Lucas Chaves
Esportes, de modo geral, sempre mexeram muito comigo. Logo, num período de Olimpíadas como ocorreu nesse ano, eu fico num momento de puro êxtase e empolgação. E com o decorrer dos dias das competições, vivo uma instabilidade emocional, onde os sentimentos parecem se misturar, tornando até difícil identificar o que sinto. Contudo, um desporto em especial me toca de uma maneira única e indescritível, o voleibol, ou simplesmente vôlei.
Desde criança acompanho a modalidade e rapidamente me apaixonei por esse esporte maravilhoso. Com ele, tive muitas alegrias, tristezas, frustrações e realizações. É algo que se tornou tão presente na minha vida, que considero parte da minha personalidade. Não é possível falar sobre mim mesmo sem citar o vôlei.
E posso dizer, que tive o privilégio de crescer vendo a melhor geração da história do voleibol brasileiro, tanto no masculino, quanto no feminino. Finais de Mundiais, Olimpíadas, Ligas Mundiais e Grand Prix eram corriqueiras entre as décadas de 2000 e 2010.
Porém, nem tudo eram flores, e podemos dizer que havia sempre uma pedra no sapato chamada Rússia. Com direito a viradas dramáticas, onde nossa vitória parecia certa e saímos derrotados, até partidas equilibradas definidas nos detalhes, os russos estavam lá sempre para atrapalhar nossa soberania.
Foram tantas oportunidades que nos superaram, que o gosto amargo das derrotas fica até hoje. Foi assim em 2002, na final da Liga Mundial Masculina no Mineirinho; em 2004, na semifinal olímpica feminina; em 2006 e 2010 nas finais do Mundial Feminino; em 2012, na final olímpica masculina e mais recente em 2021, na semifinal olímpica masculina.
E isso poderia gerar um sentimento de ódio contra a seleção russa, e não nego que durante algumas partidas senti mesmo, mas com a cabeça fria, percebia o quanto eles eram bons e como essa rivalidade era saudável e desafiadora.
Vencer um título eliminando a Rússia tinha um gosto mais especial, a conquista ganhava mais valor por justamente derrotar um gigante. O jogo mais marcante do ouro feminino nas Olimpíadas de Londres em 2012 foi justamente contra as russas nas quartas-de-finais, mais importante e lembrada que a própria final contra os Estados Unidos. Da mesma forma, podemos dizer que a semifinal olímpica masculina de 2016, onde amassamos os russos, foi um fantasma que estava sendo afastado, abrindo caminho para o título que viria contra a Itália.
Este ano, quando vi que a Rússia estaria fora dos jogos olímpicos de 2024 devido a invasão que Putin promoveu diante do território ucraniano, bateu-me logo uma frustração. Ali não estavam mais “meus malvados favoritos” e quem perdeu com isso não foram apenas os russos, todavia o esporte como um todo. Confesso que não vejo sentido em punir atletas por uma ação do presidente de seu país, mas não é isso que quero falar aqui.
Quero dizer que, para mim, era um roteiro incompleto, um filme de super-herói sem antagonista, uma história sem final. É como se sempre que eu entrasse no canal para ver as olimpíadas, estivesse faltando algo, e de fato estava.
O que seria do Papa Léguas sem o Coiote ou do Piu Piu sem o Frajola? Parafraseando Claudinho e Buchecha, “sou eu assim, sem você” ou melhor sou eu assim sem os russos nas Olimpíadas, sobretudo no vôlei.
Por sinal, num futuro não muito distante, pretendo ter gatas com nomes de atletas russas. Ekaterina (Gamova – voleibol), Maria (Sharapova – tênis), Alina ( Zagitova – patinação no gelo) e Yelena (Isinbaeva – salto com vara).
Tal ideia surgiu quando eu e minha ex-namorada planejamos ter gatos com nomes de artistas russos, devido a paixão dela pela cultura e arte russa. Assim, teríamos felinos com os nomes: Kandinsky (artista plástico), Dostoiévski (escritor), Tchaikovsky (compositor) e Svetlana (bailarina), e na possibilidade de mais um, chamaria Tolstoi (escritor). Contudo, o relacionamento chegou ao fim, entretanto a possibilidade de ter gatos com nomes russos seguiu viva dentro de minha alma.
Assim, por conta da minha paixão pelo esporte estar um pouco acima de minha paixão pela arte, troquei as alcunhas artísticas por esportivas. E mesmo a Rússia causando sempre “transtornos” no voleibol para o Brasil, não desisti dessa ideia.
O que só prova que o amor/admiração e ódio/frustração, por vezes, são sentimentos irmãos.
Todos os textos opinativos publicados no portal Notícias del-Rei são identificados como tal – não refletindo, necessariamente, a opinião editorial do coletivo.
