A EXPRESSÃO FEMININA NO CENÁRIO ARTÍSTICO DE SÃO JOÃO DEL-REI

Júlia Diniz e Lívia Antoniazzi

Reconhecida por sua tradição cultural, a histórica cidade de São João del-Rei se tornou um polo artístico desde seu início, durante o ciclo do ouro. Por conta de seu protagonismo na arte barroca, o local é um berço de manifestações de arte desde o período colonial. Apesar da rica bagagem de expressões artísticas, esse cenário se mostra difícil e árduo, ainda mais quando se trata de mulheres.

Hoje, São João del-Rei abriga um panorama artístico diverso, mas o resquício das desigualdades de gênero continua perceptível. Além disso, a prática da arte vai além de um legado cultural: tornou-se uma importante fonte de renda. Historicamente, o papel das mulheres na economia e na sociedade sempre enfrentou desafios. Elas atuam como pintoras, artesãs, cantoras, entre outros, mas enfrentam desafios como a falta de reconhecimento e financiamento. Deste modo, o espaço destinado às figuras femininas na cena artística da cidade ainda é limitado, refletindo a estrutura patriarcal da sociedade brasileira. No entanto, o mundo artístico vem se mostrando um cenário de resistência e emancipação feminina, permitindo que essas mulheres construam carreiras em uma região conservadora.     

Mas afinal, o que é arte?

A palavra “arte” tem origem no latim e está associada aos conceitos de técnica e habilidade. De acordo com o dicionário, a palavra é definida como a “produção consciente de obras, formas ou objetos voltada para a concretização de um ideal de beleza e harmonia, ou para a expressão da subjetividade humana”. Essa forma de manifestação comunicativa, está presente na vida humana desde a pré-história. À medida que a sociedade evolui, os estilos e os métodos de criação artística também se transformam, refletindo as mudanças culturais e históricas ao longo do tempo.

Para a técnica do curso de Artes Aplicadas da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Ana da Silveira, a arte é muito mais ampla do que imaginamos e é essencial enxergá-la como um reflexo de sentimentos e vivências. “Arte é tudo que se planeja colocar em um objeto para representar o que sentimos, vivemos ou pensamos. Ela também depende da interação de quem a observa, criando uma troca de significados’’.

Ana faz estudos e práticas na área artística (Foto: Reprodução / Instagram @anacristinaceramica)

Ana explica que o cenário artístico atual vem se abrindo e tomando novos espaços em relação ao desenvolvimento do papel da mulher, que começa a sair desse papel da esfera familiar para ir para a esfera pública. Deste modo, para ela, a mulher já saiu dos bastidores e está ocupando espaço.

Para exemplificar, a técnica traz a visão que tem de estudantes da UFSJ: “as nossas alunas do curso de cerâmica já têm essa tendência de estar escapando dos papeis tradicionais, procurando novos espaços e representações, dando espaço para a mulher expor as suas maneiras de ver o mundo”.

Marina: artista multimodal

Marina Mejia é artista multimodal – percorrendo as artes desde a aquarela, cerâmica até a administração de um antiquário. Aos 28 anos, com toda uma presença artística desde que “se entende por gente”, acumula experiência do fazer profissional no meio artístico há seis anos. Ela também é graduanda no curso de Artes Aplicadas com Ênfase em Cerâmica da UFSJ e conta um pouco sobre os desafios desse mercado.

(Imagem: Reprodução / Instagram @marinamejiam e @atelierestrela)

“É necessário paciência, com muitos processos. Me inspiro muito na natureza e na delicadeza que se pode encontrar nela, no que passa despercebido, então meu processo envolve além do fazer em si, mas o que me cerca e o que vivencio” – afirma Marina.

Segundo ela, a sobrecarga feminina é pouco vista pela sociedade, seguida de uma lacuna de respeito, valorização e espaço: “acho que o fazer artístico tradicional é forte e valorizado, mas o que foge do comum nas artes femininas é facilmente visto com resistência em uma parte da população local”. São João del-Rei é ainda muito centrada na arte sacra, o que faz com que esse nicho artístico se sobressaia, infortunadamente implicando em uma pouca abertura às outras demais expressividades.

Marina defende que a cidade sempre esteve ligada ao fazer artístico, mas que carece muito de uma rota de visitação, editais por parte da prefeitura e maiores incentivos na promoção de feiras para venda dos artesanatos: “volto aqui na questão de uma rota turística de atelier em São João del-Rei, pois em comparação com Tiradentes, a parte artística ainda se perde um pouco por aqui”. Entretanto, ela ainda ressalta que em Tiradentes é difícil que artistas pequenos ganhem espaço e visibilidade.

Também há um preconceito muito grande ao fato de ela ser jovem e mulher administrando um antiquário, majoritariamente associado a homens de mais idade, perfil correlato de uma grande parte do público consumidor. Já sobre as cerâmicas e aquarelas, Marina ressalta que conversa mais com a clientela feminina. As vendas ocorrem por meio da loja física e on-line, por Instagram e WhatsApp. “Mas não é fácil, tem muito mês que não fecha a conta”, compartilha a artista, que ainda pontua: “em alguns períodos, consigo monitoria na universidade (para complementar a renda, a partir da bolsa)“.

Além disso, a artista reflete que é necessária uma união maior de artistas e artesãos no que diz respeito à formação de um polo turístico forte de compras, assim como é o de visitação histórica. Marina cita também a importância de movimentos de incentivo como o “Corre Delas”, que reúne mulheres empreendedoras de São João del-Rei em um coletivo de fomento à autonomia, sororidade, diversidade, resiliência, ética, integridade, equidade e igualdade de gênero.

Marilane: uma potência musical

Marilane Sotani, mulher negra, são-joanense e artista também é um exemplo de presença feminina no cenário da arte. A cantora atua no ramo musical há mais de 20 anos e encontrou na música uma conexão com suas raízes familiares e com o histórico cultural de sua cidade natal. Apesar disso, Marilane critica a falta de valorização aos artistas locais. Ela relembra, por exemplo, sua experiência ao cantar com um grande nome da MPB, Milton Nascimento: “saíram apenas duas frases sobre isso em jornal de São João, já em outras cidades da região, o jornal citava o meu nome, falava de onde eu vinha… Me deram muito mais valor do que a minha própria cidade.”

(Foto: Pedro Gonzales)

A sambista ressalta também que em eventos de organizações do poder público, sua participação não é reconhecida e seu nome raramente é citado. Segundo ela, essa invisibilidade é ainda maior para mulheres que fogem de padrões estéticos ou etários. Marilane lamenta não conseguir viver exclusivamente de sua arte, mas acredita que o cenário pode mudar com a implementação de políticas públicas e incentivos municipais efetivos, dando abertura para os artistas locais e remunerando adequadamente, pois segundo ela, arte também é trabalho.

Uma das maiores dificuldades destacadas por ela é a precarização de São João del-Rei em comparação com Tiradentes, que possui um cenário cultural mais consolidado e, consequentemente, tem um maior investimento financeiro nessa área. Para a cantora, é fundamental que a cultura seja profissionalizada e tratada com a seriedade que merece. Para concluir, a artista relembra que a cidade dos sinos já teve nove teatros: “então acho que a gente precisa voltar a isso. Valorizar as pessoas que estão aqui e fomentar a cultura local.”

Embora tenha exposto as barreiras de fazer arte sendo mulher, Marilane afirma que se reconhece no seu trabalho artístico e que a música é capaz de transformar e conquistar pessoas.

E nas famosas lojas mineiras de artesanato?

No centro histórico de São João del-Rei, as lojas de artesanato manual são raras. Mas algumas se destacam, como a Associação de Artesãos Bárbara Bella, que há 26 anos valoriza o trabalho de artistas locais. O objetivo da entidade é dar prestígio aos artesanatos manuais, mirando em uma variedade de peças artísticas. Além disso, o espaço se mostra essencial no âmbito turístico, uma vez que os turistas são o principal público consumidor desses produtos. Eles são atraídos por meio do trabalho da Secretaria de Cultura e Turismo e das feiras.

A criação da Associação, em 1998, marcou uma mudança significativa para os artistas locais. Nessa época, ter um espaço fixo para vender produtos artesanais era um sonho dos artesãos de São João del-Rei, que enfrentavam diariamente os desafios de trabalhar em praças públicas, lidando com as adversidades climáticas, problemas com o armazenamento das barracas, o transporte das mercadorias e à chegada de turistas na cidade. Após uma visita a uma feira em Petrópolis (RJ), onde os artesãos foram acompanhados pelo então secretário de Turismo de São João del-Rei, Dr. Luiz Dangelo Pugliese, o cenário mudou. Sensibilizado com as condições enfrentadas pelos artesãos, o então secretário viabilizou, por meio de um contrato de comodato, um espaço fixo que se tornou a sede da Associação. O local escolhido foi a casa histórica de Bárbara Heliodora, poetisa e ativista política, cujo legado reforça o valor cultural do projeto.

Segundo Flávia Santos Fritzen, de 37 anos, vendedora na Associação, a maioria dos trabalhos manuais vêm de mãos femininas, em que apenas dois artesãos fornecedores são homens. Ela salienta que já há uma suposição de que os trabalhos são feitos por mulheres, uma vez que a loja conta com artefatos manuais e muita costura, geralmente correlato ao ambiente feminino.

O espaço funciona como uma viabilização do meio artístico de vendas, funcionando de domingo a domingo para atrair uma maior abrangência de turistas. Flávia salienta que a população são-joanense compra dos produtos também, mas que antigamente esse era um movimento muito fraco, mas que tem crescido nos últimos tempos.

Foto: Júlia Diniz

Como o meio artístico reflete a sociedade?

Ana da Silveira, que também é ceramista, comenta sobre um trabalho que realizou envolta da figura da namoradeira e faz uma analogia à representação da mulher numa sociedade de interior, como São João del-Rei.

Segundo ela, o busto representa a mulher de uma forma mais submissa, sempre à espera de alguma coisa na janela. Houve uma época que o artesanato era muito vendido. Então, a artista se indagou do motivo pelo qual as pessoas têm essa afeição a esse objeto. Nos estudos, Ana relata que é uma questão da subserviência feminina, representando um papel menor na sociedade, daquela que fica só dentro de casa, cuidando dos filhos e sem participar de toda a sociedade.

Marina Mejia também complementa essa percepção ao ressaltar a característica que foi atribuída à mulher de não só ter que se preocupar consigo, mas também com os outros. E que, diante de tantas exigências, inclusive a multiplicidade mercadológica, “arrumar espaço nessa vida pra produzir arte é uma conquista”, finaliza.


Edição: Arthur Raposo Gomes

Imagem de destaque: colagem feita por Júlia Diniz

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