Helena Serpa e Crislaine Campos
Era uma vez um lugarzinho perdido entre as montanhas, com aquele cheirinho de terra molhada e um gostinho de chocolate. Essas memórias da infância ecoam no coração dos ritapolitanos enquanto se sobe o Morro Grande em Ritápolis. Localizada no meio das serras de Minas Gerais, Ritápolis carrega o nome da padroeira Santa Rita de Cássia, cuja festa acontece no dia 22 de maio.
Apesar de a vizinha São João del-Rei ser um destino turístico famoso, Ritápolis ainda é um segredo bem guardado, conhecido principalmente por quem se aventura além dos festivais e do renomado restaurante árabe, Saliya.

O orgulho de ser gabiroba
Para os moradores de Ritápolis, conhecidos como gabirobas, a cidade é mais do que um simples local; é uma identidade. O apelido “gabiroba” vem da fruta do cerrado, a campomanesia adamantium, que é nutritiva e tem um sabor doce e ácido. A fruta simboliza a conexão dos habitantes com a terra e é uma forma de valorizar as raízes locais.
Para mim, Helena Serpa, Ritápolis é muito mais do que apenas uma cidade—é uma extensão da minha identidade. Embora eu tenha nascido em São João del-Rei devido à falta de maternidade em Ritápolis, isso nunca me afastou das minhas raízes. A identidade ritapolitana vai além do papel. É uma questão de alma.
Desde jovem, percorri cada canto de Ritápolis, absorvendo e valorizando as histórias e tradições locais. A verdadeira riqueza da cidade está em sua essência tranquila e na riqueza das tradições que continuam a definir a vida local. Cada dia aqui é uma oportunidade para celebrar nossa cultura e nosso legado e é isso que faz de Ritápolis um lugar tão especial.
Segredos de Ritápolis
Ritápolis é uma cidade que guarda seus segredos com carinho. Enquanto muitos passam por aqui só para conhecer o restaurante árabe ou para participar dos festivais, quem decide explorar um pouco mais encontra um verdadeiro paraíso. A Cachoeira do Jaburu, por exemplo, é um desses lugares que encantam pela simplicidade e beleza natural. Escondido entre as montanhas, o lugar é um refúgio para quem busca paz e conexão com a natureza.
Outra joia de Ritápolis é o Morro Grande. O local é muito apreciado pelos jovens da cidade para assistir ao pôr do sol. A subida é uma aventura e, ao chegar lá em cima, a vista é de tirar o fôlego. O horizonte se estende em todas as direções, oferecendo uma visão que é tanto uma recompensa quanto uma meditação sobre a grandeza e serenidade da natureza.

Nos finais de semana, os jovens de Ritápolis se reúnem para explorar a cidade e seus arredores. Guilherme Cristófaro, um dos moradores locais, afirma: “A subida ao Morro Grande é um dos meus momentos favoritos. É uma chance de escapar da rotina e se conectar com a natureza.” Para ele, a experiência não se resume apenas à paisagem. “É também sobre a camaradagem. Quando estamos lá em cima, é como se todos os problemas do dia a dia ficassem para trás.”
Juliana Oliveira, outra jovem da cidade, compartilha o entusiasmo:”As caminhadas são o melhor jeito de relaxar e desestressar. O som da natureza e das nossas conversas é a trilha sonora perfeita. Cada passeio é uma nova descoberta.”Ela destaca que esses momentos são uma forma de celebrar a vida e valorizar a simplicidade.
Um encontro de vidas e culturas

Acostumada com o ritmo acelerado de Barbacena, eu, Crislaine, encontrei em Ritápolis um lugar onde o tempo parece desacelerar e cada momento pode ser apreciado ao máximo. Lembro da minha primeira caminhada até o Morro Grande, guiada por Helena. “A subida é cansativa, mas a vista no topo faz tudo valer a pena,” disse a mesma enquanto subíamos. Ao chegar ao topo e ver o pôr do sol pintando o céu com tons de laranja e rosa, senti que cada passo tinha valido a pena. Esse momento resumiu tudo o que Ritápolis é: uma beleza que só se revela para quem está disposto a explorá-la e a apreciá-la.
Sabedoria dos anos
O retorno de Natália a Ritápolis é um testemunho do poder dessa cidade. Após uma temporada em São Paulo, Natália voltou para sua cidade natal, onde criou seus filhos e encontrou a paz que procurava.
Aos 81 anos, ela continua a compartilhar seu conhecimento e a preservar as tradições da cidade. “Ritápolis mudou muito desde os meus tempos de juventude, mas o espírito da cidade é o mesmo. É um lugar onde a simplicidade e a comunidade ainda são valorizadas. Aqui, as pessoas ainda se conhecem pelo nome e todos sabem que tem um lugar reservado no mundo esperando por eles”.
Ritápolis: um convite ao desconhecido

Ritápolis é uma cidade situada na mesorregião do Campo das Vertentes, conhecida por suas atividades de extração mineral e agropecuária. Emancipada em 1962, destaca-se pelo turismo histórico e ecológico, com o Santuário Diocesano de Santa Rita de Cássia sendo um local de grande peregrinação, especialmente em maio. A famosa Fazenda do Pombal, onde nasceu o ilustre Tiradentes, é um patrimônio histórico nacional com as ruínas do engenho. A cidade também é conhecida pelo seu bloco carnavalesco Zé Pereira, um exemplo do espírito festivo local. Além disso, a guabiroba amarela, uma planta arbustiva típica do cerrado, simboliza a conexão da cidade com sua flora nativa. Seus frutos, doces e suculentos, são consumidos de várias formas e a planta é valorizada por sua resistência e facilidade de cultivo.
GALERIA: Pelos olhos de quem vive…
Para capturar a essência de Ritápolis através dos olhos de quem realmente conhece a cidade, nada melhor do que conferir a galeria de fotos feitas pelos próprios moradores. Essas imagens, que retratam cenas do cotidiano, paisagens naturais e momentos de convivência, oferecem uma perspectiva autêntica e íntima sobre o que significa viver em Ritápolis. Cada foto é um fragmento da história local, um convite para explorar as belezas e as simplicidades deste lugar encantador, visto por aqueles que o chamam de lar.
Edição: Vanessa Maia
Imagem de destaque: Victória Leal














