Maria Clara Siqueira do Prado
Nos últimos anos, o termo “streetwear” evoluiu de uma subcultura autêntica que visava valorizar os diversos estilos de rua para uma indústria global dominada pelo luxo. Se iniciou como uma expressão do estilo urbano e a sua individualidade, porém ao passar o tempo parece se aproximar mais de marcas de moda de alto padrão e preços que não condizem com a ideia principal. Essa transição levanta um questionamento sobre a verdadeira essência do streetwear e se ele ainda representa a real moda de rua.
O streetwear chegou no Brasil ainda de uma maneira muito estadunidense e aos poucos foi se adaptando para a realidade real das ruas. A princípio o conceito era uma resposta à moda convencional, e não se tratava apenas de roupas mas sim de todo o conceito cultural urbano, envolvendo arte, música etc. dando um espaço de expressão muito grande. Marcas como High Company, Class, PACE entre outras foram pioneiras nesse movimento, conquistando seguidores fiéis.
No entanto, quanto mais o streetwear cresce em popularidade, mais os preços começam a subir e acaba se desvinculando do verdadeiro cenário. “Como o próprio nome já diz, ele nasce de baixo: das ruas e de seus grupos marginalizados, afinal, as ruas nunca pertenceram às elites, e sim, ao povo.” conforme dito pela Julia Lyz, pós graduanda em Negócios e Estética de Moda pela USP.
Hoje se tornou comum encontrar camisetas básicas sendo vendidas por mais de 250 reais ou até mesmo moletom sem muitos adereços por mais de 400 reais. O que era antes algo acessível e democrático, acabou se tornando uma indústria onde o valor é inflacionado pela marca e não pela inovação.
Então, o que de fato é o streetwear?
É um meio onde há a liberdade de expressão para os grupos marginalizados mostrarem a sua própria cultura e serem reconhecidos por isso, ou são apenas peças de roupas sendo vendidas para a elite se sentir pertencente a algo que a princípio não é deles? No entanto, é importante reconhecer que é também um reflexo de mudanças culturais, à medida que os gostos e as aspirações mudam, o streetwear se adapta e evolui.
Ainda assim, apesar da elevação de preços e o comércio crescendo cada vez mais, o estilo das ruas continua a ser um reflexo do que é a vida urbana e ainda mantém, em partes, a expressão cultural dos grupos representados.
A evolução para um mercado mais caro pode ter distanciado parte de sua essência, mas ainda não apagou o impacto revolucionário na moda. Quanto mais a indústria cresce, mais é necessário lembrar do compromisso com a autenticidade.
É fundamental manter viva a voz das comunidades no cenário para a preservação da verdadeira base do streetwear.
Imagem de destaque: reprodução / Instagram – @highcompany
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Ótima reflexão, o que de fato traduz a moda de rua e suas particularidades.
O olhar para o todo como integrantes de uma sociedade, sem exclusões.
Texto sensível e realista. Parabéns Maria Clara.