BINGO: NÃO LEVEI UM FRANGO, MAS GANHEI UMA HISTÓRIA

Alice Trindade dos Santos

Era Dia dos Namorados. Em meio a uma atmosfera inebriante de amores e devoção, mais uma vez eu estava sozinha e solteira, mas não poderia deixar essa situação me abalar. Logo, combinei de sair com mais dois amigos para passear pela cidade, tomar um bom café e comemorar a data que ridiculamente chamamos de dia dos solteiros. Entre prosas e zombarias, enfim fomos parar na barraquinha da igreja, organizada todos os anos pela comunidade. No fim das contas, foi lá que finalmente encontrei minha paixão e o objeto da minha futura obsessão: o bingo.

Nada te deixa tão animado quanto vencer. O sentimento de competitividade está presente em cada um de nós, seres humanos. A diferença é que em alguns, essa emoção se manifesta de maneira mais aflorada. Talvez eu tenha sido a sorteada, afinal, mas esse não é o foco. O que interessa é o ciclo que se iniciou a partir daquela fatídica quarta-feira, 12 de junho, onde tudo o que importava era vencer. A questão mais necessária naquele momento era conseguir completar uma horizontal com cinco números marcados.

E foi assim que, depois de muita reflexão, surgiu a dúvida: O que leva pessoas a saírem de suas casas todos os dias para preencherem cartelas de papel com sementes?

Naquele dia, infelizmente, saí sem nenhum prêmio. Mas estava mais determinada para uma próxima oportunidade, o que se concretizou mais rápido do que o imaginado.

Uma semana e meia depois, em uma barraquinha completamente diferente localizada em outro bairro da cidade, fiz uma segunda tentativa. E uma terceira, e quarta…todas mal sucedidas. Aconteceu o mesmo no mês seguinte, em uma outra quermesse quando estava acompanhada de um grupo maior e convenci todos os meus colegas a juntarem a sorte e darem as caras.

Mas a partir disso passei a enxergar o jogo com outros olhos. Sempre havia as mesmas figurinhas carimbadas, rostos que estavam presentes repetidas vezes e já estavam marcados em minha memória. Notei pessoas que jogavam do início ao fim no jogo, que peregrinavam por todas as barraquinhas da cidade, ou até mesmo aqueles que só iam para espiar.

 

Observei pessoas que tinham muita sorte, e ganhavam repetidas vezes (tive vontade de esganar algumas delas ao longo do processo). Mas, além disso, pude perceber o senso de comunidade que aflorava desses indivíduos. Isso ficou mais claro com as conversas tidas nesses momentos, a troca de cumplicidade e as provocações positivas. Ouvi muitos “deu barriga aí, hein”, quando o suposto ganhador do bingo marcava um número errado, ou “balança esse saco aí moço”, quando o senhor que sorteia retirava um número da sacola de tecido.

Em certo momento, até eu mesma soltei um “agora que levo esse frango assado para casa”. Vi que, muito além do vício destrutivo, algumas pessoas estavam ali apenas para se divertir, para ajudar na arrecadação, ou apenas pela emoção do processo.

A verdade é que, a esperança que você sente naquele momento te diverte, e esse sentimento sim é completamente viciante.


Edição: Vanessa Maia

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