ARTIGO: INVISIBILIZADOS AOS OLHOS DA SOCIEDADE, MAS OUVIDOS POR TODA A CIDADE – SINOS SÃO-JOANENSES TEM FORTE INFLUÊNCIA AFRICANA

Isabella Mol

Segundo uma matéria publicada em 2018 pelo Portal Geledés, um estudo foi feito na cidade de São João del-Rei e revelou que os cânticos, especialmente católicos, ecoados pelos sinos das vastas igrejas do município, sofreram fortes influências africanas ao longo dos anos. 

Conhecido como “a cidade dos sinos”, São João conta com inúmeras catedrais e segue diversas tradições religiosas em seu calendário, propagadas há décadas. Quando se está no centro é impossível ignorar as fortes badaladas que demoram-se e brincam ao longo do dia, especialmente em festas religiosas. Nas últimas, há dias em que o badalar dura horas e se inicia antes mesmo do alvorecer.

Pensando nisso, o estudante de Música da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Yuri Vieira, realizou uma pesquisa, ao lado de seu orientador Marcos Filho, para entender as origens da linguagem dos sinos na cidade, a qual foi considerada Patrimônio Nacional em 2009. O que ele descobriu foi uma forte influência africana nestes.

“É preciso lembrar que o negro escravizado não podia entrar na igreja católica naquele período, mesmo sendo sineiro. Hoje a gente descobriu que existe grande influência desses negros na linguagem dos sinos”, conta Yuri em entrevista para a Geledés.

Nesse sentido, ao passo em que tocavam as longas melodias católicas, segundo a pesquisa, entende-se que também introduziam ritmos de suas religiões e festas, os quais misturaram-se, com o tempo, e continuaram tocando ao longo de toda a tradição da cidade. Segundo Yuri, pelo menos seis variações de padrão musical puderam ser encontradas, em relação às partituras originais, as quais se assimilam aos toques da capoeira.

Quando entrei em contato com essa pesquisa, me surgiu uma questão em mente: os negros escravizados eram amplamente invisibilizados aos olhos da sociedade, mas ouvidos por toda a cidade. Eles protestaram em alto e bom som e foram aplaudidos pela população da época, ainda que os últimos não soubessem de tal atitude. Os sinos foram, por esse recorte, esperança.

Vê-se aqui uma força e uma capacidade de revolução dos negros escravizados e começa-se a enxergar a história como de fato ocorreu. Isso ao contrário do que se vê na maioria dos livros antigos de História do Brasil, os quais colocam tais cidadãos, tanto como rebeldes, quanto como incapazes, levando a entender que eles simplesmente aceitavam a escravização, sem protelar contra ela.

Quando repara-se na disparidade existente nos livros de escola, percebe-se como a colonização ainda é um processo ativo, especialmente a colonização do saber, que continua seguindo uma versão eurocêntrica.

 

Edgardo Lander, sociólogo venezuelano, em seu livro “Ciências Sociais: Saberes Coloniais e Eurocêntricos”, explica o eurocentrismo como uma ideologia fabricada pela Europa, que a coloca como superior às outras sociedades. Isso porque ela teria conseguido sair do “estado de natureza”, momento no qual as pessoas se encontravam em barbárie e sem um governo, e culminado na civilização. Isto é, tinham chegado a um estado civilizado de convívio, em que existia ordem e progresso. Por tudo isso, cria-se um discurso de que ela deveria servir de modelo para todos os outros territórios.

Tal crença justificou os casos de colonização europeia ao redor do mundo. Ela impôs, ainda, segundo o autor, uma visão de progresso capitalista que nega quaisquer outras formas e pensamentos econômicos e culturais – culminando, também, na colonização do saber e do imaginário. 

Durante este período, explica Aníbal Quijano, sociólogo peruano, no livro “A Colonialidade do Poder, Eurocentrismo e América Latina”, os povos dominados foram inferiorizados, momento em que raça se tornou o primeiro critério de diferenciação entre a população. Propositalmente, o racismo se instaurou como uma forma de dominação, e classificou pessoas negras, como explica Silvio Luiz de Almeida, ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania no Brasil, em seu livro “Racismo Estrutural”, como “bestiais e revoltadas”. Isto, ao passo que os menosprezaram, os prenderam em cadeias de poder e negaram seus direitos à liberdade e à vida.

É preciso notar que, como explica o ministro, raça é um elemento essencialmente político, usado para “naturalizar desigualdades e legitimar a segregação e o genocídio de grupos sociologicamente considerados minoritários” (Almeida, 2019). Nesse sentido, provocar epistemicídios e discriminações diretas e indiretas contra uma cultura e uma população.

Nesse cenário, as instituições se tornaram racistas, porque a sociedade se tornou. O mesmo se deu com a Igreja Católica, que não protegeu os negros, da forma como se dedicou a proteger os índios, ainda que estes também tenham sofrido, e os expulsou das Igrejas. 

Nesse passo, percebe-se porque muito pouco é falado sobre a influência africana na cultura sineira de São João del-Rei: a colonização dos saberes esnobava de qualquer outra forma de conhecimento que não fosse a científica. Desse modo, cânticos e crenças que fugissem do padrão colonial, fugiam do padrão dado como certo e eram ignorados. Os escravizados não tinham a chance de se expressar ou sequer de compor e serem levados a sério, uma vez que seu conhecimento não era valorizado.

Mesmo assim, eles resistiram e lutaram, deixando a sua marca em toda a tradição da cidade, através das badaladas do sino. É importante ver esse ato como uma forma de resistência e de luta, e valorizá-lo, já que no passado não foi.

Tendo visto tudo isso, percebe-se ainda a presença da colonização nos nossos dias, que não nos revela histórias como a estudada por Yuri e não nos ensina corretamente nas salas de aula. Nota-se, ademais, que ela, assim como o racismo, disfarça-se nas justificativas da falsa democracia racial, que tenta dizer que não há discriminação no nosso país e que somos todos o mesmo povo.

Isso não deve ser levado como verdade, já que sabe-se que a marginalização das pessoas negras acompanhou a história brasileira mesmo depois da abolição da escravatura. Porque os libertos não foram reinstituídos na sociedade e nenhum processo de auxílio ou de luta antirracista aconteceu por partes das autoridades que, por lei, têm o dever de proteger seus cidadãos. 

Dessa forma, devemos pensar em formas mudar os dias presentes e futuros, aprendendo com o nosso passado – um passado de morte, de exclusão e de dor, o qual não foi pedido e nem sequer justo – e não ignorando-o. Devemos entender que, assim como explica Sílvio Luiz de Almeida, em uma sociedade em que o racismo é cotidiano, para resolver o problema da desigualdade social, há de se implementar práticas antirracistas efetivas, porque apenas a representatividade não é o suficiente.


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