empresa conseguisse sair da minha casa, ter um escritório, de fato, começar a crescer mais, sabe? Posteriormente a isso, com mais investimentos, a gente começou a alcançar cada vez mais um público externo”, descreve.

Por ter uma loja majoritariamente de forma on-line, a dona da Malli acredita não passar por tantos desafios relacionados ao conservadorismo da cidade. “Eu acredito que pelo meu negócio ter começado de forma online e ser voltado também para um público de fora, eu sempre fiquei muito fechada ali no meu canto. Eu acredito que talvez mulheres que estejam realmente no comércio físico devam enfrentar alguns desafios, mas eu, particularmente, não tanto”, comenta.

Camila Melo em sua loja MALLI (Foto: arquivo pessoal)

Já em outra área comercial, no início em 2023, a confeiteira Isabela Oliveira, de 20 anos, revela que a “UE Donuts” – marca autoral de doces – surgiu para se manter na universidade e em São João del-Rei. Mesmo com apoio de seu namorado, que ela afirma ter sido essencial, diz que o começo foi difícil: enfrentar sua timidez para iniciar as vendas foi o maior desafio, segundo Isabela.

“Eu tenho muita vergonha, e com isso eu tive muita dificuldade em conseguir vender os donuts. Saí (de casa) com 25 donuts para vender, e consegui vender cinco. Mas mesmo assim eu já tinha ficado feliz, pelo menos eu tentei de alguma forma”.

Sobre o conservadorismo e tradição no comércio de São João, ela relata que houve desafios, mas preferiu olhar pelo lado das oportunidades que a cidade poderia proporcionar para sua marca. A entrevistada relata: “Apesar de algumas barreiras, consegui conquistar a confiança da comunidade, mostrando que é possível respeitar a tradição e trazer novas ideias ao mesmo tempo”, analisa.

Redes de apoio e instituições

Hoje na cidade, apesar das dificuldades, redes locais e grupos empresariais têm sido relevantes para o desenvolvimento dos negócios. Iniciativas como a participação em movimentos e o diálogo com outros empresários ajudam a ampliar o alcance dos serviços oferecidos e fortalecer a presença feminina no mercado. Essas redes não apenas auxiliam no crescimento profissional, mas também promovem um impacto positivo na comunidade.

De iniciativa feminina, um exemplo relevante é a “Rede Elas Empreendem”, que reúne cerca de 140 mulheres empreendedoras de São João del-Rei. Criado para fomentar trocas, networking, capacitação e apoio mútuo, o grupo realiza encontros com temáticas voltadas ao empreendedorismo e à interação entre as participantes.

Leandra Cunha e Bárbara Abreu, advogadas, empresárias e participantes do grupo, afirmaram que estes movimentos contribuem para a construção de um ambiente dinâmico e colaborativo, de modo que impulsiona o desenvolvimento e reconhecimento dos seus trabalhos.

Bárbara afirma: “o apoio de redes locais e grupos empresariais tem sido fundamental para abrir espaço ao diálogo, impulsionar o crescimento do meu negócio e permitir uma contribuição mais efetiva para a comunidade, como a participação em movimentos voltados ao desenvolvimento econômico da cidade.”

Encontro da Rede Elas Empreendem (Foto: Reprodução | Instagram @rede.elasempreendem)

Além disso, para empresários no geral, possui o “BNI”, um grupo de networking profissional, também utilizado como ferramenta para ampliar oportunidades, fortalecer a atuação no mercado e criar um ambiente de maior colaboração entre os atuantes na área.

O SindComércio e o SindJovem são as instituições vinculadas ao comércio de São João del-Rei. Rafael Affonso, ex-presidente do SindJovem, quando perguntado sobre o empreendedorismo jovem feminino, destacou o conservadorismo na região e aponta as dificuldades em alcançar esse público.

“O comércio de São João del-Rei é um comércio altamente conservador. Por ter sido presidente do SindJovem, eu conheci algumas pessoas, mais os chamados “jovens de meia-idade”. Os jovens empreendedores, vamos falar de gente que está com 22 anos, gente que está saindo da faculdade, com 25 anos, de repente, eu não consigo encontrar essas pessoas, eu não sei onde elas estão. A gente está em ciclos sociais diferentes. Infelizmente, eu não consegui conhecê-los. Tentei fazer diversos eventos dentro do SindJovem, para tentar prospectar associados, mas minhas mensagens não chegaram até eles. Talvez por falha de comunicação, talvez por falta de interesse do empreendedor, até porque para você participar de um quadro associativo você tem que se despender do seu tempo. E convencer uma pessoa a participar de um quadro associativo, no geral, também é muito difícil, porque está todo mundo sem tempo, as pessoas não têm tempo”.

Além disso, ressalta a importância da participação ativa dos jovens, no geral, nesse cenário. “Acho que o jovem empreendedor precisa se associar às instituições, precisa levar os outros empreendedores que ele conhece para essas instituições também, para eles poderem levar para a mesa de debate as suas mazelas e eles poderem debater os problemas e procurar soluções conjuntas”, comenta.

Atualmente, o SindJovem enfrenta desafios para manter suas atividades devido a dificuldades no engajamento do empresariado, de acordo com Diogo Andrade, membro do Conselho. Esses impasses reforçam a importância de fortalecer as instituições de apoio para criar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento de novos negócios e ao sucesso dos empreendedores como um todo.

Apesar dos desafios, sobre a evolução e o espaço das mulheres no mercado, Rafael diz reconhecer o potencial de crescimento, especialmente, para o empreendedorismo feminino: “o setor de eventos, basicamente, o que nós mais temos são mulheres. Eu acho que o cenário para a mulher hoje, empreendedora, está bem aquecido. E é interessante porque a gente vê, eu acredito muito, que daqui a alguns anos, e não vai demorar, a gente vai ver uma tomada generalizada do espaço do comércio do empreendedorismo local pelas mulheres”.

Em relação ao apoio recebido no início de seus projetos, as empreendedoras alegam ter sido algo difícil. Camila diz não ter tido apoio de organizações locais e que vê essa experiência de abrir um negócio como algo solitário: “aqui em São João eu tive e tenho dificuldade em criar laços com outras mulheres que empreendem assim, com quem eu possa trocar a figurinha. Então, acho que é uma experiência solitária, não sinto que criei uma rede de outras empreendedoras”.

Ademais, Kris Hellen concorda que no início o apoio veio de forma bastante limitada, porém com o passar do tempo, conseguiu encontrar pessoas que a apoiassem e ajudassem com o crescimento do seu negócio. “Hoje em dia, conto com o suporte de outras mulheres empreendedoras e artistas. Essas redes de apoio têm sido fundamentais, pois influenciam diretamente na divulgação do trabalho que ofereço, o que resulta em mais pessoas conhecendo e se interessando pelos meus serviços”.

Por fim, Isabela afirma que seu maior apoio veio do seu meio familiar, principalmente de seu namorado, que foi um dos idealizadores do projeto. Contudo, por mais que não comente se recebeu apoio de alguma instituição ou redes locais, ela declara que o apoio dos são-joanenses foi essencial para o crescimento da sua loja de sobremesas. “A conexão com o público local e a confiança que eles depositam em meu trabalho fizeram toda a diferença no sucesso da minha empresa”.


Edição: Arthur Raposo Gomes

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