CRÔNICA: SAUDADE, LÍRIO

Maria Eduarda Resende
(Duda Resende)

É angustiante pensar sobre a saudade. Pesquisei no Google e encontrei que “saudade” é descrita como um “sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, uma coisa ou um lugar, ou à ausência de experiências prazerosas já vividas”. Não acho que seja apenas isso, acredito que seja um sentimento mais forte, misturado com a dor de perder alguém.

Em uma casa laranja, com cheiro de fumaça e café, existia uma senhora gentil, gordinha, de cabelos brancos. Ela adorava ler, escrever, fazer crochê, pintar e principalmente, fofocar. Seu maior hobby era ficar na varanda observando as pessoas. Ligava diariamente para contar sobre algo ou alguém. Ligavam pra ela também, para falar coisas bobas e contar como foi o dia, que eram sempre iguais.

Queria te contar que comecei a trabalhar perto da sua casa e, todo dia, penso que poderíamos almoçar juntinhas e eu levaria doce de leite para a senhora, por mais que depois fosse levar xingo.

Queria te contar que passei na faculdade, no curso que eu realmente queria.

Queria te contar que não faço mais parte das “Filhas de Jó” porque já completei 20 anos e aparentemente estou “velha”. Queria que a senhora fosse na cerimônia.

Depois de três anos, passei na frente da sua casa e andei na linha do trem onde eu e meus primos vivíamos brincando enquanto a senhora olhava pela varanda.

Foi nesse dia que eu entendi o que os escritores queriam dizer quando escreviam que tudo ficou sem cor. Não tem mais caminho para a linha do trem, não tem mais pé de amora, parece que tudo acabou.

Eu sempre associei pessoas com cores, e a senhora sempre foi a cor amarela para mim, significa felicidade. E Suzana significa Lírio.

Como canta Maria Gadú na música Dona Cilá:

“De todo o amor que eu tenho
Metade foi tu que me deu
Salvando minha alma da vida
Sorrindo e fazendo o meu eu
Se querer partir, ir embora
Me olha da onde tu estiver
Que eu vou te mostrar que eu tô pronta”

Saudades, vovó.

Saudades, meu lírio.


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