Clara Prado, Eduarda Bataglia e Carolina Maia
O termo em si é amplo: o sentido literal da palavra é “a moda de rua“. O significado não pode ser levado ao pé da letra, há muito mais por trás do que apenas algo relacionado ao estilo. Trata-se de um meio cultural onde se há liberdade para se expressar a partir de vestimenta, acessórios, música, arte e estilo de vida. Readaptação, criatividade e autenticidade são os elementos chaves para se entender o que de fato é o streetwear.
Para entender um pouco o que é o streetwear em São João del-Rei é necessário ver e ouvir as pessoas deste meio. A cidade abrange várias camadas do termo, tendo como uma das suas influências os universitários. Por ter uma diversidade ampla de culturas, encontramos diferentes tipos de manifestações que se conectam com as suas vivências.
Ligando ao âmbito universitário, o estudante de Biologia Bernardo Molina antenado as expressões e influências do skate deu ênfase em como o streetwear além de ser um meio que te permite ter uma liberdade criativa, também está vinculado com o conforto, que é algo positivo e necessário no skate, para a execução de manobras etc.

“Tem muitas pessoas com vários estilos diferentes, e um pessoal que tem bastante essa vibe, usa muito esse estilo de roupa e eu acho que é maneiro, é bem grande a cena do streetwear aqui”, enfatiza.
Out Wonder, uma loja localizada em São João del-Rei foi desenvolvida pelo empreendedor Alisson Kaic, teve como inspiração trazer o estilo de rua quebrando paradigmas e buscando aceitação, além do conforto, o que é muito procurado por skatistas.

Para ele, a visualização do skate nas olimpíadas trouxe maior visibilidade para o assunto, pois ao retratar sobre a cena do skate, é importante ressaltar como ainda há uma marginalização nesse meio. Ao ser questionado sobre o mercado do streetwear em São João, Alisson afirma que atualmente a cena está em crescente desenvolvimento e que já é mais vista do que antigamente.
O streetwear é uma cultura tão aberta que possibilita diversas maneiras de criação, além do amplo espaço para expressar a criatividade. E foi isso que ocorreu com o estudante de Psicologia Arthur Leme e o designer gráfico Gustavo Ferreira, que já eram imersos na cultura do street, e utilizaram dessa identificação para transmitir em sua marca Just Trippin a essência das ruas.

“A gente fica muito preso na subcultura do esporte, que é o que a gente vê mais no streetwear; Mas após a leitura deste livro (This is not Fashion Streetwear: past, present and future) eu comecei a enxergar a cena como o que a gente vê nas ruas, então são diferentes subculturas […] Por exemplo, aqui em São João del-Rei a gente vê o streetwear muito forte nos universitários, tipo um abadá de república, um samba canção de atlética; Tipo, o streetwear é uma coletânea dessas diferentes subculturas em determinados contextos”, comenta Arthur.
Para o estudante, os benefícios de ter uma marca no interior vem da facilidade de marcar na cabeça das pessoas a Just Trippin, frequentando locais mais visitados pelos universitários (como o forró) com as roupas da marca ou falando sobre, diferentemente das cidades grandes, onde o mercado é bem mais agressivo e disputado, pela ampla gama de concorrência.
Um dos maiores conceitos da arte urbana é a readaptação, para a tatuadora Lívia Murta, é interessante a maneira de expressar seu estilo com customizações, pegando uma peça que já não faz muito sentido e dando um novo significado à ela. A tatuadora encontra suas inspirações no estilo gótico, moda anos 2000, estilo skatista, exemplificando que dentro do meio é possível juntar as subculturas que você mais se identifica expressando sua personalidade.

“Eu gosto muito do streetwear em São João porque eu acho que aqui a galera compra muito a ideia, gosta muito do rolê da autenticidade; tipo, ‘cê cola’ quarta-feira no forró e parece um desfile de moda muito chique, cada um com seu jeitinho”.
O estudante de Biologia Lucas Alves compartilha da mesma ideia de Lívia Murta em relação à readaptação, e frisa a importância de consumir de brechós para se ter um estilo mais autêntico. Lucas destaca a presença da cena em São João, vê muitos desses grupos como inspiração e também cita a troca de energia como algo positivo.

“Eu acho que São João del-Rei por ter um contexto histórico muito forte, ela vai ajudar e já ajuda, porque é uma bagagem cultural imensa, e além disso é uma cidade muito hospitaleira; A gente tem muita facilidade para abrigar as pessoas né? e eu acho que com o streetwear não foi e nem será diferente”, comenta Marcus Paulo, estudante e proprietário da marca Unfor Coming demonstrando sua identificação com a cidade e a abertura que ela dá para diversos aspectos.
O estudante também enfatiza a vivência de rua e a música desse meio como pontos principais a respeito da identificação com sua marca, que procura representar as vivências de trabalho, estudo, um ‘corre’ no geral, buscando um público que tenha interesses semelhantes aos dele.
Marcus conta com exclusividade sobre um novo drop ainda não lançado e enfatiza que busca contar histórias através de suas peças, que é gratificante ver seu DNA em cada uma delas e procura entender o que está acontecendo ao seu redor para utilizar como inspiração. Ele comenta que teve ajuda da mãe e da avó para a confecção de um novo produto e que ambas aprovaram a ideia, enfatizou que sempre busca em todo seu lançamento trazer algo que remeta a pessoas que ele ama, e que suas ideias costumam surgir como algo espontâneo.

Desde a adolescência até a atualidade
Pluralidade é o que designa a moda urbana, com a internet possibilita que pessoas de diferentes estados e até mesmo países achem diversas identificações e possam explorar cada uma delas. Esse é o caso da DJ Sara Longuinho, moradora de São João del-Rei que tem como inspiração a cena paulista e destaca como suas principais influências as gêmeas Tasha e Tracie junto com o DJ Caio Prince.
“Quando o streetwear entrou na minha vida foi através do skate na minha adolescência, foi quando comecei a ter um contato com esse tipo de estilo, por conta do skate e do rap”. As diversidades dentro do meio possibilitam que haja uma interação entre as pessoas, é muito comum nas periferias de São Paulo os estilos sportlife e o mandrake e eles acabam influenciando lugares que tem uma cultura diferente mas vivências semelhantes, marcas como Cyclone, Lacoste, Mizuno e Oakley são pioneiras nesse movimento.

“Atualmente, tenho dentro da música eletrônica bastante influência no movimento dos BDO’s (Bonde da Oakley), que é a galera consumidora da marca. A gente encontra tanto no funk quanto na música eletrônica. É uma coisa que estou consumindo bastante. Tem me ajudado a entender mais sobre moda, estilo e personalidade.”
A origem
O movimento nasce em diversos pontos diferentes, com manifestações variadas ao redor do mundo mas com uma visibilidade maior nos Estados Unidos. Califórnia é considerada a pioneira no estilo, porém o streetwear estava se emergindo em outros locais como em Las Vegas em bairros periféricos, Nova Iorque com a influência dos Panteras Negras e a relação com o hip hop.
No fim da década de 1970, surge o designer e estilista americano Willi Smith, juntando a moda e a cultura americana, trazendo elementos básicos de uma maneira readaptada e que demonstrava a realidade da época como uma forma de instigação social. Willi foi importante para levar o estilo das ruas para as passarelas.
“Moda é uma coisa de pessoas e os designers devem se lembrar disso. Modelos posam com roupas. Pessoas vivem nelas“, comentou.
Nesse mesmo período, o fotográfo Jamel Shabazz registrou as variações culturais da região de Nova Iorque, colocando sob a lente o que era o cenário das ruas, sempre procurando conhecer as pessoas antes do registro para que não se tratasse apenas de apreciação estética, e sim que o resultado final fosse mais que uma foto, capturando a essência do momento.
É válido lembrar que não há uma regra ou uma régua onde limita até onde vai o streetwear, há várias subculturas dentro do termo que abrange diversos nichos sociais.
Do skatista ao mandrake, do surfista ao punk, todos são manifestações culturais que vêm de grupos marginalizados e que se enquadram nas vertentes do estilo.
As expressões das ruas de São Paulo são diferentes das de Minas Gerais, que se diferencia também de Fortaleza, cada local tem a sua própria maneira de manifestar a sua realidade.
Edição: Arthur Raposo Gomes
Imagem de destaque: colagem feita pela reportagem a partir de fotos publicadas por redes sociais

achei a cena do STREETWEAR em São João Del-Rel muito daora.