Júpiter Porã
Um filósofo uma vez falou que foi na desconfiança de si e na capacidade de pensar que ele se enxergou enquanto ser. Desde mais novo nunca senti que esse mundo me pertencia, que eu não me encaixava na norma que outros criaram para a manutenção social. Pertencer, se encaixar, fazer parte… Acredito que todo ser humano só quer se encontrar, mas como fazer isso quando o seu lugar é um não lugar?
Enquanto tomava um gole do café amargo que havia preparado pela manhã, folheava algumas páginas de Um Apartamento em Urano, do filósofo Paul Preciado. Na introdução havia um trecho que dizia: “Não sou um homem. Não sou uma mulher. Não sou heterossexual. Não sou homossexual. Tampouco sou bissexual. Sou um dissidente do sistema sexo-gênero. Sou a multiplicidade do cosmos encerrada num regime político e epistemológico binário gritando diante de vocês”. Reflexivo, dei mais um gole no café. Talvez, assim como Preciado, eu também tenha um apartamento em Urano.
Fechei o livro e fui fazer minhas obrigações domésticas, mas aquele trecho ainda ecoava em meus pensamentos. Sinto que as pessoas são o que o julgamento e a pressão social permitem ser, e não o que realmente são. Métodos, normas, regras, punições: a modernidade foi construída para que as pessoas se coloquem em caixas identitárias, com a intenção de binarizar o mundo e controlar as sociedades no esquema sexo-gênero-classe.
Segundo Judith Butler, “as categorias nos dizem muito mais sobre a necessidade de categorizar os corpos do que sobre os próprios corpos”[1]. Apesar dessa dominação e categorização, alguns acabam se encontrando e se sentindo pertencentes aos lugares estabelecidos, porém o pertencimento nunca me foi dado. Como uma pessoa trans não-binária, não me vejo inserido em nada e, em uma busca incessante de um lugar, acabei descobrindo um não lugar.
Foi neste não lugar que, aos poucos, fui descobrindo e desconstruindo comportamentos e versões que, em outros lugares enxergava, mas não encaixava. Desprendi-me das amarras de um conceito que anula a existência de inúmeras personalidades e estilos.
E foi na resistência e ao me deparar com a incoerência, que, no ceifar da minha adolescência, descobri que o meu não lugar não era tão amargo quanto o café que eu tomava.
[1] https://www.metropoles.com/tipo-assim/quem-tem-medo-de-judith-butler-a-filosofa-que-libertou-as-minorias
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