Érika Franco, Igor Chaves e Rafaela Nery
Entre as ladeiras históricas de São João del-Rei, um movimento silencioso, mas transformador, tem ganhado força: o universo dos brechós. Mais do que uma tendência de moda ou consumo consciente, os brechós se tornaram um espaço de expressão criativa, geração de renda e impacto social. A cidade, conhecida por seu patrimônio cultural, agora testemunha um novo tipo de resgate: o das histórias e significados por trás das roupas de segunda mão. São empreendedores que enxergam nas peças usadas uma forma de ressignificação.

É o caso da costureira Vanessa Alves Lopes que, desde a pandemia, vê em seu brechó um espaço de transformação. É na parte debaixo da casa onde mora que as ideias que imagina ganham vida, e seu ateliê se transforma num pequeno negócio. “Sempre que às vezes eu tenho alguém que vem no brechó para comprar uma roupa, traz um conserto. Sempre que alguém traz um conserto, ou vai fazer uma peça, compra uma roupa de brechó”.
Polyane Vitória Longatti, antes de ser pedagoga, também tinha um brechó. Para conciliar sua vontade de trabalhar com moda e a vida de mãe de criança pequena, abriu as portas da garagem de sua casa e começou a vender as próprias peças que não usava mais: “enquanto meu filho estava na creche, aproveitava esse tempo para gerenciar o brechó. Para dar início ao projeto, comecei a selecionar roupas do meu próprio guarda-roupa”.
Nádia Cristina Lemos Carvalho, por sua vez, está no ramo dos brechós desde 2015, mas foi em 2024 que abriu sua loja na rua atrás da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em São João del-Rei. A Divina Collab é uma parceria com Ana Paula Garcia e busca unir “brecholeiros”, artesãos e artistas em prol da valorização de suas profissões. “Acho que essa parte do brechó me ajudou a ver outras áreas de trabalho também de outra forma”, afirma.

Processo criativo
Nos últimos anos, Vanessa, Polyane e Nádia vêm transformando o que um dia foi descartado em algo cheio de vida e propósito, mas antes de embarcarem nessa jornada, compartilham um passado em comum: o gosto pela moda. Polyane, assim como as outras duas, narra que, desde muito cedo, já era apaixonada pelas possibilidades que as roupas poderiam oferecer: “desde os meus 15 anos, comecei a enxergar a moda como uma poderosa forma de expressão e autenticidade”, admite. Esse amor pela moda e pelo potencial criativo das roupas foi o que as impulsionou a explorar os brechós primeiro como clientes, através do chamado garimpo.
“Eu sempre mexi com roupa. Sempre estava em brechó. Eu ia catando todas as peças que eu achava bonitas. Porque acho que eu já tinha esse negócio de olhar para a peça e falar ‘nossa, isso é bonito. Esse tecido dá para transformar’”, explica Vanessa. Hoje em dia, se os brechós são conhecidos por oferecerem experiências únicas, é graças ao processo de garimpo. Roupas, calçados e acessórios são criteriosamente selecionados, muitas vezes com base em tendências atuais ou no resgate de estilos vintage.
Nádia revela que costuma garimpar muito em ONGs e bazares de igrejas. Ela conta que as peças costumam vir com avarias, o que a leva a dedicar certo tempo no concerto ou buscar costureiras que realizam o reparo. “Eu vou lá, compro nos bazares, aí dependendo da peça, eu não consigo costurar e arrumar. Então, eu já passo para uma outra costureira que vai fazer esse processo”. É o mesmo caso de Vanessa, que tem o hábito de customizar as peças que expõe: “acho legal você poder ter essa oportunidade de pegar essa roupa que, às vezes, está num modelo que não vende, e determinar para outra coisa. Ela pode ter um outro olhar”.
Valorização
Esse processo de trabalho explicado pelas “brecholeiras” demanda tempo, dedicação e dinheiro. No final, ele é somado aos gastos do brechó e pago a partir do lucro angariado na venda das peças. “Com o tempo, eu fui aprendendo o que vale a pena arrumar e o que que não vale. […] Às vezes, a pessoa não tem noção de que a peça, para chegar nela, passa na mão de muita gente e movimenta vários mercados no meio disso tudo”, explica Nádia.
A verdade é que “vender roupa usada” nem sempre foi bem visto, mas esse cenário pode estar mudando. As compras de peças de segunda mão aumentaram significativamente nos últimos anos no Brasil, como apontam os dados da pesquisa divulgada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE). Em 2023, o país tinha 118.778 brechós em funcionamento. Vanessa observa que esse crescimento atinge não só a roupa de brechó, que passou a ser mais valorizada, como também o trabalho de quem está por trás dos empreendimentos. “Tem gente também que não tinha coragem de falar ‘nossa, eu tenho um brechó’. Por que você vende roupa usada? E daí, sabe? Qual o problema?”, questiona.

Mesmo assim, segundo Nádia, a atividade “brecholeira” ainda demanda atenção. Para ela, os preços que cobram muitas vezes não condizem com o trabalho que realizam, “tem todo um trabalho de ir lá garimpar, de fazer o conceito da peça, limpeza da peça, curadoria. E eu vejo muitos brechós de outros lugares que conseguem cobrar valores justos, ou às vezes mais altos também, e aqui eu já não vejo tanto”. Esse cenário, contudo, pode vir a mudar caso seja aprovado o Projeto de Lei 2378/2024, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
A PL, de autoria da deputada estadual do PT, Beatriz Cerqueira, aguarda designação de relator em comissão. Ela representa a Política de Incentivo à Moda Sustentável no estado, cujo objetivo é fomentar práticas sustentáveis na cadeia produtiva da moda, como o uso de tecidos naturais e biodegradáveis, a reciclagem de resíduos têxteis e o descarte adequado. Sua base conversa diretamente com o consumo consciente, um dos pilares do coletivo de mulheres chamado “Corre Delas”, idealizado por Nádia e Polyane, que concordam que a promoção de brechós e feiras de produtos feitos à mão ou sustentáveis incentiva a comunidade a adotar hábitos de consumo mais conscientes e responsáveis.
Ação social
O “Corre Delas” é um coletivo pensado por quatro mulheres: além de Nádia e Polyane, reúne também Ana Guimarães, proprietária do brechó Mariposa, e Maribel Quiñonez, proprietária do brechó Andanças. A ideia parte do objetivo de promover mais eventos em São João del-Rei, especialmente para apoiar mulheres, artistas independentes e mães. Nádia lembra que o “Corre” também parte do princípio itinerante: o brechó não como um espaço físico limitado, mas sim democrático e plural. “Aqui (em São João del-Rei) já existem algumas feiras, mas são em lugares fixos, que às vezes atingem só aquele lugar. E a gente estava nessa ideia de fazer alguma coisa itinerante, que pegasse vários bairros, várias pessoas diferentes”.
Desde então, segundo Polyane, o coletivo tem crescido e se consolidado como um espaço que valoriza a diversidade e promove a autonomia de suas participantes: “Unimos nossas forças e começamos a convidar outras mulheres para participar das feiras conosco. Recebemos o apoio de muitas pessoas que gentilmente cederam espaços para realizarmos os eventos, e o resultado foi muito positivo”.
A moda circular também é uma das marcas do coletivo. Esse modelo de economia retoma o já apontado princípio da sustentabilidade, promovido pelos brechós. Polyane explica que, não só como um nicho comercial, esse sistema também educa sobre os impactos da moda rápida e fortalece os laços sociais entre mulheres que compartilham valores semelhantes: “Essa abordagem não só enriquece a economia local, mas também contribui para um futuro mais responsável na indústria da moda”.

(Foto: Reprodução – Ana Guimarães/Sete Espelhos Fotografia)
Economia Circular
Diferente do modelo tradicional – conhecido como economia linear, baseado na lógica “extrair, produzir, descartar” -, a economia circular propõe um sistema em que os recursos são continuamente reaproveitados, minimizando desperdícios e prolongando a vida útil dos materiais. Nesse cenário, os brechós são uma aplicação prática da economia circular. Vanessa explica que as roupas são feitas para durar, e que o sistema hoje conhecido como fast fashion costuma cobrar mais caro por algo sem muita qualidade. “Hoje tem loja que você vai comprar uma peça que é muito cara e a qualidade da roupa é horrorosa. […]. A roupa é duradoura. Tem roupa que, se você for olhar na etiqueta, ela tem data, e se você for ver o desenho, ele é antigo”, observa.
Polyane compartilha dessa ideia. Ela enxerga que nossas escolhas de vestuário impactam significativamente a saúde do planeta. “Essa consciência me levou a valorizar não apenas o estilo pessoal, mas também a importância de fazer escolhas sustentáveis e responsáveis”. Já Nádia aponta que, para além do meio-ambiente, a economia circular se relaciona com o reconhecimento dos profissionais envolvidos na produção da moda e dos consumidores que vestem as peças: “Acho que (impacta) nessas três partes. Tanto o ambiental, quanto a valorização do trabalho dessas costureiras, quanto nessa parte pessoal também de estilo próprio”.
Tradicionalmente, marcas de luxo dominaram a ideia de “estar na moda”, criando uma separação entre consumidores de alta renda e o público geral. Iniciativas como os brechós têm mudado essa realidade. Ao reutilizar roupas e acessórios, reduz-se a necessidade de fabricar novas peças e, como Vanessa aponta, o brechó permite que uma roupa bem cuidada seja passada para outra pessoa usar. “Eu acho que o Brechó mostra que você pode ter essa moda circular. Uma pessoa às vezes pode descansar da roupa e fazer com que ela seja revendida”.
Edição: Arthur Raposo Gomes
