VIDA VERDE E BONITA: MULHERES COMO PROTAGONISTAS EM UM CENÁRIO CULTURAL

Ívyla Nascimento Silva,
Jackeline Souza e Maria Paula Santiago

A vida é bonita quando contemplamos os trabalhos de nossas mãos. A vida é bonita quando se quer o melhor para todos. A vida é bonita quando se acredita que sempre é possível fazer algo. Nesta reportagem vamos ressaltar a iniciativa de mulheres em suas comunidades que, com força e com vontade, começaram a botar em prática um sonho de realizar. E assim fizeram, horta, alimentos sem venenos, artesanatos, convivência e sentido de pertencimento.

Nas duas iniciativas, mulheres estão juntas para conquistar vários objetivos. Complementar ou garantir uma renda, criar e expor produtos, compartilhar experiências. Vamos apresentar aqui projetos de sucesso que nasceram no bairro do Senhor dos Montes. Dois projetos que serão apresentados são feitos coletivamente. Valorizam a vivência, a sabedoria e o conhecimento de cada integrante. A primeira iniciativa é a Horta Comunitária Vida Verde e a segunda é a Feira de Artesanato, a Fermontes (Feira de Artesanato do Senhor dos Montes).

Horta Comunitária Vida Verde

Crianças e integrantes da Horta colhendo as hortaliças (Crédito: Arquivo Pessoal)

Fundada em 2017, a Horta Comunitária Vida Verde é composta por um grupo de mulheres que produzem verduras orgânicas. Mesmo em condições socialmente desfavoráveis e com poucos recursos disponíveis, elas conseguem transformar o espaço que ocupam de maneira sustentável.

Segundo uma das produtoras, Natália Duarte, de 36 anos, a ideia fundamental é fornecer uma alimentação de qualidade para as próprias participantes e depois, colocar os produtos à venda na comunidade. Ela enfatiza: “A importância deste projeto é que vemos a possibilidade de produzir alimentos saudáveis, além do bem-estar, o cuidado com o ambiente, com o solo, a água e com o outro.”

A ação está relacionada à cultura local, pois a horta é conduzida por meios, formas e saberes que foram transmitidas pelos antepassados dessas pessoas. Cada indivíduo carrega uma história, uma razão e motivo para participar da horta. Além disso, a iniciativa é baseada em economia solidária, em que as despesas e lucros são divididos igualmente.

Horta Vida Verde não se limita às quatro integrantes que a compõem. As decisões e modos de organização são partilhados com a comunidade, que participa, opina e se faz muito presente no trabalho.  Segundo Natália, as pessoas contribuem como podem. Nem todas estão na plantação e cuidado com o espaço. Muitas ajudam em preparativos de eventos, como almoços solidários, encontros de café e bingos.

“Hoje a horta acaba virando uma terapia em que as pessoas vão para conversar, desabafar ou até mesmo para sentir uma paz, uma tranquilidade”, afirma ela.

A qualidade dos produtos é destacada pelos clientes. Michele Chagas, de 41 anos, pedagoga e moradora do Alto das Mercês, começou a comprar da horta comunitária neste ano e ressalta que os diferenciais do cultivo são os alimentos orgânicos e o fortalecimento da cultura comunitária.

Já a monitora infantil, Miriam Trindade, de 54 anos, conta que faz compras há seis anos e disse que seu interesse surgiu após conversar com as integrantes do projeto e entender sobre os benefícios da verdura sem agrotóxicos.

Feira de artesanato do Senhor dos Montes (Fermontes)

A Feira de Artesanato do bairro Senhor dos Montes surgiu como possibilidade de aumentar a renda e deu tão certo que hoje, é ponto de encontro e lazer para a população do bairro. A ideia começou com Rodrigo Cipriano, antigo presidente do Movimento Força Jovem, que já realizava projetos sociais. Hoje, a feira é organizada por Ronne Gonçalves e por sua mãe, Vânia Gonçalves.

População participando de uma das edições da Fermontes (Crédito: Divulgação Oficial)

No início, a feira contava com um pequeno grupo de artesãs, que se reuniam na praça do Senhor dos Montes, em frente à igreja. No local, expunham seus artesanatos, todo primeiro domingo do mês. A feira teve que parar na pandemia por causa das questões sanitárias, mas Ronne Gonçalves e Vânia Gonçalves  logo começaram a convidar outras artesãs para retomarem as atividades em outubro de 2022. Eles estavam decididos a transformá-la em algo maior, tanto na estrutura quanto na quantidade de participantes. Com seu crescimento, eles decidiram nomeá-la de Fermontes.

Em 2022, a Fermontes passou a ter não só o artesanato como entretenimento, pois foram acrescentadas apresentações culturais, música, dança, serviços de corte de cabelo, aferição de pressão, algodão doce, pipoca e rua de lazer gratuita para a criançada. Tudo isso realizado pelas artesãs envolvidas com a organização da feira e voluntários dispostos a mobilizar o bairro e proporcionar pertencimento para a comunidade.

As únicas formas de ajuda externa que os organizadores tiveram foram no empréstimo de barracas ou tendas pela Universidade ou Prefeitura. A secretaria municipal de Esportes já ajudou na realização da rua de lazer, mas na maioria das vezes é a força de vontade dos moradores do bairro que torna esse evento possível. Os moradores do Senhor dos Montes se mobilizam através de mão de obra, venda de caldos e rifas. Na procura por patrocínios e descontos com lojistas.

Atualmente, a feira conta com artesãs do bairro em que surgiu e de outros bairros da cidade. A Fermontes acontece geralmente aos domingos de 9h às 16h. Todas as atrações oferecidas pela feira são gratuitas, com exceção dos produtos confeccionados pelas artesãs.

A Fermontes é mais uma prova do empoderamento feminino e da busca das mulheres para garantir um complemento de ganhos. Atualmente, a organização já conta com 22 artesãs . Os únicos homens que trabalham no projeto Fermontes  são Rodrigo Cipriano, que não está ativo no momento, e Ronne Gonçalves que cuida da parte de organização e do serviço administrativo.

Para expor trabalhos, basta entrar em contato com a Vânia Gonçalves Atualmente, os organizadores estão trabalhando na estratégia de trazer pessoas de outros locais, para que clientes diferentes frequentem o bairro, e desta forma, tornem a feira conhecida em toda a cidade.

A população busca formas de se entreter

Vânia relata que a importância de fazer a Fermontes acontecer vai muito além de conseguir vender seus artesanatos. “A importância da feira é trazer mais animação para a rua, porque dia de domingo não tem nada. A gente trabalha a semana inteira e aí senta para ver televisão. Na feira tem a divulgação do nosso trabalho, mas tem pipoca e algodão doce. Então, mesmo que as pessoas não comprem algo, é importante porque distrai”.

Ela, que aprendeu artesanato desde pequena, hoje faz tapetes, flores, vasos, garrafas entre outros, reutilizando materiais, revela ter paixão pelo o que faz.

Um dos sonhos da Vânia é conseguir levar a Fermontes para o espaço onde fica localizado o Cristo Redentor da cidade. Segundo ela, o local está abandonado, atraindo poucos turistas.  A organizadora acredita que, se a feira acontecesse naquele ponto turístico, mais pessoas frequentariam o lugar e este ficaria mais atrativo. Contudo, Vania sabe que existem obstáculos como a necessidade de banheiros químicos, que possuem custo, pois o lugar pretendido não tem banheiro público.

Complemento de renda

Conceição Mendes, de 65 anos, conta que já faz artesanato há muitos anos e participa da feira desde o início ainda quando Rodrigo era o organizador. Ela aprendeu artesanato desde os 9 anos, atualmente divulga alguns de seus trabalhos no Facebook.

Venda de acessórios feitos à mão expostos em uma barraca (Crédito: Divulgação Oficial)

A artesã ressalta a importância de se ter uma feira como essa no bairro. Tanto para que os moradores reconheçam os artesãos, quanto para que as crianças tenham uma habilidade, na infância um passatempo e enquanto adultas um dinheiro extra.

Para a artista, não é possível viver de artesanato, mas consegue complementar o salário. E que foi graças ao artesanato que ela teve muitas conquistas, como a compra do anel de formatura de suas duas filhas.

Apesar de toda movimentação sustentável e artística, Conceição desabafa que sente falta dos moradores do bairro se envolverem mais com essas iniciativas, a participarem da feira.


Edição: Vanessa Maia

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