Letícia Vilela e Yara Vilela
Quem passa pela rua Coronel Tamarindo, no centro de São João del-Rei, em outros períodos do ano, pode não saber que em perto do dia 25 de julho ela se enche de cores com fitinhas penduradas em um quarteirão. Também há quem passe diariamente e, apesar de notarem as fitinhas coloridas, não percebem que há uma pequena igreja entre as casas.
Na cidade em que as igrejas são enormes e impossíveis de passarem despercebidas, moradores das redondezas da rua Coronel Tamarindo não conhecem notam sua existência. A Comunidade São Cristóvão nasceu na década de 1960 e os moradores das ruas próximas deram sua contribuição. Hoje, ela está sempre aberta e religiosos entram no caminho e voltam ao trabalho e ao mercado. Após o pôr-do-sol de domingo, a missa é discreta, há fieis que não cabem no templo e ficam do lado de fora para acompanhar. A simplicidade só não acontece no dia 25 de julho, quando é comemorado o dia do santo padroeiro dos viajantes e motoristas.
Luciana Penido, tem 46 anos, é funcionária pública e é devota de São Cristóvão desde que se entende por gente. Sua família sempre esteve muito presente na paróquia da cidade e ela seguiu os caminhos. “Eu cresci aqui no interior, e desde pequena acompanhava meus pais nas celebrações de São Cristóvão. Eles sempre foram muito devotos e a fé acabou passando para mim de forma natural,” conta ela. Quando Luciana se casou e formou sua própria família, quis manter essa tradição viva. “Foi assim que comecei a me envolver mais ativamente. No início, era só uma ajudinha aqui e ali, mas com o tempo fui me tornando mais presente e tomando mais responsabilidades,” relembra a mãe de Gabriel e Marcos.
Hoje, Luciana desempenha múltiplos papeis na capela. “Sou uma espécie de faz-tudo na capela. Desde a organização do espaço, até a preparação das celebrações e eventos. Durante a festa de São Cristóvão, ajudo a coordenar a decoração, a organização das procissões e até na cozinha, preparando os caldos para as barraquinhas,” explica. Ela também faz parte do grupo de oração e é responsável por coordenar as atividades das crianças. “É uma rotina intensa, mas muito gratificante,” afirma.
O dia a dia na capela é bem movimentado, especialmente nas semanas que antecedem as grandes festividades. “Começamos o dia cedo, com a limpeza e a organização do espaço. Temos que garantir que tudo esteja impecável para receber os fiéis. Depois, nos reunimos para discutir os preparativos dos eventos e definir quem fará o quê. Também temos momentos de oração em grupo, que são muito importantes para fortalecer nossa fé e união,” descreve Luciana. Durante as festividades, o ritmo é ainda mais intenso, com muitas atividades acontecendo ao mesmo tempo, mas tudo é feito com muito amor e devoção.
A comunidade local é bastante participativa nas atividades e eventos da capela. “Apesar de sermos uma comunidade pequena, as pessoas são muito devotas e sempre estão dispostas a ajudar. Nos eventos maiores, como a festa de São Cristóvão, vemos famílias inteiras se mobilizando para contribuir de alguma forma. Seja ajudando na organização, participando das procissões ou apenas comparecendo para prestar suas homenagens. É muito bonito ver essa união e dedicação,” comenta Luciana.
E ao ser questionada sobre o apoio da paróquia, Luciana disse que ele existe, mas não é nada grandioso: “Recebemos alguma ajuda, principalmente em termos de orientação e suporte para os eventos maiores, mas em termos financeiros e materiais, é bem restrito. Muitas vezes, dependemos das doações da própria comunidade e dos fieis para manter a capela funcionando e organizar os eventos. A paróquia tem muitas demandas e prioridades. Mas a gente se vira com o que tem e segue em frente, sempre com fé e esperança,” diz Luciana.
Segundo a lenda, um homem decidiu ajudar pessoas a atravessar um rio perigoso. Certo dia, ele carregou uma criança muito pesada nas costas, que revelou ser Jesus. A criança explicou que ele havia carregado o peso do mundo, pois ele estava carregando Cristo, o portador do mundo. Daí vem o nome Cristóvão, que significa “portador de Cristo”, do grego “Christophoros”. Santo Cristóvão é frequentemente retratado como um homem grande e forte, carregando uma criança nos ombros enquanto atravessa um rio. Essa imagem é um símbolo de proteção e segurança para os viajantes.
Uma história que sempre emociona Luciana aconteceu no ano passado. “Estávamos organizando a procissão de São Cristóvão e, de repente, começou a chover muito forte. Fiquei preocupada, achando que a procissão teria que ser cancelada. Mas a comunidade, mesmo debaixo de chuva, não desanimou. Quem morava perto foi buscar guarda-chuva e continuaram com a procissão, cantando e rezando. Foi um momento de muita fé e união,” relembra. Quando chegaram de volta à capela, parecia que a chuva havia sido uma bênção, lavando as preocupações e fortalecendo a fé de todos. “A imagem de todos juntos, felizes e unidos, é algo que guardo no coração,” conclui Luciana.
Uma rua tão marcada pelo culto ao santo padroeiro dos motoristas não possui o nome dele ou de algum motorista. Pedro Nunes Batista Ferreira Tamarindo foi um militar baiano do Exército Brasileiro. Liderança durante as guerras do Paraguai e de Canudos. Eventos que dizimaram muitas pessoas, inclusive crianças. Mas a rua não é a única da cidade nomeada por pessoas ou eventos lamentáveis. Afinal, a avenida em que mais ocorrem acidentes na cidade se chama 31 de março. Talvez ela devesse levar o nome de São Cristóvão.
Edição: Vanessa Maia
Imagem de destaque: Letícia Vilela


