Cecília Rodrigues e Isabella Mol
Segundo dados divulgados pelo IBGE, em 2022, 51,5% da população brasileira é composta por mulheres. Esse número não se reflete, porém, nos cargos políticos do país, que são compostos majoritariamente por homens.
Basta olhar para as informações apresentados pelo portal de notícias Brasil de Fato para notar a disparidade: desde 1989, quando o Brasil se tornou República, apenas uma mulher foi eleita à Presidência, enquanto 16 chegaram a ser eleitas como governadoras, das quais somente metade foi escolhida para seus cargos, já que a outra parte chegou até ele com a saída dos titulares.
Em 2020, apenas 12,1% dos prefeitos eleitos no Brasil eram mulheres. O cenário ainda piora quando o assunto é o território mineiro: a cada 100 municípios, sete teriam escolhido mulheres para o cargo de liderança municipal. Na região da Estrada Real, cheia de cidades históricas, o número ainda cai para 4%.
A situação não para por aí. Uma análise da Folha de São Paulo, baseada nos dados do TSE, revela que 3.557 cidades brasileiras historicamente não elegem prefeitas mulheres desde os anos 2000. Nessa lista estão municípios como as grandes metrópoles (Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador), mas também os municípios do interior, como São João del-Rei. No pleito deste ano, duas mulheres estão entre os principais nomes da disputa pelo Poder Executivo: a ex-vereadora Jânia Costa (PRD) e a atual vereadora Lívia Guimarães (PT).
Najla Passos, jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora, pesquisa a eleição de prefeitas e vereadoras no circuito histórico mineiro – e sua participação ativa nas redes sociais. Ao Notícias del-Rei, a pesquisadora comenta sobre os desafios da participação feminina na política:
“A situação das mulheres no Brasil é muito séria, você tem uma presidente que não consegue terminar o mandato, uma vereadora como Marielle Franco que é assassinada e também não consegue. Mulheres inviabilizadas que sofrem violência política de gênero, ameaças todos os dias”, reflete. Ela ainda aponta que o preconceito também invade o campo acadêmico, com a ausência de autoras que debatam sobre política.
Há perspectiva de melhora?

O panorama começa a ser explicado quando nota-se que apenas em 1932 o voto feminino foi permitido por lei, através do Decreto 21.076, após diversos protestos e buscas pelos direitos da mulher. Há um atraso histórico que afasta esse público das decisões políticas e do mundo público. Frente a tudo isso, a questão resultante é: há perspectiva de melhora no cenário?
Quando perguntada sobre suas expectativas para o futuro político das mulheres brasileiras, Najla afirma estar otimista: “eu vejo alguns sinais de melhora. A cota partidária surgiu efeito em muitas cidades. O número de mulheres ainda foi pouco, mas aumentou. Nesta eleição também vemos mais a pluralidade de mulheres, não adianta ser só a mulher do político branca, dona de casa e de família tradicional. Precisa ter mulheres trabalhadoras, negras, lésbicas, trans”.
A pesquisadora também reforça que, mesmo no cenário conservador de Minas Gerais, conquistas como essas lentamente vêm sendo traçadas: seis municípios da Estrada Real, pesquisados por Najla, já são representados na política por mulheres LGBTQIAPN+.
“A gente tem lutado, seja se candidatando, cobrindo, fazendo reportagem, pesquisando na academia… De toda forma, muitas de nós estão lutando pra conseguir mudar esse cenário, e eu acredito que a gente consiga”, garante.
Em sua tese de doutorado, Deborah dos Santos, professora e pesquisadora, explica que a bandeira feminina que vem sendo conquistada precisa se refletir também na mídia, para que as mulheres tenham voz e quebrem todos os padrões que, desde a socialização, as aprisionam no mundo privado e as afastam do mundo público. Deborah sugere que a mídia, um campo extremamente privilegiado e influente na sociedade, naturalmente privilegia os homens, promovendo crenças de descrédito para com as mulheres, mas reforça que isso não deve ser aceito como decisão final.
Sororidade
Najla deixa seu conselho para as futuras políticas ou pesquisadoras da área que estão surgindo, definindo-o em uma palavra: sororidade.
“Nós mulheres precisamos nos unir, deixar de criticar uma à outra e trabalharmos juntas na construção dessa política. Os homens não vão fazer isso pela gente”, desabafa.
A jornalista também afirma que a luta feminina não representa apenas elas mesmas, como também as crianças, jovens, idosos, LGBTQIAPN+, ampliando sua luta para todos aqueles que fogem do privilégio masculino, branco, tradicional e heterossexual.
“É sobre representar todas essas pessoas, tentar falar, unir mais vozes, estar junto com todo mundo, para ampliar sua luta e suas propostas, seus projetos de lei. Ampliem, atinjam um número cada vez maior de pessoas que de fato precisam de políticas públicas”, finaliza.
Edição: Arthur Raposo Gomes
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