CRÔNICA: O QUE VIROU A GENTE QUANDO VOCÊ COLOCOU UM PONTO FINAL

Maria Clara Siqueira do Prado

A saudade mais sincera vem em uma quarta-feira aleatória enquanto o sol se põe e a rotina do dia a dia está se encerrando: é nesse momento que vem em minha memória tudo que um dia fomos e tudo o que poderíamos ser. É nas coisas mínimas que você aparece, e eu me pergunto se é justo você ainda permanecer mesmo quando já se foi, se é justo ter sido tão frio enquanto eu abria minha casa.

Talvez seja só a minha percepção de algo que para você não teve significado, mas parecia ser tão verdadeiro que jamais iria passar em minha cabeça que iria doer tanto, ou que iria chegar no fim. É incrível como na maior parte do tempo os assuntos cotidianos voltam para a parte amorosa, e mesmo assim quando chega a nossa vez de sentir e agir não há um manual de como se fazer. Você sente falta também?

O que parecia ser destino demorou dois meses para ser superado. O que era nosso demorou dias para deixar de ser segredo e o que pretendia ser para sempre se encerrou como se fosse apenas mais um livro a ser lido. Mas se a história for contada com contexto, sempre há um que ficou em ruínas.

Livros nas minhas prateleiras, com dezenas de poemas sobre nós. Aquela noite, em que conversávamos sobre a nossa parte obscura e você contou sobre suas paixões, estava tão perto do seu verdadeiro eu. Todas as mentiras ditas naquela noite, onde me dedicou um dos seus poemas favoritos, um desperdício, já que poderia ter lido, pelo menos, para que pudesse aprender algo.

O que nasce com um olhar morre com o mesmo, só que em milhões de pedaços. Eu deveria ter percebido, desde a vez que não me olhou da maneira como eu estava acostumada, eu deveria ter percebido que você preferia estar em qualquer lugar, menos ao meu lado. Lá no fundo, você ainda se lembra de tudo?

Confesso, ainda penso sobre coisas que não fizemos imaginando ser uma realidade, anseio pelos nossos encontros. Pode ficar tranquilo, isso morre a cada vez que me relembro das suas últimas palavras, dos nossos últimos momentos e do que se tornou quando eu te perdi.

Pego os caminhos mais longos, tento observar a rotina com um olhar mais positivo, mas sempre me pego perguntando do por quê e a única resposta que me vem imediatamente é “não sei”. O que um dia era nosso, agora não é mais de ninguém e a única coisa que ainda mantemos em comum é essa pequena cidade, que a cada esquina há um “saudade”.

O que me conforta em meio a todo o caos é lembrar que sentimentos vêm e vão, não sou a mesma que se apaixonou por você e daqui a um ano não serei mais a mesma que chora pelos cantos inconformada e perdida ao turbilhão de pensamentos.

O que não me conforma é que, se eu já estou morta para você, por que ainda insiste em aparecer no meu túmulo?


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