DE COPO EM COPO : UM PASSEIO PELOS BARES CLÁSSICOS DE SÃO JOÃO DEL-REI

Marina Santana, Giovanne Alcântara,
João Gusmão e Harume Suzuki

São trezentos anos de história de uma cidade conhecida por sua arquitetura barroca, o ressoar dos sinos e o apito da Maria Fumaça. Mas não só de igrejas e viagens de trem vive São João del-Rei – a união de sagrado e profano que nasce em seu estilo arquitetônico se encontra também no cotidiano corrido, mas deleitoso de seus moradores. Afinal, a cidade que tem por sua via mais famosa a Rua da Cachaça (ou Rua da Zona, para os antigos), não poderia concentrar todo o seu atrativo nas igrejas coloniais que dividem o centro histórico com as festas universitárias. 

A variedade de faixa etária é grande, os antigos moradores dividem espaço com os novos, os universitários que contribuem para que a tradição dos botequins são-joanenses nunca morra. Seja na quarta-feira à noite, tomando uma cachaça durante o Forró, ou numa tarde de sábado, com cerveja gelada e tantas idas e vindas de visitantes, moradores e curiosos, nos bares que se espalham por todo o centro. 

São João del-Rei é uma cidade com forte presença universitária, e é em meio a essa mistura de espaços e pessoas, que se entrelaçam muitas histórias. E essas, não acabam quando esses estudantes se formam, é construída uma comunidade real. Esse fato pode ser observado nos relatos dos donos dos mais diversos bares, que relatam, com tanto carinho, essa conexão com quem compartilha um pouco da vida brindando com eles.

O Taz Mania

Taz Mania, com seus 27 anos de história no bairro Fábricas, tinha como foco principal ser uma casa de shows. Onde eram realizadas as diversas comemorações universitárias, nestas, os alunos realizavam até mesmo festas para arrecadar dinheiro para ir em congressos fora da cidade. Ele é um dos bares que relata essa proximidade com pessoas que eram apenas consumidores, mas se tornaram amigos. “Tem gente que já se formou a 15 anos atrás, participou das festas, dos congressos […] Hoje em dia eles estão formados e sempre voltam aqui, e toda vez que estão na cidade eles vem aqui, nem que seja pra tomar uma cerveja, rever a gente. É muito legal!” relata o dono do Taz, Claudio Cesar.

Cláudio também salienta que além dos alunos sempre terem alguma história que viveram no Taz pra contar, os professores e reitores também são frequentadores antigos e gostam de se reunir lá para beber, ir nos forrós e até mesmo fazer algumas reuniões no local.

O Pantanal

O bar Pantanal, hoje com cerca de 30 anos de existência, é um dos clássicos de São João del-Rei e principalmente da vida universitária. Dona Carminha, uma das proprietárias do estabelecimento disse que o Pantanal é o favorito dos alunos “Devia se chamar pantanal dos universitários”. Esses, se encontram nesse ambiente boêmio desde o Carnaval, nos famosos blocos “Pantanal” e “Alvorada”, até o Natal, em eventos como o “Samba do Noel”. 

O boteco funciona na casa de seu Roberto e dona Carminha, e é um ponto de encontro clássico para os alunos das universidades. A placa que diz “Restaurante Pantanal” não é à toa! Ele começou na década de 1990 como um restaurante universitário: “Eu fazia a comida aqui e os alunos faziam fila para almoçar”, disse dona Carminha. 

A história do Pantanal é antiga, seu pequeno espaço deu origem a muitas tradições, e chama a atenção pela simpatia de seu Roberto e seus filhos, que já viraram amigos de quem frequenta o local. Os chaveiros pendurados na parede, as fotos que contam histórias e as cachaças temperadas são como velhos amigos dos estudantes que encontram ali um lugar de amizade, folia e aconchego. 

O Bar 70 e o Bico de Lacre

Em uma esquina da avenida Presidente Tancredo Neves, seu Airton recebe clientes de diferentes idades desde a década de 1970. Famoso na cidade, o Bar 70 ganhou esse nome pela década de seu nascimento, é uma marca na passagem do tempo e uma referência nas idas e vindas dos transeuntes pela cidade.

 

“De qualquer lugar que você vem, é só falar que é perto do bar 70, depois ou antes, não importa. Todo mundo sabe onde é!”, diz seu Airton com alegria. Desde 1978 o estabelecimento, que antes de ser naquela esquina era do outro lado da rua, é uma referência no mapa e no imaginário popular. Todo mundo sabe onde é o bar 70, ou pelo menos já ouviu falar. 

Diferente do Pantanal, o 70 é ponto de encontro de pessoas mais velhas, clientes antigos, figurinhas carimbadas. Pessoas que viram o tempo passar sentadas nas cadeiras daquele lugar, tomando uma cerveja e jogando conversa fora. 

Assim como o 70, o famoso Bico de Lacre é também uma referência na memória dos moradores do centro. O bar que está em atividade desde a década de 1950, já está em seu quinto dono – atualmente, seu Zé Luís, que herdou o ponto de seu pai, e toca o bar com muito carinho ainda hoje.

O boteco localizado no Largo do Carmo abre às 9 da manhã e só fecha às 21h, recebe clientes antigos e assíduos, e têm em seu interior as características de um bar cheio de histórias: uma televisão de tubo, um baleiro com diversos compartimentos e imagens religiosas ao lado de garrafas de bebidas como cachaças e licores. São essas características que representam tão bem a mistura do sagrado e do profano que a boemia são joanense, uma representação fiel do pensamento barroco que faz da cidade o que ela é.

Dos mais de 300 anos de história de São João del-Rei, o Bico de Lacre existe há 70 deles, e nos mostra que a cultura dos botecos de minas resiste e recebe a todos com um sorriso no rosto.


Edição: Vanessa Maia

Imagem de destaque: João Gusmão

Deixe um comentário