Lívia Godoi, Letícia Campos,
Maria Luisa Maia e Samanta Aquino
O Conservatório Estadual de Música Padre José Maria Xavier assume um importante papel cultural e social para a comunidade de São João del-Rei. Inaugurado em 1° de março de 1953, o centro oferece aulas gratuitas de contrabaixo, clarinete, violino, violão, canto, entre outros. Atualmente, conta com mais de 60 professores, sendo todos graduados em áreas ligadas à música. A oferta de vaga é divulgada e qualquer pessoa pode participar, podendo ou não ter algum conhecimento musical.
O nome do conservatório faz homenagem a José Maria Xavier, são-joanense que ficou conhecido por seu trabalho como compositor de música sacra e como padre católico. Sua obra chegou a ser reconhecida por Pedro II, que a citou em seus diários como a melhor obra mineira que ouviu. Ele é o patrono da cadeira n° 12 da Academia Brasileira de Música e do Conservatório de São João del-Rei.

História
A história do Conservatório se inicia em 1° de março de 1953 e já em 21 de março do mesmo ano, aconteceu a aula inaugural, ministrada pelo Doutor Belizário Leite de Andrade Neto. A instituição foi criada através da lei Governador Juscelino Kubitschek de 1951, que visava aumentar a formação de profissionais, como compositores, cantores e instrumentistas.
O local tinha por objetivo, primeiramente, dar suporte às orquestras que existiam na cidade de São João del-Rei, a Lira Sanjoanense, de 1776, e a Ribeiro Bastos, de 1970. O Estado de Minas Gerais é responsável pela manutenção do local, juntamente com seus parceiros: as orquestras são-joanenses, bandas musicais, Atitude Cultural, a Universidade Federal de São João del-Rei e a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.

Conhecendo alguns membros do Conservatório
A reportagem esteve com Mariana Beatriz Marques, 21 anos, estudante de Educação Física na UFSJ, apurando a relação da discente com o espaço.
Mariana relata que ingressou em fevereiro de 2024 nas aulas da instituição por influência de seus primos e conhecidos. Foi perguntado a ela sobre o instrumento que toca: “violino”, responde a estudante. Além deste instrumento, a estudante revela praticar também aulas de canto, aprendendo técnicas vocais e análises sonoras. Mariana diz ser uma soprano e para permanecer com essa condição vocal tão única, ela faz aulas de percepção.
Segundo a entrevistada, são apresentadas durante às aulas a parte teórica da música com estudo de partituras, escalas, ritmos e compassos musicais. Em seguida foi perguntado à jovem, qual a influência da música em sua vida. Segundo ela, tem parentes cantores, revelando o seu lado genuíno para música e todo aquele universo.
Ao refletir sobre o viés social do Conservatório, Mariana o vê como uma possibilidade de integração da comunidade são-joanense, uma vez que aulas de música, seja instrumental ou canto, vinculadas ao meio particular, são inacessíveis devido ao alto custo. Assim, outras pessoas como ela, podem aprender sobre música e, consequentemente, melhorar em tantos âmbitos da vida.
A estudante ainda relata sobre um momento marcante que viveu na instituição: poder participar de uma aula, juntamente com o professor Marcos Santos da USP, de Ribeirão Preto (SP). Esse momento, segundo ela, a fez aprender ainda mais sobre violino.
Ela revela que entende que os seus maiores desafios enquanto estudante de música seja aprender as escalas e ritmos. A jovem cita que teve dificuldades para aprender postura e posições dos dedos nas cordas, haja vista, que pratica as aulas uma vez por semana. Mariana pretende continuar estudando, e, posteriormente, aprender a tocar flauta transversal e piano.

Carmen Lúcia Margotti é professora de ensino fundamental aposentada, sempre trabalhou com crianças durante sua carreira como professora. Ela narra fez um concurso para trabalhar na secretaria de qualquer escola, mas foi selecionada para trabalhar no Conservatório de Música em 2014.
O cargo dela consiste em atender os alunos, aos professores. De acordo com a própria Carmen, em entrevista à reportagem, “é como uma secretária de escola”, trabalhando com matrícula, distribuição de aulas, lidando com o sistema próprio do conservatório, notas e boletins.
Ela relata que não trabalha sozinha na secretaria, sendo no total seis pessoas (duas na parte da manhã, duas na parte da tarde – ela trabalha na parte da tarde – e duas a noite). Ela descreve que o trabalho na secretaria do Conservatório é dividido, não deixando sobrecarga para ninguém, mas que a demanda de trabalho de final de ano e início é mais complicado.
Carmen Lúcia relata que no começo do ano eles trabalham em função de fazer as matrículas dos alunos, apesar da matrícula acontecer no mês de janeiro, porém possui a distribuição de horários, sendo que o aluno pode trocar esses horários caso não esteja de acordo com a sua rotina, coisas que são feitas dentro da secretaria do Conservatório.
“O ambiente é ótimo, um lugar que tem muita música e música é tudo de bom. Um ambiente muito bom, a gente trabalha com crianças de seis anos até um adulto de 90 anos. Lá é um ambiente muito gostoso de trabalhar, eu amo o Conservatório”, afirma. Ela conta que em uma sala pode ter uma criança de dez anos e um adulto de 70 anos, sendo dividido de acordo em qual nível o aluno está e não pela idade.
Foi perguntado para Carmen Lúcia qual a importância do Conservatório para a cidade de São João Del-Rei. Ela responde que é muito importante: “o Conservatório de Música é um presente que a nossa cidade tem e que muita gente não valoriza, às vezes nem conhece o local e nem o valor”.
Ela conta que em Minas Gerais possui somente 12 conservatórios de música e o de São João Del-Rei está dentro desse número. Ela comenta que o aluno que entra no Conservatório pode ir com 6 anos e sair com formado em um curso técnico em música.
Ela fala que percebe que os alunos que gostam de música e estão lá porque realmente gostam, que eles são diferentes dos outros jovens, são mais sensíveis, possuem uma outra visão, são mais calmos, percebendo a mudança de quando uma pessoa chega e quando passa algum tempo que está estudando no conservatório.
Foi perguntado a Carmen Lúcia se teve algum aluno que marcou a vida dela ou que foi especial. Ela responde que são vários alunos, mas que os mais marcaram ela são crianças com deficiência: “tem um aluno lá que entrou quando era bem pequenininho, hoje ele tem 27 anos e ele foi pra lá com seis anos, e ele ama o Conservatório, ele tem algumas dificuldades, mas é um menino que vai estudar com felicidade, aquilo lá é a vida dele”.
“Toda mãe deveria proporcionar ao seu filho aprender música no conservatório, porque ali alguns vão seguir a carreira ou não, mas pelo menos teve experiência com música boa”, defende Carmen. Ela enfatiza que a música é muito importante para todos e que só teve a percepção disso quando foi trabalhar lá.
Cristiane Rodrigues é a supervisora do Conservatório de Música. Com muito carisma e profissionalismo, ela apresentou o organismo do instituição para a reportagem, que faz uma descrição abaixo.
Por dentro do Conservatório
Cristiane Rodrigues, é uma das almas que inundam o Conservatório com histórias vindas das memórias mais remotas. Filha de um pai que era extremamente conectado à música, e também à tradição cultural de São João del-Rei, ela cresce sob essa influência significativa do legado paterno.
Logo, ao adentrar a edificação do Conservatório, Cristiane destaca que essa instituição mantém uma relação estreita com a comunidade. Suas apresentações em locais públicos, como supermercados, e projetos com crianças especiais mostram o esforço em tornar a música acessível a todos.
“Nosso Conservatório é um dos mais bem conceituados de Minas Gerais. Nossos profissionais são admirados e fazem um trabalho excepcional em prol da divulgação e manutenção da cultura musical,” afirma.
Com um pouco mais de 30 anos de experiência como professora, Cristiane possui um olhar aguçado para destacar o poder educacional do Conservatório.
Desafios e perspectivas futuras
Apesar de todo o sucesso, o Conservatório enfrenta desafios, como a evasão escolar causada pela falta de transporte e a sobrecarga de atividades dos alunos, que frequentam o Conservatório no contraturno. Mesmo assim, a procura por seus cursos continua alta.
Cristiane, que foi aluna do Conservatório de Música aos sete anos, vê o futuro com otimismo. “O Conservatório é uma pérola dentro de São João del-Rei. Com a parceria da Universidade Federal, temos a oportunidade de formar novos profissionais que podem vir a ser futuros professores do Conservatório,” projeta.
A missão do Conservatório
O Conservatório de Música de São João del-Rei tem uma missão clara: levar cultura e preservar a música, seja ela erudita ou popular. “Aqui, o trabalho é conjunto e busca sempre se renovar, sem deixar morrer o legado,” conclui Cristiane.
Edição: Arthur Raposo Gomes
